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Dez perguntas e respostas sobre o uso de aviões no combate a mosquitos

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Desde 2004 o SINDAG propõe ao governo brasileiro que se faça testes e se crie um protocolo para o uso de aviões no combate ao mosquito Aedes aegypti. A inspiração vem principalmente do sucesso da primeira e única experiência de aviões contra mosquitos, ocorrida em 1975, no litoral de São Paulo. Naquele ano, a pulverização aérea foi essencial para eliminar focos de mosquito culex que eram responsáveis por um surto de encefalite que assolava os municípios de Mongaguá, Peruíbe e Itanhaém, na Baixada Santista.

Com a entrada em vigor em junho da Lei Federal 13.301/16, que prevê o uso de aviões entre as estratégias nacionais contra a dengue, chikungunya e zika, o tema assumiu ares de polêmica. Principalmente pela grande desinformação da população, autoridades e até de alguns técnicos sobre o assunto. Mas o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG) entende que esse debate é necessário, não só para esclarecer dúvidas, como para aperfeiçoar a própria proposta do setor aeroagrícola sobre o tema.

A seguir, as principais questões levantadas nos debates sobre o assunto, devidamente respondidas pelo SINDAG, apontando os mitos e verdades:

 1 – Os aviões vão pulverizar agrotóxicos sobre as cidades.

É MITO. Os agrotóxicos, defensivos ou agroquímicos são produtos usados na lavoura, para o combate a pragas específicas. Os produtos e dosagens são específicos para cada tipo de lavoura e para cada tipo de praga, considerando também outros fatores, como estágio da cultura, se a pulverização será por terra ou pelo ar e assim por diante. No caso do combate ao mosquito, os aviões usariam os mesmos produtos hoje aplicados por terra, nos chamados fumacês.

Outra opção (também a ser considerada nos testes) seria o uso de larvicidas biológicos, como o que foi desenvolvido em 2016 pela EMBRAPA. Esse foi inclusive o teor de uma proposta feita pelo Sindag em janeiro de 2018 ao Ministério da Agricultura – para que este articulasse junto ao Ministério da Saúde: aplicação de larvicidas biológicos nas áreas rurais, para combate à febre amarela. Principalmente em São Paulo, Estado que foi considerado área de risco para febre amarela pela Organização Mundial de Saúde (OMS) depois de 364 casos notificados e 50 mortes pela doença.

 2 – Os aviões vão aplicar produtos cancerígenos.

OUTRO MITO. Em uma aplicação aérea, os aviões usam os mesmos produtos usados pelas equipes em terra e fornecidos e aprovados pelo Ministério da Saúde e aprovados também pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O SINDAG não defende um produto específico. Pela proposta do sindicato aeroagrícola, caberia ao Ministério da Saúde fornecer o produto de sua escolha e, havendo dúvida quanto à segurança de algum princípio ativo, caberia às autoridades sanitárias substituí-lo.

3 – A aplicação aérea vai intoxicar pessoas e animais.

NÃO. A diferença com o uso do avião é que o produto vai chegar a pontos hoje inatingíveis pelas equipes em terra, como fundos de terrenos baldios, áreas abandonados e pontos longe das vias públicas. Repetindo: o produto que chegará a esses locais é o mesmo que hoje os fumacês aplicam nas ruas – o que é feito mesmo com as pessoas caminhando nas calçadas e direcionado a pulverização diretamente para a fachada das casas.

Aliás, a expectativa é de que, com a aplicação aérea eliminando também os focos de mosquito até então inatingíveis, não sejam necessárias tantas reaplicações devido a reinfestações.

4 – O uso do avião vai tornar os mosquitos mais resistentes, à medida que elimina apenas os insetos mais fracos e deixa os mais fortes se reproduzirem e “aperfeiçoarem” sua linhagem.

