Argentinos tentarão operação nesta quarta e Sindag entrega ao Mapa plano contra gafanhotos

Operações no país vizinho dependem dos ventos pela manhã e, no Brasil, setor aeroagrícola concluiu o texto de uma estratégia permanente contra a praga

O Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) entregou nessa terça-feira (30) ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) o texto de um plano nacional permanente contra pragas de gafanhotos no Brasil. O material vinha sendo elaborado desde a última semana, a pedido do próprio Mapa, e agora deve ser avaliado pelos técnicos do Ministério para compor uma estratégia oficial definitiva. Paralelamente, na Argentina, uma equipe do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Alimentar (Senasa) localizou, no início da tarde dessa terça, a nuvem de gafanhotos. Os insetos estão pousados na região de Sauce, província de Corrientes.

Os técnicos argentinos tiveram que se deslocar em caminhonetes e ainda andar mais de uma hora a cavalo para chegar ao ponto onde os insetos estão desde a noite de segunda. Com pulverizações suspensas devido ao mau tempo, a equipe mapeou a área onde gafanhotos se amontoam em árvores e no restante da vegetação. As coordenadas vão servir para uma possível pulverização aérea ou por terra na manhã desta quarta (dia 1º). “Vai depender das condições do vento”, explica o representante local das Confederações Rurais Argentinas (CRA), Martin Rapetti.

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Enquanto a chuva mantinha nessa terça os gafanhotos no chão (e impedia o seu combate) na região de Sauce, no Brasil a prontidão na fronteira gaúcha era reforçada pela mudança de ventos em direção ao Brasil e Uruguai. Conforme o fiscal agropecuário Juliano Ritter, da Secretaria de Agricultura do Estado, o vento passou a soprar no sentido sudoeste, com rajadas de 20 quilômetros por hora. “Bem em direção ao Estado”. Segundo ele, a sorte para argentinos e brasileiros estava na temperatura mais baixa, que diminuiu a mobilidade dos gafanhotos.

No entanto, segundo o professor Mauricio Paulo Batistella Pasini, doutor em Entomologia e pesquisador da Universidade de Cruz Alta (Unicruz), o mau tempo, sozinho, não elimina os gafanhotos. “A chuva apenas impede a migração. Os gafanhotos ficam onde estão e voltam a migrar depois que a chuva passa. O que elimina os insetos é o frio. A partir de cinco graus, já eliminaria alguns indivíduos. Mas, para o clima acabar com a nuvem, é preciso temperaturas abaixo de zero.”

PROTOCOLO DE AÇÃO

O plano de ação entregue pelo Sindag ao Mapa veio no mesmo dia da publicação no Diário Oficial da União, pelo Ministério, da Portaria 208/2020. O ato oficial traça diretrizes gerais e autoriza, em caráter emergencial e temporário, o uso de alguns produtos químicos e biológicos contra os gafanhotos – possibilitando ações imediatas enquanto a estratégia definitiva não é concluída.

Os produtos também são abrangidos no texto preliminar do sindicato aeroagrícola, que se baseou ainda em recomendações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O documento abrange dados sobre as características dos insetos e sua voracidade, as formas de combate em cada estágio e a tecnologia disponível no País. O estudo reforça ainda os requisitos legais para as empresas aeroagrícolas operarem, desde registros e licenças ambientais até a formação mínima da equipe – que, além do piloto especialmente formado para isso, precisa ter um agrônomo coordenador e pelo menos um técnico agrícola com especialização em operações aéreas.

O texto preliminar recomenda a exigência de tecnologias de ponta, como fluxômetro (controla o fluxo de produto de acordo com a velocidade do avião) e bicos e atomizadores com capacidade para gerar o tamanho correto de gotas para cada tipo de operação. A lista abrange ainda o sistema de posicionamento via satélite com sinal diferencial (DGPS, que tem precisão de centímetros) com capacidade de gravação de toda a operação.

O documento inclui também técnicas de combate – de preferência, com os gafanhotos no solo, ao final da tarde ou início da manhã (quando a nuvem se condensa em área menor). E, em casos especiais, sobre a nuvem em voo. O trabalho do Sindag também relaciona técnicas para cada tipo de produto e reforça a necessidade de uma rede de monitoramento permanente de insetos – tanto nascidos no País quanto a aproximação e nuvens vindas de fora.

ESPECIALISTAS

A equipe do sindicato aeroagrícola que elaborou o Plano de Ação contou com quatro especialistas, todos agrônomos: a doutora em Biologia e pós-doutora em Bioquímica e Fisiologia Andréa Brondani da Rocha; o doutor em Entomologia Maurício Pasini, da Unicruz, e o doutor em Produção Vegetal (sistemas automáticos de pulverização), Henrique Borges Neves Campos.  O quarto especialista é Eduardo Cordeiro de Araújo, um dos pioneiros em tecnologias aeroagrícolas no Brasil. Ele ajudou aperfeiçoar o projeto do avião agrícola Ipanema (como agrônomo e piloto da Embraer) e realizou os primeiros testes com sistema de DGPS no País. Além disso, ajudou a adaptar ao Brasil protocolos internacionais de combate a mosquitos com uso de aviões, em uma operação que ajudou a frear um surto de encefalite transmitida pelo mosquito culex, na Baixada Santista, em 1975.

VIDEOCONFERÊNCIA INTERNACIONAL

“Agora o Mapa deverá avaliar e propor as alterações e acréscimos necessários ao texto preliminar do Sindag”, explica o presidente do Sindag, Thiago Magalhães Silva. Um resumo do trabalho seve ser apresentado na quinta-feira pela manhã, durante a videoconferência do Sindag com suas coirmãs dos países vizinhos: a Federação Argentina de Câmaras Agroaéreas (Fearca) e a Associação Nacional de Empresas Aeroagrícolas Privadas do Uruguai (Anepa). O encontro terá a participação também de representantes do Ministério da Agricultura de cada país.

Na pauta, a troca de experiências e de informações, além da articulação para um possível plano regional para controle de gafanhotos. O encontro vai ocorrer a partir das 10 horas (horário de Brasília) e terá transmissão ao vivo pelo canal do Sindag no YouTube (www.youtube.com/sindagaviacaoagricola).