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Aviação agrícola brasileira completa 71 anos

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    Hoje, 19 de agosto, é Dia Nacional da Aviação Agrícola, que marca também os 71 anos do setor no Brasil. Surgida em 1947, em Pelotas/RS, pela iniciativa do piloto Clóvis Candiota e do engenheiro agrônomo Leôncio Fontelles – como resposta a uma praga de gafanhotos que estava dizimando as lavouras do município e levando os agricultores ao desespero, a aviação agrícola brasileira é hoje a segunda maior e uma das melhores do mundo. São cerca de 2,1 mil aeronaves, segundo levantamento junto ao Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB) da Anac e mais de 4 mil profissionais entre pilotos, técnicos agrícolas e engenheiros agrônomos trabalhando diretamente no setor.

    “Nossa   aviação   agrícola   tem   características importantes, que   explicam   em   grande parte sua trajetória bem-sucedida. Uma delas é o profissionalismo que a reveste”, explica o engenheiro agrônomo e ex-diretor do Sindag Eduardo Cordeiro de Araújo – pioneiro e uma das mais importantes autoridades no setor. Ele cita principalmente a regulamentação do setor a partir dos anos 60, tanto o Decreto-Lei 917/69, quanto a criação dos cursos de piloto agrícola (Cavag) e de especialização para técnicos agrícolas (Executores de Aviação Agrícola) e para engenheiros agrônomos (Coordenadores de Aviação Agrícola).

    “Outro fator importante, também decorrente daquela legislação foi a atribuição da prestação de serviços aeroagrícolas à iniciativa privada. Isto, aliado ao espírito empreendedor – outra característica dos empresários e demais profissionais da aviação agrícola, foi fundamental para o desenvolvimento do setor”, completa Araújo, que ainda acrescenta: “Some-se a isso o amor e entusiasmo de quem atua na aviação agrícola.”

    Fundamental para lavouras estratégicas, como soja, cana-de-açúcar, milho, arroz, cítricos e outras, a aviação é a única ferramenta para o trato de lavouras com regulamentação específica e, por isso mesmo, altamente fiscalizável.  Além dos trabalhos de pulverização de produtos químicos ou biológicos e da semeadura e aplicação de fertilizantes, a aviação atua forte no trato de florestas, combate a incêndios florestais, povoamento de rios e lagos e, em diversos outros países, também no combate a mosquitos.

FERRAMENTA DECISIVA

    Inventada em 1911, por um engenheiro florestal alemão e colocada em prática em 1921, a partir de pesquisas de campo do governo norte-americano, a aviação agrícola já existia também na Argentina desde 1926 e teve seu primeiro voo no Brasil em 19 de agosto de 1947, com um biplano Muniz-M9, do Aeroclube de Pelotas. Depois que falharam todas as tentativas de eliminar os gafanhotos que atacavam o município, Fontelles encomendou de um funileiro uma polvilhadeira de acionamento manual, a partir de um desenho que tinha de algum modelo estrangeiro. A engenhoca foi acoplada ao biplano pilotado por Candiota (que hoje é o patrono do setor no País) e o jogo contra os gafanhotos começou a virar.

Clóvis Candiota, junto a um avião da empresa aeroagrícola que abriu com Fontelles em Pelotas, após o sucesso do voo pioneiro de 1947

    Logo em seguida, a ferramenta começou a ser aperfeiçoada e usada em outras lavouras. Inclusive por iniciativa oficial: em 1948, a pioneira Ada Rogato se tornou a primeira mulher a pilotar em operação aeroagrícola, contra a broca do café em São Paulo – e a serviço do Instituto Biológico de São Paulo. Nos anos 60 o setor começou a ser regulamentado e em 1967 ocorreu o primeiro curso de formação de pilotos agrícolas, promovido pelo Ministério da Agricultura – que ficou encarregado diretamente da função até os anos 90, quando o aprendizado passou, por delegação, a escolas privadas – hoje são seis no País, cinco de aviões (2 no RS, 2 em SP e 1 no PR) e uma de helicópteros (em SP). 

Ada Rogato foi a primeira mulher no Brasil (e uma das primeiras no mundo) a pilotar em uma operação aeroagrícola, em 1948

   A representatividade do setor está a cargo do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) e, no caso dos pilotos, do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA). E, a partir deste mês, do instituto Brasileiro da Aviação agrícola (Ibravag), surgido para congregar empresas, pilotos, produtores rurais com aviões próprios e outros órgãos e personagens ligados à cadeia aeroagrícola.

ALTAMENTE REGULADA E SEGURA

   Além da legislação, fiscalização e rastreabilidade, a aviação é um instrumento seguro também pela velocidade – já que consegue, por exemplo, combater uma praga em seu início e terminar o serviço antes que se alterem as condições atmosféricas (que influenciam tanto as aplicações aéreas conta as terrestres). Sem falar na precisão, que muitas vezes é determinante pela redução a necessidade de produtos na lavoura.

   Na fiscalização, são pelo menos cinco órgãos no controle do setor: Ministério da Agricultura, Anac, Ibama, secretarias estaduais de meio ambiente e prefeituras, sem contar Ministério Público, Crea e outras instituições). Entre as várias obrigações das empresas aeroagrícolas, elas precisam ter na equipe um engenheiro agrônomo com especialização em operações aeroagrícolas, um técnico agrícola também com especialização no setor, um funcionário responsável pelo Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional da empresa (SGSO, que obriga todos a seguirem o plano de segurança da empresa), além do piloto altamente qualificado (ele tem que ser primeiro piloto comercial e completar 370 horas de voo para aí conseguir se matricular em um curso de piloto agrícola).

   Além do quadro de pessoal especializado, para operar, cada empresa precisa contar com pátio de descontaminação (onde as aeronaves são lavadas e eventuais resíduos vão para um sistema de tratamento). E CADA aplicação gera um relatório com informações dos profissionais, produto, condições meteorológicas, mapa do DGPS do avião (com a localização da área aplicada e como foi cada sobrevoo, indicando até o ponto onde o sistema de pulverização foi aberto e fechado), entre outros dados. Esses relatórios são enviados mensalmente ao Ministério da Agricultura e têm uma cópia na empresa, à disposição e qualquer fiscalização.

   E, mais do que isso, apesar de todas as obrigações que já tem expressa em lei, a aviação agrícola brasileira é a única no mundo que tem um selo de qualidade operacional e ambiental, que é de adesão voluntária, mas já abrange mais de 60% das empresas do setor. Trata-se do programa Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS), que é apoiado pelo Sindag e coordenado por três universidades públicas: as federais de Lavras (UFLA) e de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais, e a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), em Botucatu/SP.

CAS – além de toda a regulação, setor ainda tem um programa voluntário de sustentabilidade