AgroCooperação: live aponta alta do serviço de colmeias para polinizar lavouras 

Bate-papo virtual da campanha da Semagro trouxe experiências que demonstram também a necessidade de profissionalização dos apicultores que queiram apostar nesse nicho  

Três experiências contando trajetórias, mostrando caminhos e confirmando a tendência crescente do aluguel de colmeias por parte de agricultores, durante a floração de culturas dependentes ou beneficiadas pela polinização por abelhas. Destacando ainda a necessidade de profissionalização dos apicultores que queiram aproveitar essa oportunidade. Aliás, um mercado que, em países como Estados Unidos, já representam a principal renda de criadores de abelhas. Esse foi o teor do bate-papo desta segunda-feira (25), na segunda live de 2022 da campanha AgroCooperação – uma consciência, inúmeros benefícios. Desta vez, com o tema Agricultura e Polinizadores: Interação sustentável que promove crescimento econômico. 

Confira o vídeo da live no final do texto

As apresentações ficaram a cargo da empresária Andresa Beretta, da startup AgroBee; do engenheiro agrônomo e pesquisador André Sezerino, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), e do veterinário Marcos Tavares, desde 2017 responsável pelo projeto apícola da Itaueira Agropecuária S/A – uma das maiores produtoras de frutas do País. A mediação do encontro de agora foi do especialista em Uso Correto e Seguro do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg, parceiro do projeto), Daniel Espanholeto.   

Lembrando que a AgroCooperação é uma iniciativa da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar do Mato Grosso do Sul (Semagro). A campanha é coordenada pela Agência Estadual de Defesa Sanitária, Animal e Vegetal do Estado (Iagro) e tem apoio também do Sindicato Nacional das Empresas da Aviação Agrícola (Sindag), Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav) e da Associação dos Engenheiros Agrônomos do Mato Grosso do Sul (Aeams) – saiba mais no site campanha

A agenda da AgroCooperação em 2022 prevê ainda mais três lives até o final de julho, focadas nos temas: Apicultor (25 de maio), Aviação Agrícola (29 de junho) e Revendas de Insumos (27 de julho). O objetivo é abranger os quatro elos dessa corrente do bem pela sustentabilidade e segurança em campo. Além disso, a campanha começou a colocar no ar uma série de podcasts (serão 10 até julho) – que também pode ser conferido no canal Agrocooperação Oficial no YouTube. 

Confira como foram as apresentações dos convidados na live de agora: 

25AGROBEE 

No caso da AgroBee, Andresa Beretta contou que a startup está multiplicando, através de um aplicativo, o número de agricultores que alugam colmeias de apicultores para polinizar cafezais e outras culturas. O software atualmente “casa” a necessidade de polinização apontada pelo agricultor que precisa do serviço com o apicultor que tem a disponibilidade de colmeias para atendê-lo na florada de sua plantação. E aí uma equipe da startup vai a campo para avaliar o local e demarcar onde colocar as abelhas.  

Mas o programa já está sendo aperfeiçoado para aperfeiçoar o processo. “Estamos preparando um algoritmo para que tudo seja automatizado”, destacou a empresária. Neste caso, aproveitando o georreferenciamento da propriedade e as informações sobre tipo da lavoura, densidade e outras informações repassadas pelo produtor (inclusive com fotos).  

Ao mesmo tempo, a empresa tem buscado mais apicultores parceiros e orientado eles sobre a necessidade das colmeias estarem preparadas para o trabalho de polinização. Aliás, sobre isso Andressa, como os demais participantes da live, ressaltaram a necessidade de profissionalização dos apicultores que queiram atuar nesse nicho de mercado. “O agricultor quer um serviço que dê resultado em sua produtividade.”  

Por isso, além de uma seleção entre os apicultores que queiram se tornar parceiros, a startup promove um trabalho de capacitação dos criadores, através de lives ou encontros presenciais. “Também pontuamos esses apicultores ano a ano, pelo retorno que eles dão nas lavouras”, assinala Andresa. Reforçando que o preparo para esse tipo de serviço requer ainda investimento do apicultor em suas colmeias. “Uma coisa é trabalhar apenas no mel. Outra é focar também em polinização.” 

A startup com sede em Ribeirão Preto, no interior paulista, atua no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, com serviços em plantações de café e girassol, registrando incremente (respectivamente) de 17% e 20% nessas lavouras pela ação das abelhas. Também atua em frutas e está mirando nas plantações de soja, onde a presença das abelhas já registrou incremento de até 20% na produtividade de grãos. Apesar da soja (assim como o café arábica e outras culturas beneficiadas) não depender da polinização por isentos.  

 ANDRÉ SEZERINO 

Na conversa com André Sezerino, Espanholeto abriu a conversa indagando sobre a mensuração do custo das abelhas como insumos nas lavouras. “Na fruticultura, há um cálculo da despesa com adubos e outras produtos. Mas como se pode avaliar o custo com as abelhas, já que é um insumo necessário principalmente em culturas dependentes?”  

“O gasto com outros insumos (fertilizantes, defensivos etc.) é o mesmo no pomar, se você produzir muito ou poucas frutas. Mas se você tiver uma polinização ‘meia boca’, investindo pouco, você terá uma produção menor. Por isso, pé preciso caprichar em uma polinização de boa qualidade”, comparou o pesquisador, sem entrar em cifras. 

