Pantanal: é preciso melhorar coordenação e alerta antecipado de incêndios

Segundo Debate Web do Sindag sobre combate aéreo a incêndios apontou diversas lacunas a serem superadas para se aumentar a efetividade das ações conta as chamas na região  

Os erros a acertos das operações contra os focos de incêndio que deste agosto consomem flora e fauna no Pantanal. A atuação da aviação agrícola nesse cenário e o que pode ser feito daqui para frente. Essas foram as questões discutidas no segundo Debate Web promovido pelo Sindag sobre combate aéreo a incêndios. O encontro ocorreu na manhã da quarta-feira (16), com transmissão ao vivo pelo canal do Sindag no YouTube. Entre as principais conclusões do debate, os participantes apontaram problemas pela falta de uma coordenação central para as operações na região. O que provocou falhas no sincronismo na atuação de parte dos recursos materiais e humanos nas linhas de frente contra as chamas. Por outro lado, a atuação das aeronaves agrícolas junto com as brigadas em terra deixou claro mais uma vez o quanto é importante a parceria  entre Estado e empresas.

Atuação das aeronaves agrícolas junto com as brigadas em terra reforçou a importância parceria  entre Estado e empresas – Foto: Gustavo Borges

A rodada teve, desta vez, a participação do comandante do 2º Esquadrão de Aviação Operacional (ESAV) do Corpo de Bombeiros do DF, tenente-coronel Norberto Magno Martins Pimentel, e do subcomandante da unidade, major Anderson Lino do Nascimento. Também participaram o tenente-coronel da reserva Wallace Ruy Rabello Brandão, oficial da reserva do 2º ESAV, e o naturalista, biólogo e apresentador Richard Rasmussen, do programa Brasil Biomas, da TV Cultura. O debate teve ainda o supervisor de Tecnologia Agrícola da empresa Adecoagro, Jadson Batista, e o presidente da Zanoni Equipamentos Agrícolas, Sérgio Zanoni.

Confira no final da matéria o vídeo com a íntegra do debate

Planejamento de estrutura

Além de ajustes no organograma das operações no Pantanal, outras sugestões que apareceram no debate. Entre as principais, investir em um sistema de alerta antecipado. O que permitiria enviar recursos (avião e equipe de terra) para combater os focos antes deles tomarem proporções maiores. “A aviação tem condições de enxergar antes e acionar mais rápido”, resumiu Brandão. O piloto bombeiro da reserva lembrou que além dos recursos naturais e hídricos que se perdem com os incêndios a saúde da população atualmente é muito mais afetada. “Há mais pessoas vivendo dentro do Pantanal”.

A rodada teve a participação de pilotos bombeiros e representantes da mídia e de empresas de equipamentos para aviões e de produção agrícola

Já Rasmussen destacou que, além de mais efetivo, o foco no alerta antecipado contra incêndios requer também a preparação e uma melhor estrutura para resposta rápida. “Precisamos de uma ou mais brigadas permanentes espalhadas pelo pantanal”, completou, lembrando que em 40 anos visitando a região, nunca havia visto incêndios nas proporções da atual temporada. O naturalista também chamou a atenção para detalhes da infraestrutura local que precisam ser melhor preparados.

“No incêndio de agora, houve um esforço muito grande dos bombeiros para proteger as pontes de madeira da região.” O que significou deslocar às vezes uma centena de homens para essa tarefa. Rasmussen lembrou que, se todas as pontes fossem de concreto, esse pessoal poderia estar em outras frentes sem risco de ter rotas de suprimentos, de fuga ou mesmo de deslocamento interrompidas durante um longo tempo.

Sobre isso, respondendo à pergunta de um internauta, o subcomandante do 2º ESAV concordou com a instalação de pistas para aviões próximas às áreas de maior risco de incêndios. “Proporcionariam uma ação mais rápida contra as chamas. Mas precisaríamos antes superar algumas dificuldades junto aos órgãos ambientais para sua instalação”, destacou major Lino.

Também nas respostas aos internautas, Pimentel lembrou que o uso de produtos retardantes em áreas de preservação como o Pantanal ainda esbarra em uma lacuna da legislação ambiental brasileira. “Há um estudo sendo desenvolvido pela Universidade de Brasília (UnB) porque a legislação brasileira é omissa: não diz que não pode suar, mas também não diz que sim. Por isso se está procurando respaldar seu uso”. O oficial contou que há anos o tema foi posto em discussão pra o conselho nacional do meio Ambiente, mas o debate ficou no limbo da entidade. “Estamos há três anos com a UnB fazendo testes com diversos tipos de produtos retardantes, para termos algo consistente para provocarmos o Conama.”

Não por acaso, o uso, testes e regulamentação sobre retardantes será o tema do próximo Debate Web sobre combate a incêndios. Será no dia 1º de outubro, às 10 horas, também pelo canal do Sindag no Youtube.

O primeiro Debate Web sobre o tema ocorreu no último dia 2. Destaque na ocasião para a fala da especialista em aviação agrícola e combate aéreo a incêndios Mônica Maria Sarmento e Souza (uma das maiores autoridade no País sobre combate aéreo a incêndios). Ela foi incisiva incisiva ao destacar o quanto o Brasil está atrasado em organizar meios que já possui, dentro de doutrinas mais do que comprovadas. “Ninguém aqui precisa descobrir a roda e o fogo. Há muito tempo, o mundo inteiro sabe os segredos de combate a incêndios”, enfatizou – reveja clicando AQUI

Empresas

Por parte do setor privado, Zanoni falou sobre os equipamentos de combate a incêndio e lembrou que nem todos os aviões agrícolas do País são preparados para esse tipo de operação. Com 23 anos de experiência em projeto e fabricação de equipamentos para o mercado aeroagrícola, a empresa também sentiu o amento na demanda do uso de aeronaves agrícolas contra as chamas. Tanto que produz comportas hidráulicas que servem, ao mesmo tempo, para o trabalho agrícola e ao combate a incêndios. “Temos tido muitos problemas de incêndios em lavouras de milho e canaviais. Daí desenvolvemos e aperfeiçoamos nossas comportas, que não só são mais ágeis, como possuem melhor regulagem de abertura (o que permite lançamentos mais adequados a diversas situações de fogo).”

Já o supervisor da Adecoagro destacou as mudanças promovidas pela empresa com foco na prevenção e primeira resposta aos incêndios em lavoura. Jadson Batista explicou que a empresa sempre teve foco em boas práticas, mas sentiu que precisava aperfeiçoar seu pessoal quanto a situações de queimadas. “Percebemos que havia muita vontade, mas pouca técnica (falta de sincronismo) que pode ser nocivo no combate a incêndio. Além disso, reforçamos a prevenção.” O trabalho abrangeu desde a contratação de plataformas que identificam focos, até a formação do pessoal de campo com prevenção (manutenção equipamento, verificando temperatura, etc).

As duas empresas aeroagrícolas que atendem a empresa têm aviões equipados com comportas da Zanoni. Além disso, a estratégia de operação contra chamas abrange o uso de líquido gerador de espuma e uma pegada forte em campanhas de prevenção até junto à comunidade. “Zerar risco de incêndios não é possível. Mas dá para reduzir muito e com isso evitar perda de vida pessoas, animais e de alimentos.”

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