Província argentina inicia ação aérea contra traça da uva

Governo de San Juan, província próxima à Cordilheira dos Andes, conta com a aviação agrícola para proteger uma das mais importantes regiões vinícolas do país

O governo da província argentina de San Juan, no oeste argentino, deve iniciar em outubro uma rodada de aplicações aéreas contra a traça da uva (Lobesia botrana). A campanha contra a praga deve abranger este ano 25 mil hectares de videiras – mais da metade da área total de videiras na província. A vitivinicultura é a principal atividade econômica de San Juan, que por sua vez é a segunda mais importante produtora de vinhos do país, atrás de Mendoza.

O Programa de Controle e Erradicação da Lobesia começou neste mês, com a distribuição de armadilhas de feromônios para 1 mil produtores, que detém 10 mil hectares de videiras. A estratégia nesses locais é capturar insetos no primeiro voo como adultos. A segunda etapa será a de aplicações aéreas de inseticidas

MAPEAMENTO DE ABELHAS E ORGÂNICOS
Conforme o Secretário de Agricultura, Pecuária e Agroindústria de San Juan, Marcelo Balderramo, as aplicações por aviação agrícola começam na segunda semana de outubro. Por conta disso, produtores de uvas orgânicas e apicultores devem se dirigir até a próxima segunda-feira (dia 5) para registarem e indicarem a localização de sua produção de uvas ou mel. Isso para que os pontos georreferenciados sejam colocados como áreas de segurança nos mapas de aplicações.

A lobesia causa danos às videiras em sua fase larval, quando se alimenta do néctar das frutas e, ao perfurá-las, provoca o apodrecimento das uvas. A praga foi detectada pela primeira vez em Mendoza, em 2010, e em San Juan 2 anos depois. Só em San Juan, são cerca de 1,8 mil armadilhas, distribuídas em todos os departamentos que possuem vinhedos. Elas são monitoradas constantemente para se detectar a presença do inseto a tempo de seu controle.

Segundo Balderramo, este ano o investimento oficial na campanha contra a peste é de 300 milhões de pesos argentinos (equivalente a R$ 22,2 milhões), dos quais 136 milhões de pesos são oriundos do governo federal e 164 milhões estão sendo investidos pelo governo da província. No ano passado, o governo provincial investiu mais de 180 milhões de pesos (R$ 13,32 milhões) apenas na compra de insumos.

Polêmica terminou de forma curiosa

Apesar de segura, eficiente e crucial para a região, o uso de aviação agrícola contra a traça da uva no oeste argentino já esteve no centro de uma polêmica que terminou de maneira curiosa, em 2017. Na época, o centro do problema era a província de Mendoza, onde uma ação da ONG ambiental Oikos pedia na Justiça a suspensão das aplicações aéreas. A alegação era de que o produto Coragen, utilizado contra a praga era perigoso para a saúde. A entidade também alegou que o governo da província não havia feito estudo de impacto ambiental e nem consulta pública para saber se a população concordava com a medida.

Teste de segurança em Mendoza 2017 incluiu aplicação diretamente sobre colmeias

A discussão envolveu na época o governo provincial, o Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (Inta), o Instituto de Sanidade e Qualidade Agropecuária de Mendoza (Iscamen) e outros órgãos, que rebateram as alegações. Dirigentes e pesquisadores dos órgãos destacaram que havia 10 anos que o produto tinha aprovação do Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa), após testes de eficiência e segurança.

Além disso, as autoridades lembraram que a ação governamental incluindo aplicações aéreas era a mais segura. Simplesmente porque, enquanto o avião utilizava seis litros de produto por propriedade, os produtores utilizariam 800 vezes mais aplicando por conta e com equipamentos terrestres. Mas o ponto final do debate veio quando os órgãos fizeram um teste de campo com um avião aplicando o produto diretamente sobre 30 colmeias. E com outras colmeias posicionadas em uma faixa de 100 metros a partir do alvo. 

O ensaio foi acompanhado por um especialista em apicultura e criadores de abelhas. Todos verificaram o estado das colmeias antes, pouco depois e uma semana após a aplicação, sem detectar mortandade ou mesmo alterações na rotina das abelhas. O governo de Mendoza também segue aliando aplicações aéreas com a técnica de armadilhas de feromônios. As campanhas locais chegaram a reduzir em 95% a presença da traça da uva na província no final de 2018.

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