Cláudio Correia

De um século para o outro esperamos muitas mudanças, mas…

Estávamos em plena década de 80. Na região de São José do Rio Preto havia uma corrida muito
grande de fazendeiros buscando mais terras por esse Brasil.
O alqueire na região estava muito caro e para aqueles que buscavam mais terras para expandir
suas atividades, a alternativa era buscar novas fronteiras, com isso, Rondônia acabou se tornando
o destino de muitos. O Estado era considerado o “Eldorado brasileiro”, terras boas e preços muito
baixos. Vendiam 100 alqueires aqui e comprovam até 4000 lá, dependendo da localização e da
quantidade de pastos disponíveis. Desmatar não era problema, muito pelo contrário, o próprio
Governo Federal incentivava.

Abrir pastagens na época era uma aventura e tanto. Tudo era “importado do sul”, principalmente
máquinas, sementes, mão de obra especializada e de confiança. As máquinas nem de longe
possuíam a tecnologia e conforto das de hoje, as esteiras “D 8”, os tratores CBT eram
praticamente tudo que se tinha disponível para a derrubada das matas e implantação de
pastagens. Claro que as queimadas faziam parte do manejo e o descontrole era comum. Uma vez
derrubada a mata era a hora de jogar a semente de capim e o uso de avião era comum.

Um fazendeiro de São José do Rio Preto estava nessa etapa em suas terras e enviou seu filho para
tal empreitada. Os nomes não são importantes aqui mesmo porque, os dois infelizmente não
estão mais entre os vivos, mas a história aqui na cidade é muito conhecida. O jovem havia
decidido parar os estudos antes de entrar para a faculdade e o pai, para “castiga-lo”, resolveu dar-
lhe uma lição para que, assim quem sabe, ele voltasse aos livros. Nada feito! E lá foi ele para a
nova fazenda do pai com a incumbência de formar as áreas de pastagens. Caminhão carregado de
sementes e mantimentos e também muita ansiedade para mostrar ao pai que era capaz de
realizar tal empreitada, afinal a faculdade parecia muito pior. Foram vários dias de estradas ruins,
chuva que castigava a já péssima estrada. Quando não chovia, a poeira sufocava o jovem que,
naquela altura, já tinha saudades do asfalto e das cidades do estado de São Paulo.
Finalmente chegou à cidade de Ariquemes. Antes de seguir para a fazenda (cerca de 100
quilômetros de terra) foi até o pequeno aeródromo procurar um piloto que havia sido
recomendado para mostrar a área que seria semeada. Combinaram de fazer um sobrevoo no
local, marcar as posições e assim que tivessem tudo pronto começariam a semeadura. Não havia
pista na fazenda e a mais próxima ficava a cerca de 30 quilômetros e seria então a base
operacional para essa empreitada.

Quando o Cessna 180 decolou, o jovem começou a entender o tamanho do desafio que tinha pela
frente. Tudo mata fechada e quando havia áreas limpas era impossível saber onde terminava uma
propriedade e começava outra. Mas tinham em mãos as coordenadas passadas pelo pai em um
papel que já estava todo amassado e marcado pelo tempo que estava no bolso. Afinal, não
poderia ser complicado, as coordenadas estavam bem claras. Quando estavam sobre a área o
piloto perguntou novamente as coordenadas e ele confirmou o que havia mostrado ainda na pista.
Ele então apontou e disse: é lá. Terra boa né? O piloto só olhou e concordou com um breve aceno.
Quando chegaram ao solo o jovem, cheio de confiança, partiu para a pista que seria a base para
deixar as sementes que trouxera de São Paulo. Sementes devidamente guardadas no galpão cedido pelo fazendeiro, ele agora seguiria para conhecer a sede da fazenda. Depois de quase 6
horas de estrada, que mais parecia uma trilha, chegaram tarde da noite. A casa não era bem o que
ele esperava, mas, o cansaço de dias na estrada na cabine de um Ford 11.000 comprado pouco
antes da viagem, fez parecer tudo excelente, principalmente a “velha” cama.

Amanheceu o dia e algumas coisas estavam meio que fora de lugar. A área derrubada que deveria
estar próxima e ao alcance dos olhos, não estava. Mas o caminho tinha sido feito exatamente
como o pai havia orientado e devidamente marcado num caderno que seria utilizado justamente
para anotar tudo que deveria levar na próxima viagem.
Parecia que estava mais longe do que deveria. Mas não se importou com essa impressão, foi logo
tomando as primeiras providências, vendo onde e como estavam as máquinas que o pai havia
mandado para lá já há algum tempo. Também conversou com o pessoal que estavam fazendo a
derrubada de novas áreas e carregando a madeira nobre que seria usada para construir os currais
e cercas. Havia muita madeira. Depois de tomar todas as providências que o pai havia
determinado e mais algumas que julgou serem necessárias, mandou um peão ir até a fazenda
vizinha para passar um “rádio” para a empresa que iria fazer a semeadura contratada.

