Estratégia para a África e o Oriente Médio combina treinamento com drones e pulverização aérea, intercâmbio entre países, novos equipamentos e sistemas de alerta
Um treinamento com drones de pulverização previsto para setembro, na Mauritânia, integra a mobilização da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para reforçar o combate aos gafanhotos na África e no Oriente Médio. A agenda já incluiu, em junho, uma capacitação específica em pulverizações aéreas e terrestres no Marrocos, com programação que abrangeu desde a calibração dos equipamentos e o uso correto dos defensivos até o cumprimento de padrões técnicos e ambientais.
Não se trata apenas de preparação para emergências futuras. Ainda em junho, as operações de controle de gafanhotos no norte da África já haviam abrangido 88.501 hectares, mais que o dobro do registrado em maio. Somente o Marrocos tratou 87.363 hectares, dos quais 33,5 mil hectares por pulverização aérea.
Em outra frente, em julho, técnicos do Centro de Controle de Gafanhotos da Líbia estiveram no Egito para conhecer a estrutura mantida pelo país no monitoramento e no combate ao gafanhoto do deserto. A missão passou por bases operacionais e pelo Departamento-Geral de Assuntos de Gafanhotos e Aviação Agrícola egípcio.
Capacitação e equipamentos
Nesta terça-feira (4 de agosto), ocorre o encerramento, em Trípoli, do projeto emergencial de cooperação técnica TCP/LIB/4003 da FAO, que capacitou 34 profissionais e entregou mais de US$ 105 mil em equipamentos operacionais ao sistema líbio de combate a gafanhotos. A oficina, iniciada nesta segunda-feira (3), foi programada para avaliar as atividades executadas e discutir como manter a prontidão.
A turma anterior do programa concluiu, em 28 de julho, na Argélia, uma capacitação sobre acompanhamento da saúde e do ambiente durante as operações de controle. O treinamento envolveu armazenamento e transporte de defensivos, calibração, redução dos riscos nas pulverizações, avaliação ambiental e análise de resíduos com dados de GPS. A capacitação integrou uma preparação mais ampla que, em outras atividades da FAO, contempla diferentes formas de aplicação, desde equipamentos terrestres até drones e aviões.

Drones no calendário
O treinamento na Mauritânia está marcado para os dias 20 a 23 de setembro, em Ayoun el Atrous, no sul do país. A atividade reunirá delegações de países do oeste africano envolvidas no controle do gafanhoto do deserto. A atividade será promovida em parceria com a empresa Micronair e tem como foco aumentar a capacidade operacional dos países da região no uso de aeronaves remotamente pilotadas.
Antes disso, representantes dos 11 países que integram a Comissão de Combate ao Gafanhoto do Deserto na Região Oeste (CLCPRO, na sigla em inglês) devem se reunir em Oran, na Argélia. De 30 de agosto a 3 de setembro, o grupo avaliará o plano regional de capacitações executado entre 2022 e 2026 e começará a elaborar o programa para o período de 2027 a 2029, reforçando a política permanente de prontidão contra a praga.
Informação antes da aplicação
Outra etapa da preparação ocorreu entre 21 e 25 de junho, no Cairo. Oficiais das três comissões regionais de combate ao gafanhoto mantidas pela FAO – cobrindo 32 países na faixa que vai da África Ocidental ao sudoeste da Ásia – participaram de uma capacitação sobre novas ferramentas para coleta, análise e compartilhamento de informações.
O encontro apresentou, por exemplo, o eLocust4 – utilizado pelas equipes para registrar e transmitir observações de campo georreferenciadas – e o RAMSES 5, que cruza esses registros com imagens de satélite e informações sobre chuvas e vegetação. O sistema transforma os dados em mapas, previsões e alertas. As informações também retornam às equipes de campo, orientando as rotas de levantamento e a definição dos pontos prioritários para controle.
Esse processo ajuda a dimensionar o papel da aviação dentro da estratégia, já que aviões e drones não são mobilizados isoladamente. As aplicações dependem da localização dos focos, da identificação da fase de desenvolvimento dos insetos, das condições meteorológicas e do planejamento das áreas que devem receber tratamento.
Segurança alimentar
Em toda a África, no Oriente Médio e no sudoeste da Ásia, o gafanhoto-do-deserto está entre as pragas agrícolas mais destrutivas. Segundo a FAO, um enxame de um quilômetro quadrado pode reunir até 80 milhões de insetos e consumir, em um dia, alimento suficiente para 35 mil pessoas.
Em 2020, por exemplo, o leste da África — especialmente Somália, Etiópia, Eritreia, Djibuti e Quênia — e o Iêmen, na Península Arábica, enfrentaram o pior recrudescimento de gafanhotos registrado na região em décadas. Para fazer frente à crise, a FAO mobilizou US$ 230,5 milhões para o conjunto da resposta, que incluiu operações terrestres e aéreas em quase 2,3 milhões de hectares, além de monitoramento, coordenação e apoio às populações atingidas — mobilizando aeronaves de levantamento e pulverização e pilotos especializados de diferentes nacionalidades.
Conforme o órgão das Nações Unidas, o esforço conseguiu evitar a perda de 4,5 milhões de toneladas de safras e preservar pastagens suficientes para a produção de 900 milhões de litros de leite, garantindo alimentos para 41,5 milhões de pessoas. O valor comercial dos cereais e do leite preservados foi estimado em US$ 1,77 bilhão.