O USO DE APLICAÇÕES AÉREAS DE INSETICIDAS NO COMBATE A VETORES DE DOENÇAS

O USO DE APLICAÇÕES AÉREAS DE INSETICIDAS NO COMBATE A VETORES DE DOENÇAS

INTRODUÇÃO

O combate a insetos vetores de doenças é uma das maiores preocupações das instituições públicas e privadas responsáveis pela manutenção da saúde pública. Todas as medidas possíveis devem ser tomadas com a rapidez e intensidade necessárias de acordo com a gravidade da ocorrência das doenças causadas nos seres humanos. Dessa forma, deve se lançar mão de todos os recursos e técnicas disponíveis. A atual ocorrência de várias e graves doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti tem chamado a atenção de todos, uma vez que o número de pessoas atingidas cresce a cada dia exigindo a pronta interferência do poder público para o combate e erradicação desse vetor. Tem-se verificado o emprego de várias técnicas de controle do inseto, desde a orientação da população para diminuir e eliminar os possíveis criadouros nas casas e arredores, bem como o uso da aplicação de inseticidas através de pulverizadores manuais em áreas de tamanho restrito. Porém, uma das possíveis técnicas que ainda não foi utilizada é a aplicação de inseticidas em área total, através da aplicação aérea, assunto que será tratado a seguir.

APLICAÇÃO AÉREA NO COMBATE A VETORES DE DOENÇAS.

O emprego de aeronaves para a aplicação de inseticidas no combate a vetores de doenças é uma técnica que possibilita o tratamento de grandes áreas em um curto espaço de tempo foi e é utilizada em várias ocasiões e em muitos locais. A literatura técnica específica tem registro de sua utilização em várias partes do mundo com resultados positivos, principalmente pela grande área pulverizada em um pequeno espaço de tempo, o que propicia um “tratamento de choque” geral, possibilitando uma repetição do trabalho num intervalo apropriado para a quebra do ciclo evolutivo do inseto vetor.

Aqui não será registrada uma vasta literatura sobre a aplicação aérea, mas serão citados alguns trabalhos que mostram a técnica e os resultados obtidos no combate a vetores de doenças (não necessariamente em ordem cronológica das publicações).

Em dezembro de 1975, a Superintendência de Controle de Endemias – SECEN, do governo do Estado de São Paulo apresentou o trabalho no 8º. Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária: “Combate a Vetores em Municípios do Estado de São Paulo Atingidos por Encefalite”, relatando a metodologia utilizada e os resultados obtidos naquele programa de saúde pública. É citada nesse trabalho a fundamental atuação da aplicação aérea para que os ótimos resultados fossem obtidos, não só na praticamente erradicação da doença, como também na segurança das pessoas envolvidas em todo o processo, como também da população e animais existentes das áreas tratadas.

Gary A. Mount e outros, no artigo“A review of ultralow-volume aerial sprays of insecticide for mosquito control’” (Journal of the American Mosquito Control Association, 12(4):601-1966. 601-618) citam as observações e técnicas recomendadas e utilizadas. Como uma das conclusões citam que “o aumento do número de acres que podem ser tratados pela carga de um avião com o método do ultra baixo volume oferece grande – 2 – vantagem sobre a técnica de aplicação com produtos diluídos em controle de mosquitos adultos. Além disso, a vantagem é reforçada pela maior altura de voo (60 m), faixas de aplicação mais largas que podem ser propiciadas pelas gotas do inseticida não diluído e que se mantém íntegras durante o transporte no ar até os mosquitos alvo e seus locais de vida associados”. (tradução livre). Os autores citam também que “a produção de uma pulverização com espectro de gotas próxima do ideal é necessária para máxima eficácia biológica, como também minimizar manchas em automóveis em áreas urbanas e suburbanas”.

