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AVALIAÇÕES DE DERIVA DE APLICAÇÕES AÉREAS

Durante as últimas semanas do mês de Julho de 2018 (e por coincidência faltando menos de um mês para o nosso tão esperado Congresso da Aviação Agrícola do Brasil), foram pulverizadas informações criticando negativamente o uso de produtos fitossanitários no país. Notícias como o aumento do uso de agrotóxicos pelos produtores brasileiros foram divulgadas em tom de alerta, desconsiderando que o aumento pode ser reflexo do aumento das áreas plantadas com grãos no norte do país e os maiores patamares de produtividade alcançados em diversos cultivos. No entanto, o objetivo deste texto não é contestar o modo como são apresentadas as notícias que envolvem direta e indiretamente o nosso setor. Mas sim contribuir com informações técnicas relevantes para o tratamento fitossanitário via aplicações aéreas.

Diante das críticas e olhares atentos sobre as aplicações aéreas, é fundamental promover pesquisas, treinamentos e demonstrações para avaliação de deriva. Do ponto de vista de pesquisas científicas, muitos trabalhos apresentam informações importantes para mitigar a deriva. Por exemplo, no artigo “The Effect of Adjuvants at High Pressures for Aerial Applications” que em português significa “O Efeito de Adjuvantes em Altas Pressões para Aplicações Aéreas” de autoria de Brad Fritz, Clint Hoffmann e Ryan Henry foi apresentada, dentre outras informações não menos importantes, a relação direta entre pressão de trabalho e tamanho de gotas, conforme a tabela abaixo:

Neste artigo foi verificado para todos os tratamentos que o aumento da pressão de trabalho com bicos hidráulicos aumentou o DMV (diâmetro mediano volumétrico), reduziu a porcentagem de gotas menores que 100 micra e do aumento da classe de gotas de finas para médias ou médias para grossas. O motivo é que menores pressões aumentam as gotas, porém estas gotas maiores quando em contato com o vento sofrem maior fragmentação e, consequentemente, mais deriva. Eu recomendo a leitura deste artigo completo que você encontra clicando no link abaixo: https://digitalcommons.unl.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1097&context=westcentresext

O conceito de que aumento de pressão aumenta deriva em bicos hidráulicos está arraigado na cultura dos aplicadores, no entanto, isto é regra apenas em aplicações terrestres. Este pré-conceito acontece até no país de origem deste artigo. Em março deste ano durante uma convenção em Arkansas nos Estados Unidos ouvi uma recomendação de um revendedor de produtos fitossanitários (ou pesticide dealer como são chamados por lá) para usar pressões reduzidas de 20 a 25 PSI nas aplicações aéreas com bicos hidráulicos visando a redução de deriva, logo, contrariando o que foi provado pela pesquisa.

Em outra pesquisa que gerou o artigo “Atomization of Polymer Tank-mixtures with Picloram and 2,4-D” de minha autoria junto a pesquisadores da Universidade de Nebraska-Lincoln, avaliamos diferentes adjuvantes polímeros classificados no mercado norte-americano como anti-deriva em mistura em tanque com 2,4-D + picloram. Os resultados mostraram que todos adjuvantes aumentaram a porcentagem de gotas menores que 100 micra (gotas de maior deriva) comparando-se com apenas o herbicida aplicado sem adjuvantes. Isto demonstra a importante de avaliar o efeito de adjuvantes no espectro de gotas e, consequentemente, na deriva. Abaixo são apresentados os resultados do efeito dos polímeros (P1, P2, P3, P4 e P5) no espectro de gotas:

Vale lembrar que, a razão que calcula o volume da esfera é cúbica, logo, uma gota quando se dividir ao meio se fragmenta em oito gotas. Saiba mais sobre este trabalho e outros clicando no link do evento onde ele foi publicado: http://ncwss.org/wp-content/uploads/2016-North-Central-Weed-Science-Society-Proceedings.pdf

Nos treinamentos e demonstrações de campo por meio das Clínicas de Aeronaves Sabri & DoPro são adotados 3 métodos de avaliação de deriva. O primeiro é por meio do software do USDA que apresenta o DMV ao inserir as informações de velocidade de voo da aeronave, tipos de bicos, vazão, angulação, condições meteorológicas e outras. Abaixo as fotos do equipamento (hardware e software).

O segundo método de avaliação de deriva que usamos é por meio de papeis hidrossensíveis em suportes estrategicamente posicionados de modo que as gotas pulverizadas sejam capturadas e o espectro de gotas avaliado em software. Abaixo a metodologia usada:

De acordo com o DMV encontrado é possível prever o risco de deriva e, se foro caso, ajustar a aplicação para gotas mais seguras.

E o terceiro método usado para avaliar a deriva é pela análise da presença do marcador metálico a base de manganês em coletores de fio de náilon. Onde é usada uma torre de deriva posicionada a 300 m do local onde é feita a aplicação e com vento de través na direção da torre (a distância de posicionamento da torre pode ser alterada para outras distâncias). As condições meteorológicas no momento das avaliações são monitoradas. Abaixo são apresentadas algumas fotos da montagem da torre de deriva:

As avaliações são feitas apenas com água + marcador metálico ou em mistura com produtos fitossanitários e/ou adjuvantes. É importante avaliar o potencial de deriva com produtos fitossanitários, uma vez que as formulações têm influencia sobre o espectro de gotas e, consequentemente, na deriva.

Na torre de deriva que possui 12 metros de altura são analisadas cinco posições do fio de náilon ao longo da torre. As amostras são identificadas, separadas em tubetes do tipo falcon e enviadas para análise nos laboratórios do Núcleo de Estudos e Desenvolvimento em Tecnologia de Aplicação (NEDTA) da UNESP do Campus de Jaboticabal-SP onde é uso o espectrofotômetro de absorção atômica. Com os resultados obtidos são criados mapas e laudos do potencial de deriva da aplicação.

Existem outras alternativas de avaliação do potencial de deriva do ponto de vista biológico, como por exemplo, posicionando em diferentes distâncias do ponto de aplicação gaiolas com insetos ou vasos com plantas sensíveis ao(s) produto(s) aplicado(s).

Contudo, independente do método usado, o importante é avaliar e ficar atento ao potencial de deriva pela técnica adotada pelo piloto. A sustentabilidade no uso de produtos fitossanitários depende do compromisso de cada um de nós envolvidos direta ou indiretamente no tratamento fitossanitário.