Trabalhando na Epagri em Caçador – cerca de 400 quilômetros de Florianópolis, Sezerino atua há sete anos na fruticultura, especialmente maçãs e peras. “Em um clima temperado, quente para as frutas e um pouco frio para as abelhas. “Mas isso faz com que possamos preparar os enxames no auge do inverno para que eles estejam fortes no auge da floração.” Atuando forte também com abelhas nativas, que são menores e de manejo melhor em pomares de alguns tipos de frutas ou com telas antigranizo. 

Se antes o aluguel de colmeias para fruticultura era uma atividade amadora, agora ela já tem algumas premissas, mas a maioria dos apicultores ainda têm esse segmento como atividade secundária – depois da produção e mel. Diferente de países como Estados Unidos, onde a maior parte dos apicultores têm sua principal renda da prestação de serviços e polinização. “Ele tira mel porque tem que tirar, embora também a venda”, assinalou Sezerino. 

“Quanto mais abelhas no pomar, maior a produção.” E são os próprios fruticultores que estão fazendo os apicultores despertarem para isso, com grande campo também para os meliponicultores. Nesse caso, também pelo melhor manuseio em áreas com telas antigranizo (cuja malha fina muitas vezes é fatal para as apis melíferas). No caso das abelhas nativas, algumas têm características essenciais para algumas espécies de frutas. Como o mirtilo, cuja flor tem uma corola em forma de tubinho e a antera (onde fica polem) tem que ser sacudida pelo inseto.  

“Do mesmo modo que se fala em manejo integrado de pragas (MIP) nas lavouras, deveria-se falar em manejo integrado em polinização”, comparou o pesquisador, sobre o grau de preparação que deve ter quem quer trabalhar com os serviços e colmeia para polinização. “Em pomares na década de 70, colocava-se 400 a 500 plantas por hectares. Hoje se coloca até 10 mil planas por hectare. É claro que a recomendação de colmeias para polinização também não é a mesma”, assinala pesquisador. Além de quantidades diferentes de colônias de abelhas, há o manejo pensando na concorrência por outras flores nas áreas ao redor do pomar, com técnicas para que as abelhas concentrem seus esforços onde devem “trabalhar”.   

E há ainda um outro detalhe muito importante para quem quer prestar serviço de polinização: a regularização junto aos órgãos sanitários. “Para transportar as caixas para as lavouras e depois retirá-las, o apicultor precisa da Guia de Transporte Animal (GTA)”, já que abelhas têm o mesmo tratamento de qualquer rebanho quanto ao controle principalmente de doenças. 

ITAUEIRA 

Já no case da Itaueira Agropecuária S/A, Marcos Tavares contou que a empresa foi fundada há quase 40 anos (em 1983) e começou com produção de caju no Piauí. Em 1999, a empresa mudou para a produção de frutas tropicais, começando com o melão no Ceará. Foi aí que a apicultura entrou na vida da empresa, já que se trata de uma cultura dependente de insetos polinizadores. Em 2001 a empresa começou a exportar frutas para Europa e passou a buscar melhor conformação – formato ovalado e boa graduação brix (teor de açúcar), o que dependia de boa polinização das flores dois meloeiros. E aí vieram dificuldades com os apicultores terceirizados – que não tinham colmeias fortes o suficiente e muitas vezes nem sabiam como fazer o manejo adequado para isso, ainda mais em uma região de clima seco e poucas chuvas. 

“Íamos buscar (colmeias) longe, era caro e mesmo assim não se tinha certeza de que os enxames estavam em bom estado. Na polinização de melões, a diferença entre um enxame de 10 mil abelhas e um de 80 mil abelhas é brutal (no resultado da lavoura)”, destacou Tavares. Por conta disso, a Itaueira começou a investir em colmeias próprias a partir de 2014. O que também exigiu muito aprendizado. “Investimos em sombreamento (por conta do calor sobre as caixas), avaliamos a alimentação artificial para manter as colmeias fortes no período sem chuva (que pede também um bom fornecimento de água) e profissionalizamos o manejo”, conta o responsável pelo projeto.  

A empresa também melhorou o indicador do número de abelhas visualizadas em campo. “Temos um monitor que todos os dias vai medir as abelhas em campo, nos dois lados (da carreira da plantação).” A contagem que era de 10 a 12 abelhas, agora é de cerca de 120 insetos. “A gente foi alimentando as abelhas com garapa e panquecas proteicas para passar a seca”, exemplificou Tavares. 

Com isso, a empresa passou de 300 para quase 4 mil enxames, o que garante os 1,5 mil necessários para a polinização de suas frutas e ainda uma reserva técnica para compensar eventuais perdas. Além disso, o crescimento desse departamento acabou colocando a empresa no ramo de mel. “O que já banca 80% dos custos operacionais da apicultura.” A meta é logo zerar a conta direta (embora o investimento compense de longe na produtividade as frutas) para tornar a apicultura autossuficiente. O que não está longe. “Já temos uma produção de 50 quilos de mel por ano em algumas colmeias (o que é o dobro da média nacional)”, conclui Tavares.