Um olá para Cecília

Como a resposta de uma menina de dois anos ao gesto de um piloto agrícola gerou uma corrente que emocionou profissionais do setor

Quando o advogado Gustavo Fernandes, 42 anos, levou a filha Cecília, de dois anos e meio, para um passeio no interior de Catiguá/SP, na manhã da terça-feira do feriado de Tiradentes (21), havia duas ideias na cabeça de ambos. Primeiro (principalmente para o pai), evitar aglomerações em tempos de coronavírus. Segundo (grande meta da pequena), perseguir o som de um avião (paixão da menina) que provavelmente estaria trabalhando em uma lavoura avistável da estrada entre o município e Catanduva. A certa altura, o pai parou o carro, saiu, colocou a filha nos ombros e os dois passaram a rastrear o horizonte, na expectativa da aeronave agrícola aparecer em algum momento.

De repente, a pequena Cecília enlouqueceu ao avistar um avião agrícola se aproximando pela direita. “Eu nem consegui fotografar”, lembra Fernandes. O piloto, que já estava retornando à base, percebeu a menina acenando freneticamente e cumprimentou de volta, balançando as asas do avião. Ele também soltou um pouco de fumaça – usada na lavoura para verificar a direção e velocidade do vento. Ricardo Vinicius Corveta Volpe, 36 anos de idade e 12 como piloto agrícola, achou que os dois nem tivessem entendido o cumprimento. Algumas horas depois, não só se surpreendeu, como se emocionou.

Através de uma corrente de conhecidos em comum, Fernandes fez chegar até Volpe um vídeo de Cecília já em casa, imitando com os bracinhos o cumprimento do avião e dizendo “’Bigado’, piloto do avião”. Ele conta que resolveram fazer o vídeo assim que retornaram, para agradecer a sensibilidade do piloto. “Foi surreal a felicidade dela, que agora só fala nisso. No meio de tanta loucura no dia a dia, o cara conseguiu ver a criança abanando no meio do nada e retribuiu o gesto dela. Sou eu que tenho que agradecer”, comenta, contagiado pela alegria da pequena.

CORRENTE

A mensagem chegou ao setor pelo empresário Marcelo (China) Amaral, da Pachu Aviação Agrícola, de Olímpia, repassada por um amigo em comum com o advogado. “Eu me emocionei. Para a gente, que recebe críticas porque as pessoas não entendem nosso trabalho, essa atitude foi uma bênção.” China repassou a mensagem para empresário Jorge Toledo, da Imagem Aviação Agrícola, que sabia estar operando naquela área. “Eu logo mostrei para a família toda e todo mundo achou muito legal”, conta Toledo, que logo cogitou trata-se de Volpe. Era ele o piloto da Imagem que estava atendendo a uma lavoura em Catiguá. Ligação feita e fato confirmado, a mensagem foi enfim entregue destinatário.

Na quarta-feira (24), foi a vez do piloto gravar um vídeo para Cecília. Volpe se apresentou e agradeceu o carinho da menina, convidando a ela e ao pai para conhecerem a empresa. “Eu estava a uns 500 pés de altura (cerca de 150 metros), porque já era um voo de translado (a caminho de casa). Vi a pequena e o pai acenando e acenei de volta com o avião. Soltei também um pouco de fumaça e segui adiante. Nem achei que tinham entendido”, conta o piloto. Mal sabia ele que, mesmo tão novinha, a menina tem essa paixão desde sempre. E com uma forcinha do pai.

“Tanto que quando ela ouve um, logo diz ‘ó o avião’. E, quando vamos a São Paulo, a gente sempre para junto ao Aeroporto de Congonhas e fica olhando o movimento”, relata Fernandes. O pai lembra ainda que a dupla também tem um ponto preferido em São José do Rio Preto: “A gente já foi muito no restaurante Pouso e Decolagem, situado perto da pista do aeroporto da cidade.” A cidade é justamente onde fica uma das bases da Imagem Aviação Agrícola, o que deve facilitar a visita da pequena, que agora tem outro grande momento pela frente.

Enquanto isso, o pai de Cecília acredita que a sensibilidade demonstrada por Volpe é provavelmente característica necessária para se atuar com todos os cuidados necessários na aviação agrícola. “Quem não tem sensibilidade não faria o que ele fez”, completa Fernandes, que reforçou essa percepção em um terceiro vídeo, junto com a filha.