PELO CONTRÁRIO: Justamente o uso do avião é que diminui o risco disso acontecer. Como sua aplicação é mais abrangente e eficaz (trata da área integral), há menos chances de sobrarem mosquitos para esse “aperfeiçoamento” da espécie. Diferente de se fazer a aplicação apenas por terra (trata área parcial), onde os insetos conseguem escapar para pontos fora do alcance dos fumacês e em seguida reinfestarem as áreas aplicadas, aí sim, tornando-se mais resistentes.

5 – A melhor estratégia no combate à dengue, chikungunya e zika é a prevenção, com a eliminação dos focos de água parada em cada casa, área pública e espaços comerciais, além do investimento em saneamento básico.

É VERDADE. É ponto pacífico para o SINDAG que a aplicação de inseticidas (seja pelas equipes em terra ou por aviões) só deve ser considerada em áreas de epidemia. Funciona assim: Quando se tem uma infestação muito grande de mosquitos, já muito além da capacidade de enfrentamento apenas com a eliminação dos focos, é feita a aplicação do fumacê terrestre ou aéreo (ou os dois combinados) para eliminar os mosquitos em excesso e trazer a situação para o alcance do trabalho da população – como um cheque especial: se você extrapola demais o limite, precisa de ajuda externa (neste caso, um empréstimo) para trazer as contas novamente à sua capacidade financeira.

6 – Os produtos aplicados por aviões podem parar a quilômetros do alvo.

A chamada deriva (quando o produto aplicado se desloca da faixa de aplicação) é algo que ocorre tanto nas aplicações aéreas quando nas terrestres, tanto nas lavouras quando na guerra contra o mosquito nas cidades. Para preveni-la, o aplicador tem que considerar fatores como a escolha e regulagem dos bicos de pulverização e as condições de temperatura, pressão atmosférica e velocidade do vento.

E aí também o avião leva vantagem: além do sistema DGPS – que é como o GPS de um carro, só que muito mais preciso e rápido e que indica exatamente cada faixa a ser aplicada, com seu início e fim – e outros sistemas de precisão, o avião consegue realizar toda a aplicação antes que as condições climáticas mudem. Isso cobrindo até 500 quarteirões em uma hora, aplicando uma taxa de 400 mililitros (menos de meio litro) de produto por quadra (cerca de um hectare).

7 – Os aviões vão dar rasantes sobre as cidades.

NÃO. Diferente de um voo de lavoura, onde o avião voa a três metros do chão, a operação contra mosquitos é feita a mais de 40 metros de altura. E a faixa do produto pulverizado (atrás do avião) é tão discreta que é quase invisível a olho nu.

8 – A pulverização aérea será feita de maneira indiscriminada sobre as cidades.

DEFINITIVAMENTE, NÃO. O que o SINDAG defende (isso desde 2004) é que o Ministério da Saúde autorize a realização e testes sobre esse tipo de aplicação. Mais do que isso, o sindicato aeroagrícola vem pedindo que o Ministério forme a equipe técnica, não só com especialistas em saúde pública, mas também como entomologistas (especialistas em insetos), biólogos, médicos e outros profissionais, para que sejam avaliados os efeitos sobre as pessoas, animais e o meio ambiente.

O sindicato aeroagrícola entraria com os aviões, pilotos e a equipe de terra para os testes.

A ideia é atualizar a técnica usada em 1975, na Baixada Santista, com o que é feito hoje em dia nos Estados Unidos, México e até aqui na vizinha Argentina (que há meses já usa aviões no combate a mosquitos). A partir daí se chegaria a um protocolo de quando e como usar a pulverização aérea contra mosquitos no Brasil. E só então se partiria para as operações nas áreas de epidemia.

9 – Os operadores aeroagrícolas estão de olho no mercado que representa a aplicação aérea contra mosquitos. Principalmente porque, segundo algumas fontes, a venda de agrotóxicos no Brasil caiu cerca de 20% em 2016.

