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É verdade que somente 1% ou 0,1% da pulverização aérea é aplicado na lavoura?

Do mito de que “apenas 1% (ou 0,1%) do produto aplicado via aérea atinge o alvo”

Tornou-se lugar-comum nas críticas às aplicações aéreas a afirmativa de que “apenas 1% (ou 0,1%) do produto aplicado por avião atingiria o alvo.” Apesar do evidente absurdo da afirmativa ela tem prosperado e sido repetida, “ad infinitum”.

Ficam as perguntas : a) de onde surgiu esta afirmativa, originalmente? e b) por que se perpetua?

Aparentemente o mito teve origem em uma constatação antiga (autor desconhecido) e repetida, distorcida, por diversos contemporâneos de que “BASTARIA 1% (ou 0,1%) do defensivo aplicado em uma lavoura para controlar a(s) praga(s). Dito desta forma, a afirmativa pode até não estar totalmente errada, se admitíssemos uma aplicação na qual se depositaria individualmente sobre cada inseto a dose letal necessária. Mas a partir daí afirmar, como afirmam autores atuais, que “apenas 1% (ou 0,1%) ATINGE o alvo”, consiste uma grave distorção. Ora, isso – aplicar o produto somente sobre cada espécime (lagarta, percevejo) é evidentemente impossível, seja por via aérea, terrestre, manual ou por qualquer outro método imaginável e fica portanto restrita a uma constatação teórica, utópica.

Cabe a esta altura refletir sobre o que seja ‘alvo da aplicação’. Do ponto de vista daquele autor original e dos críticos que seguiram se apropriando, de maneira distorcida, do conceito, o “alvo” seriam os insetos ou os fungos, bactérias, etc. Porém, no que se refere à proteção dos cultivos, os alvos não são apenas os “indivíduos-praga”, porém principalmente as plantas onde eles se abrigam e de onde se alimentam e, por vezes, o próprio solo que abriga muitas espécies de pragas. Passa-se então a conceituar como ‘alvo” toda a área (normalmente medida em hectares) – a lavoura – sobre a qual se assenta a cultura. É necessário atingir não somente os insetos / fungos, como raciocinou aquele autor, mas atingir e cobrir todas as plantas ali presentes, protegendo-as e, incluive o solo entre plantas consecutivas. Em resumo, controlar as pragas é o OBJETIVO e a lavoura é o ALVO.

Esta conceituação de alvo torna-se ainda mais evidente quando se trata de combater ervas invasoras, doenças fúngicas ou bacterianas. Insetos que se movimentam sobre a planta são atingidos, não necessariamente pelo contato direto do produto, mas, sim, ao tomar contato com o produto depositado nas plantas ou no solo ou ao se alimentarem de plantas protegidas pelos produtos depositados. É o próprio conceito de “Proteção da Lavoura” (de onde se originou o termo “Defensivo Agrícola”). Então o nosso alvo é, na verdade, a lavoura como um todo. A avaliação das perdas de produtos passa a ser feita, então, comparando-se a quantidade de produto aplicado por ÁREA com a quantidade de produto que efetivamente é depositado na mesma área (sobre as plantas, sobre o solo entre plantas e sobre as pragas ou doenças que neles cohabitam). Há que se acrescentar que, principalmente no controle de doenças muitas aplicações são feitas de forma preventiva, ou seja, quando ainda não se estabeleceu uma doença, ou uma planta invasora, reforçando, assim, o conceito de que o alvo são as plantas e, não, diretamente, a praga ou doença. Ademais, muitos produtos, como por exemplo os herbicidas pré-emergentes, têm como alvo apenas o solo.

Usando tal conceito de “alvo” derruba-se o mito de que “apenas 1% (ou 0,1%) do produto aplicado via aérea atinge o alvo” e inverte-se a situação: comumente mais de 90% atinge o alvo.

Concluindo, o mito resultou de uma distorção do conceito emitido originalmente: ao invés de dizer-se que (teoricamente) “BASTARIA 1% do produto”, passou-se a afirmar que “apenas 1% (ou 0,1% atinge o alvo”. Não há, obviamente, nenhum trabalho de pesquisa que sustente este verdadeiro absurdo.

Eng. Agr. Eduardo Araujo Portal Agronautas 15/7/2013