Claud Ivan Goellner

O herbicida glifosate e as especulações em torno de sua ação toxicológica.

O herbicida glifosate entrou no mercado mundial em 1968. No Brasil é o produto
fitossanitário mais utilizado, principalmente pelo seu uso no sistema de plantio direto. O
Brasil possui hoje mais de 35 milhões de hectares neste sistema de cultivo, sendo
importante economicamente para várias culturas, com destaque para a soja e o milho.
Historicamente tem servido de bode expiatório por setores da sociedade que se
identificam ideologicamente com uma agricultura sem o uso de produtos fitossanitários
e a pressão para proibir o seu uso tem aumentado, principalmente, em alarmes falsos
ligados a uma provável ação carcinogênica.
O glifosate é um dos produtos mais estudados quanto aos seus aspectos toxicológicos e
ambientais. Foi avaliado pela FAO/OMS nos anos de 1986, 1997, 2004,2011 e 2016 e
todos os estudos de genotoxicidade e de ação carcinogênica mostraram que o este
herbicida não é mutagênico, teratogênico ou carcinogênico.
Em março de 2015, um encontro de especialistas da Agência Internacional de Pesquisa
do Câncer (IARC) sediada em Lyon na França analisaram as evidências de alguns
Estudos epidemiológicos nos EUA, Canadá e Suécia que mostraram um aumento no
número de casos de linfoma Não-Hodgkin,enquanto outros estudos epidemiológicos de
corte não mostraram o mesmo. Estudos com camundongos e ratos mostram uma
tendência de aumento de carcinoma do túbulo renal e de câncer de pâncreas, porém
estudos nestes animais não são prova inequívoca de ação carcinogênica ao homem,
devido às grandes diferenças exibidas entre os mesmos e o homem. Apesar destas
limitadas evidências científicas o glifosate foi equivocadamente classificado pelo IARC
no Grupo 2A como provavelmente carcinogênico ao homem.
O Linfoma tipo Não-Hodgkin segundo dados da OMS causa 199 mil óbitos/ano no
mundo e têm nas regiões da América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e algumas da
Europa as maiores incidências. O aumento da incidência deste tipo de câncer está
relacionado à melhoria dos procedimentos de diagnóstico e à epidemia de AIDS. Os
fatores de risco são a função imune alterada, idade, sexo e histórico familiar. Inúmeros
estudos epidemiológicos conduzidos com aplicadores de glifosate, como o “Cancer
Incidence among Glyphosate-Exposed Pesticide Applicators in the Agricultural Health
Study” publicado na famosa revista Environmental Health Perspectives corroboram
estes resultados e mostram que a incidência de 12 dos principais tipos de câncer pela
exposição contínua e por longo período não aumentou a incidência de câncer quando
comparado às pessoas não expostas. Ao final do ano de 2017, a OMS publicou nota
afirmando que os estudos do IARC de 2015 apresentavam inúmeros problemas e
reforçou que não há nenhuma evidência de qualquer risco de câncer por exposição
ocupacional ao glifosate.

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*Professor Titular Aposentado de Toxicologia, Ecotoxicologia e Toxicologia de
Alimentos em cursos de Agronomia, Engenharia Ambiental, Farmácia, Engenharia de
Alimentos e Medicina Veterinária em várias Instituições de Ensino Superior no Rio
Grande do Sul. Atualmente consultor na área.