Clayton, J.S. e Sander, T.P.Y., no artigo “Aerial application for control of public health pests”, (International Advances in Pesticide Application, Aspects of Applied Biology 66,2002. 1-8), escrevem que “a utilização de aeronaves para controlar os surtos de vetores através da aplicação seletiva de pesticidas continua a desempenhar um papel vital na prevenção da disseminação de doenças em muitas partes do mundo”. “O emprego da aeronave permite às autoridades de saúde tratar grandes áreas rapidamente para reduzir a presença desses vetores invertebrados tais como mosquitos, moscas e moluscos que transmitem importantes doenças humanas e animais”. “Os aviões são particularmente adequados para as operações de controle de emergência em grande escala onde a velocidade e o momento da aplicação aérea podem prevenir ou impedir a propagação da doença, particularmente em áreas de difícil acesso para as aplicações de solo no tempo necessário”. “A maioria de pulverização aérea envolve o uso de pesticidas, de preferência com rápida degradação e limitada persistência ambiental”. “Adulticidas para o controle de mosquito são aplicados em dosagem extremamente baixa, tipicamente de 5,0 a 50 g/ha de ingrediente ativo em taxas de aplicação de 0,5 a 0,2 l/ha”. Esses autores concluem que “para o controle aéreo de mosquito e mosca tsé-tsé adultos o tamanho de gota ideal é de 10 a 30 μm no ponto de contato com o inseto. A justificativa para isso não é só para melhorar a probabilidade de contato através da produção de maior número de gotas, mas também para minimizar as consequências da deposição de partículas no solo que não é apenas um desperdício, mas também pode levar a contaminação de cursos d’água. Novas técnicas de aplicação avançadas, juntamente com pesticidas seletivos permitem melhor impacto das gotas para controle de insetos voadores. A pulverização aérea desempenha um papel estrategicamente essencial na prevenção da doença por muitas autoridades de saúde em todo o mundo, como pode ser visto com sua recente implantação para controlar a propagação do vírus do Nilo nos EUA e febre no Rift Valley, Oriente Médio”.

Latham, M., em um artigo “Aspects to Consider for Vector Control”, s/d, escreve que “a aplicação aérea de adulticidas é uma parte importante dos muitos programas de controle, na abordagem do Manejo Integrado de Pragas. Para muitos, é o único método efetivo para lidar com grandes populações migratórias de mosquitos”. Ele explica os métodos e resultados de trabalhos técnicos e afirma que “o resultado de todos esses trabalhos sugere que a pulverização de adulticidas de mosquitos deve ter um tamanho que: 1- tenha alta eficiência de impacto ou de coleção no mosquito, 2- permaneça em suspensão por um período de tempo significativo para aumentar a possibilidade de impactar um mosquito e 3- não contenha muito mais que uma única dose tóxica.”

Monteiro, M.V.M., em uma apresentação feita no Congresso Brasileiro da Ciência Aeroagrícola (2008), apresenta os resultados de um trabalho piloto realizado em Registo (SP). As conclusões desse trabalho dão conta de que “1- É tecnicamente viável, pois temos aviões, equipamentos e tecnologia de aplicação comprovados. 2- É eficiente. Com a tecnologia desenvolvida pelo GPCAD em apenas 4 horas 100% dos mosquitos expostos – 3 – são controlados. Um avião agrícola pequeno trata 600 quarteirões por hora. Um avião turbina trata 1400 quarteirões por hora. 3- É econômico: Três tratamentos consecutivos custarão R$ 30,00 por quarteirão, incluindo o inseticida. Com 30 habitantes por quarteirão teremos um custo de R$ 1,00 por habitante. Com 100 habitantes por Quarteirão um custo de R$ 0,30 por habitante.”

Latham, M., em um outro artigo “Application Considerations for Mosquito Control” (s/d), comenta que “o controle aéreo de mosquito com adulticida depende de pulverizações com gotas menores que 50 µm de diâmetro. Essas pulverizações pela sua própria natureza podem derivar por longas distâncias. A fim de minimizar a significância biológica dessa deriva fora do alvo, é essencial um planejamento cuidadoso que depende de bom conhecimento de todos os aspectos que influenciam na dispersão vertical da nuvem de pulverização.” Depreende-se daí a necessidade de que processo de uso da aviação para o controle de mosquito seja muito bem elaborado, com a presença de especialista em tecnologia de aplicação, pois afirma que “ocorrem três fases na dispersão vertical entre a emissão no bico da aeronave e a deposição ao nível do solo: entrada nos vórtices descendentes da aeronave, turbulência geral da atmosfera e sedimentação.”