Eram muitas tarefas a serem realizadas nos 30 dias que havia programado para ficar ali e não
podia perder tempo. Dois dias depois, começou a ouvir o avião trabalhando e até podia vê-lo bem
ao longe no horizonte. O combinado era realizar o plantio e assim que terminasse ele passaria um
“rádio” para o escritório de uma fazenda de propriedade de um amigo lá na cidade de São José do
Rio Preto. Esse amigo passaria o recado para o pai dele. E assim foi feito.
Era muita coisa para aquele jovem que enfrentava tudo aquilo pela primeira vez e falhar não era
uma opção. O pai era conhecido por sua maneira bem rude de ser e certamente a faculdade seria
uma alternativa que ele não queria de forma alguma. Com toda essa pressão ele acabou por
“esquecer” de ir até a área para ver como estava a germinação da semente, deixando para fazer as
vésperas de voltar para casa. Quando passou finalmente pela área viu que estava cheio de
brotinhos e com sua pouca experiência julgou estar tudo certo.
De volta à sua casa e feliz por acreditar ter cumprido a missão dada pelo severo pai, via a
possibilidade de encarar os livros ficar cada vez mais longe.

Passado cerca de 50 dias de sua volta, pai e filho seguiram para a fazenda de Rondônia. O filho
ansioso para mostrar seu trabalho para o pai, de repente se lembra da sensação que teve quando
se levantou pela manhã na fazenda. Será que havia feito alguma besteira? Será que havia marcado
corretamente as coordenadas passadas pelo pai? Um pavor tomou conta dele, mas não podia
demonstrar. Parecia que o destino havia preparado uma coincidência, fazendo-os chegar à
fazenda tarde da noite, assim como em sua chegada anterior. Pela manhã a primeira providencia
do pai foi perguntar ao capataz como estavam os pastos? Se o capim estava bonito. O capataz
bem sem jeito disse que não havia nascido nada. Muito pelo contrário. Foi aí que o pai pegou uma
velha camionete e partiu junto com o filho para onde deveria estar o “pasto”. O filho se
desesperou quando o pai tomou um caminho diferente e ao chegar ao local olhou para o filho e
perguntou? Cadê o capim que deveria estar aqui? O jovem em pânico responde: mas é para o
outro lado. O pai sem entender nada fala para o filho: que lado? Era para ser aqui!
O filho então mostra o lugar que achava ser onde deveria ser semeado. O pasto estava uma
maravilha e tinha até um pouco de gado. O pai vendo o desespero do filho logo entendeu que
tinha um grande erro ali. A fazenda vizinha foi semeada. As coordenadas foram marcadas com um ligeiro erro. Erro que custou muito caro ao fazendeiro e também ao jovem que se não fosse a forte
interferência do avô teria ido direto para a faculdade.

O tempo passou, mudamos até de século e muitas tecnologias estão disponíveis. Somos capazes
de mandar naves para outro planeta, levar pessoas comuns ao espaço e tantas maravilhas mais…
Na agricultura de hoje, somos capazes de colocar tratores em campo sem operadores, realizando
atividades até então impossíveis de serem realizadas até mesmo pelos mais experientes
“tratoristas”.

A quantidade e qualidade dos equipamentos disponíveis hoje, principalmente aqueles que usam o
“GPS – Global Position System” teria proporcionado ao jovem personagem dessa história a
realização de sua tarefa sem nenhum contratempo, nenhum imprevisto e nenhum prejuízo.
Mas a forma com que alguns grupos ainda insistem em comparar uma atividade tão preparada,
regulamentada, eficiente e vital para nossa segurança alimentar, ainda é do século passado.
Esses grupos de pessoas que insistem em não evoluir, e que por motivos escusos, por motivação
política e ideológica, tentam confundir de forma deliberada uma população que já sofre com
tantos outros males. Apresentam informações tão equivocadas que são capazes de semear
qualquer coisa, menos o equilíbrio que tanto precisamos. Esquecem-se de que ao longo do tempo,
junto às tecnologias que surgiram, investiram também no ser humano para que ele seja capaz de
aplicar eficiência e segurança máxima em sua atividade.
Insistem em buscar atalho na ideologia barata e distorcida de nossa realidade. Uma ideologia que
busca conflito ao invés de harmonia, uma ideologia incapaz de ver que quanto mais conflito
semearem, menos comida terá sobre a mesa.

De um século para o outro passamos realmente por muitas mudanças tecnológicas, mas a
principal que esperamos é a mudança do ser humano, que evolua e que se torne mais preocupado
em construir um futuro onde tenhamos um único objetivo: Um mundo melhor para todos!