OUTRO MITO. A proposta do SINDAG para o uso de aviões no combate ao Aedes aegypti vem desde 2004 (bem antes de qualquer dado sobre queda de venda de defensivos). Além disso, apostando no sucesso das aplicações aéreas, isso praticamente não representaria um mercado, já que a aplicação de inseticidas deve ocorrer em zonas de epidemia e efetivamente acabar logo com o problema.

Some-se a isso o fato de que o sindicato aeroagrícola OFERECEU GRATUITAMENTE aviões, pilotos e equipe de solo para os testes. E lançou uma campanha entre os associados para que, caso os testes resultem em um protocolo a ser colocado em prática, cada membro doe uma hora de aplicação (lembre-se: corresponde a 500 quarteirões cobertos, o suficiente para as maior parte das áreas de epidemia). Ficaria o fornecimento do produto por conta do Ministério da Saúde, assim como o pagamento apenas das horas de voo excedentes.

10 – Mesmo assim, a aplicação aérea seria muito mais cara do que a terrestre.

Independente da oferta de gratuidade em boa parte das horas de voo para as operações, a própria pesquisa em parceria entre SINDAG e Ministério da Agricultura também serviria para definir um comparativo preciso entre os valores das aplicações por terra e por aviões. A aposta do sindicato aeroagrícola é de que não haja diferença significativa. Ainda mais se forem computados detalhes como a necessidade de menos compra de caminhonetes e bombas costais pelo governo federal (os operadores aéreos entram com tudo) e até a diminuição da necessidade de inseticida, pela redução do retrabalho – o que dá vantagem para a aviação.

OBS.: O SINDAG chegou a editar uma cartilha sobre o tema (pouco antes da sanção da Lei Federal 13.301/16) explicando a estrutura da aviação agrícola brasileira, além o histórico e a estratégia proposta ao governo federal, com links para documentos auxiliares. A publicação pode ser acessada clicando AQUI.

SOBRE A AVIAÇÃO AGRÍCOLA

O Brasil possui uma das melhores e a segunda maior aviação agrícola do mundo. Nas lavouras, trata-se do setor com uma das mais altas tecnologias e é o único meio de pulverização com legislação própria – e fiscalizado por órgãos como Ministério da Agricultura, ANAC, ANVISA, IBAMA, Secretarias de meio ambiente dos Estados, Ministérios Públicos Estaduais e Federal e outros.

Cada empresa aeroagrícola é obrigada a ter um pátio de descontaminação, onde as aeronaves são lavadas e eventuais resíduos vão para um sistema de tratamento. Precisa contar com engenheiro agrônomo e pelo menos um técnico agrícola (com especialização em operações aéreas) e tem que enviar mensalmente ao Ministério da Agricultura relatórios minuciosos de todas as operações (indicando áreas tratadas, sua localização, produto usado, receita agronômica para seu uso e até o mapa do DGPS – que registra cada faixa aplicada com início, fim e posição geográfica).

Sem contar que o Brasil é o único país no mundo que conta com um selo de qualidade ambiental no setor – o programa Certificação Aeroagrícola Sustentável, coordenado por três universidades públicas.

Além da aplicação de defensivos, a aviação agrícola também realiza a semeadura de pastagens, aplicação de fertilizantes, tratamento de florestas e o combate a incêndios florestais. E em países como Estados Unidos, México, Venezuela, Cuba e até na vizinha Argentina, a aviação também é usada no combate a mosquitos nas cidades.

Operação aérea de combate a mosquitos no litoral paulista, em 1975

Operação aérea de combate a mosquitos no litoral paulista, em 1975

Operação aérea de combate a mosquitos no litoral paulista, em 1975

Operação aérea de combate a mosquitos no litoral paulista, em 1975

Operação aérea de combate a mosquitos no litoral paulista, em 1975

Equipamento utilizado em aplicações contra mosquitos

Cartilha editada pelo Sindag sobre o tema em 2016

Serviço aéreo de combate a mosquitos nos Estados Unidos

Operação contra mosquitos na Argentina

Aplicação aérea contra mosquitos em Sonora, no México