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15º Agrimark: Entidades reforçam necessidade de debate racional e comunicação

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   “Sustentabilidade se dá com coerência. ” A fala do presidente do Sindag, Júlio Kämpf, resumiu o tom do 15º Seminário Brasileiro de Marketing no Agronegócio (Agrimark), ocorrido na terça-feira (26), em Porto Alegre. O evento reuniu autoridades, pesquisadores, extensionistas e representantes de diversas entidades do setor primário, para debater os desafios para a competitividade e sustentabilidade do agronegócio. Kämpf ressaltou que a questão dos mitos, da falta de informações da sociedade sobre a importância e realidade do agro e o radicalismo contra o setor são agravados pelo atual quadro de incertezas políticas. “Não há sustentabilidade econômica ou mesmo ambiental sem investimentos em toda a cadeia”, reforçou.

   O 15º Agrimark ocorreu no Auditório da Emater, na capital gaúcha, e foi promovido pelo Instituto de Educação no Agronegócio (I-uma), com patrocínio da Syngenta e apoio da Embrapa. A mediação ficou a cargo da jornalista Gisele Loeblein, colunista de agronegócio do jornal Zero Hora.

   Kämpf destacou números de frota e empresas e enfatizou o esforço da entidade em participar dos debates em torno principalmente das questões ambientais. “Mesmo quando não nos querem por perto, porque muitas vezes o objetivo não é uma busca de soluções ou mesmo uma discussão racional, mas apenas o barulho”, emendou, exemplificando o uso político da temática.

   Ele falou no segundo painel da tarde, que teve como tema Desafios para Sustentabilidade do Agronegócio. Ele dividiu a mesa com o presidente da TNC – The Nature Conservancy, Antônio Werneck; o pesquisador da Embrapa Luiz Clovis Belarmino, e o diretor de Business Sustainability da Syngenta para a América Latina, Valter Brunner.

   No primeiro painel, o tema foi Desafios para a Competitividade do Agronegócio. Ali os convidados foram o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz; o superintendente regional do Banco do Brasil, Edson Bündchen; o presidente da Aprosoja/RS, Luís Fernando Marasca Fucks; a presidente da Associação dos Arrozeiros de Alegrete, Maria de Fatima Marchesan, e o gerente de Inovação e Sustentabilidade da Andef, Roberto Sant’Anna.

RACIONAL X RADICAL

   A necessidade de coerência nos debates havia sido mencionada também pelo secretário estadual de Agricultura, Odacir Klein, na abertura do Agrimark. “Nós temos condições de competir com sustentabilidade, se adotarmos corretamente os conceitos a que se referem esta palavra, sem os radicalismos sem as desinformações e com a busca do avanço tecnológico, que não só é gerador de produtividade, mas é gerador também de preservação ambiental. ”

   O presidente da Aprosoja/RS revelou que a entidade é cética enquanto a questão se sustentabilidade for usada meramente como bandeira política. “A sustentabilidade é um caminho sem volta, mas o agro não está sabendo se situar sobre o contexto político e até filosófico, para poder se situar entre o que é radical e o racional”, resumiu Fucks.

   Já Antônio Werneck também destacou a dificuldade de estabelecer um espaço amplo, transparente e inclusivo nos debates sobre o agronegócio. “Quando não há esses três fatores funcionando, tem-se um espaço que serve apenas a política e/ou ideologia. ” Ele ainda lembrou o risco de se usar exemplos de fora sem entender realmente seu contexto. Nesse caso, referindo-se à agricultura europeia, seguidamente citada como parâmetro em discussões visando barrar uso de insumos ou tecnologias.

   “A agricultura lá é muito fragmentada e protegida por governos, que subsidiam os produtores. Para ter uma ideia do que isso representa, em 2005 a União Europeia passou a discutir regras para o mercado de carbono e normatizou a indústria e até a aeronáutica. Mas não consegue nada para a agricultura porque é muito fechada em cada país. Por isso é sempre importante saber, ao analisar exemplos externos, o quanto é bom senso e ciência e o quanto é política”, contou o presidente da Ong TNC.

   O gancho foi aproveitado pelo representante da Syngenta: “É arriscado se tentar discutir alguma coisa com base em uma decisão tomada no outro lado mundo e originalmente com outros objetivos”, destacou Brunner. Segundo ele, principalmente olhando para uma agricultura onde muitas vezes o interesse é justamente produzir menos porque é mais subsidiada. “Hoje no Rio Grande do Sul temos uma desvantagem competitiva porque o Estado tem uma regulamentação mais rígida baseada em decisões de políticas de outros países. ” E arrematou: “Sem dúvida, nós nos comunicamos muito mal e há muito a ser feito na área. ”

COMPETITIVIDADE

   A fala mais incisiva da tarde foi do economista Antônio da Luz, sobre desafios econômicos. Ele alertou para o fato de que, apesar dos números positivos do agronegócio, o Brasil sofre com falta de competitividade. Isso devido principalmente aos altos custos de produção. Segundo ele, no Brasil a despesa na cultura da soja é 50% maior que nos Estados Unidos. “Na produção de milho, é 60% maior, no trigo é quase o dobro e, no arroz, 50% maior”, exemplificou. Além do custo de produção, Luz destacou como entraves ao setor a logística e acordos comerciais.