Uribe, L. J. e outros, no artigo “Experimental Aerial Spraying with Ultra-low-volume (ULV) Malathion to Control Aedes Aegypti in Buga, Colombia”, publicado no Bull Pan Am Health Organ 18(l), 1984. 43-57) informam os resultados dos trabalhos realizados em 1979: “1- O primeiro tratamento aéreo em Buga, com uma dose média de 0,29 l/ha e 0,48 l/ha de malathion, deu bom controle de machos, mas não de fêmeas. 2- O segundo tratamento, aplicado com uma dose média de 0,68 l/ha e 0,64 l/ha, eliminou completamente os machos por dois dias e deu bom controle de machos e fêmeas por seis dias. 3- Embora as pulverizações aéreas fossem realizadas mais rápida e facilmente do que as tradicionais aplicações de solo, elas também foram mais caras. Essas aplicações aéreas podem, então, ser mais úteis em situações de emergência do que as atividades rotineiras de controle.”

Bonds, J. A. S., no artigo “Ultra-low-volume space sprays in mosquito control: a critical review”, publicado na revista Medical and Veterinary Entomology (2012), 1-10, conclui que “o controle de mosquito é muitas vezes altamente controverso, particularmente quando envolve o uso de pesticidas ou controle biológico que têm seu próprio potencial de grave impacto na saúde e meio ambiente”. Diz ainda que “onde o produto químico é aplicado corretamente, nas condições requeridas, a evidência mostra que: (a) a pulverização espacial ULV (UBV) pode ser efetiva no controle da população de mosquito; (b) que o impacto em não-alvo não excede os níveis de preocupação; e (c) que a transmissão da doença pode ser interrompida”.

CONSIDERAÇÕES PARTICULARES

O conhecimento e experiência adquiridos em 50 anos de trabalho na aviação agrícola, seja na aplicação direta de defensivos, participando inclusive na introdução da técnica do ultra baixo volume (UBV) no final da década de 60 e em outras atividades, como também no treinamento de agrônomos, técnicos e pilotos para essa atividade, me dão a possibilidade de emitir uma opinião sobre o uso dessa técnica no controle de insetos vetores de doenças. Inclusive, pelo trabalho executado no programa de controle de vetores de encefalite no litoral do Estado de São Paulo, em 1975, quando fui responsável pelo trabalho realizado na Área de Expansão, a serviço do Ministério da Agricultura (área total de 5.710 ha), me dá a certeza de que essa técnica é perfeitamente viável e segura, quando todos os requisitos técnicos são estudados, avaliados e seguidos à risca. É uma ferramenta complementar aos demais procedimentos já em execução, o que deverá propiciar um resultado positivo em um espaço menor tempo. Trata-se de um trabalho multidisciplinar, com participação de profissionais da área de tecnologia de aplicação, que envolve o conhecimento dos parâmetros da aplicação a ser realizada, o preparo da aeronave e equipamento e avaliação constante da pulverização produzida e das condições meteorológicas durante o trabalho; da área de entomologia, que envolve o pleno conhecimento do inseto vetor, ciclo evolutivo, habitat e comportamento espacial; da saúde pública, que envolve a comunicação com a sociedade – habitantes das regiões a serem trabalhadas e, principalmente, na avaliação da intensidade de ocorrência das doenças transmitidas. Sabe-se que a decisão de usar ou não a técnica de aplicação aérea dentro do programa geral de controle das doenças transmitidas por insetos vetores deverá ser tomada por pessoas ligadas diretamente ao poder público, principalmente relacionadas com os cargos políticos. Essas pessoas deverão decidir levando-se em conta, não somente o clamor contrário muitas vezes decorrente de ideias particulares e simplistas, mas também pela intensidade de ocorrência das doenças transmitidas e o valor humano dos afetados, sejam adultos, crianças e recém-nascidos. A saúde e o bem-estar é um direito de todo o cidadão e essa condição de vida deve ser disponibilizada pelos responsáveis pelo país. Recursos técnicos existem e estão disponíveis. Recursos financeiros também não devem ser restritivos para atender a essa necessidade que já atinge os níveis de epidemia. O tempo é um inimigo da pronta resposta a ser dada à população que já sofre dos males das doenças transmitidas e da preocupação das pessoas ainda não afetadas que devem sentir-se protegidas contra tais males.

Sorocaba (SP), 19 de Fevereiro de 2016

Eng. Agr. JOSÉ CARLOS CHRISTOFOLETTI

Consultor em Tecnologia de Aplicação