   “Se tivéssemos aqui a mesma a mesma infraestrutura dos norte-americanos, o custo de logística seria 70% menor. ” E ilustrou: “Lá, eles usam muito hidrovias. O Brasil tem uma malha hídrica muito maior e o meio não é aproveitado. ” No caso dos acordos, o foco foi o Mercosul. “Permite-se a entrada no País de produtos de fora mais baratos, mas não se deixa, por exemplo, os produtores daqui comprarem fora insumos mais baratos ”, citou.  

   Já Fátima Marchesan apontou a necessidade de se olhar também para os chamados arranjos produtivos. “Nós temos no oeste gaúcho três municípios entre os maiores produtores (nacionais) de arroz. E não há ali, por exemplo, nenhuma indústria de farinha de arroz”, exemplificou. A dirigente arrozeira abordou ainda as vantagens ambientais da cultura, tanto no índice zero de contaminação quanto no fato de só o município de Alegrete conta com mais de 800 reservatórios de água – 90% construídos pelos arrozeiros.

   “Dados que já mencionei em minha coluna no site do Sindag”, lembrou. De onde, aliás, ela destacou também a questão social do agro: “Uma queda de 20% produção de arroz em Alegrete representaria hoje pelo menos 1,8 mil desempregados. ”

   O presidente da Embrapa, Antônio Berlamino, explicou que, em termos de pesquisa, o Brasil conta com soluções para quase 100% das demandas ambientais do setor primário. Ele citou a importância da estatal para as boas práticas no campo e lembrou que a agricultura convencional e a orgânica são complementares. Tanto ele quanto Werneck citaram ainda o potencial do mercado internacional de créditos de carbono para financiar projetos sustentáveis no Brasil. Isso porque a questão das mudanças climáticas está entrando cada vez mais forte na pauta de sustentabilidade mundial. A ponto do próprio mercado ter diversas instituições em busca de projetos, principalmente agrícolas, que gerem créditos de carbono.

   O gerente de Inovação e Sustentabilidade da Andef, Roberto Sant’Anna, enfatizou a necessidade de se preparar a classe política para discutir a adoção de novas tecnologias. “Como regular os avanços com sustentabilidade e segurança na velocidade em que necessitamos? ” Sant’Anna lembrou que há tecnologias sendo desenvolvidas no mundo para responder a demandas que vão desde a resistência da ferrugem da soja a produtos até tecnologias para transporte, como veículos autônomos. “São mudanças que vão ocorrendo de maneira exponencial. Se não formos ágeis para adotarmos essas tecnologias com segurança, outros países o serão e estaremos perdendo competitividade. ”

   O superintendente regional do Banco do Brasil, Edson Bündchen, traçou um histórico de participação do setor financeiro no setor do agronegócio. Ele lembrou que, no caso do Rio Grande do Sul, são necessários atualmente R$ 32 bilhões anuais para bancar a safra gaúcha. “Desse valor, R$ 15 bilhões são conseguidos através das instituições financeiras”. Ele destacou a importância do setor também pela capacidade de análise de cenário das instituições, a partir dos bancos de dados de suas operações.

Odacir Klein

Luís Fernando Marasca Fucks, Roberto Sant’Anna, Valter Brunner, Luiz Clovis Belarmino, Maria de Fátima Marchesan, José Américo da Silva (I-UMA), Gisele Loeblein, Júlio Kämpf e Antônio Werneck

Gisele Loeblein, Júlio Kämpf e Antônio Werneck

Gisele Loeblein e Júlio Kämpf

Valter Brunner e Luiz Clovis Belarmino

Valter Brunner e Luiz Clovis Belarmino

Gisele Loeblein e Júlio Kämpf

Valter Brunner, Luiz Clovis Belarmino, Gisele Loeblein, Júlio Kämpf e Antônio Werneck

Valter Brunner, Luiz Clovis Belarmino, Gisele Loeblein, Júlio Kämpf e Antônio Werneck

Edson Bündchen e Antônio da Luz

Fátima Marchesan e Gisele Loeblein

Gisele Loeblein, Luís Fernando Marasca Fucks e Edson Bündchen

Roberto Sant’Anna, Fátima Marchesan e Gisele Loeblein

Luís Fernando Marasca Fucks e Edson Bündchen

Roberto Sant’Anna e Fátima Marchesan

Roberto Sant’Anna e Fátima Marchesan

Fátima Marchesan, Gisele Loeblein e Luís Fernando Marasca Fucks

Luís Fernando Marasca Fucks e Edson Bündchen

Antônio da Luz