{"id":1407,"date":"2020-07-15T16:42:05","date_gmt":"2020-07-15T19:42:05","guid":{"rendered":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/?post_type=colunas_sindag&#038;p=1407"},"modified":"2020-07-15T16:42:05","modified_gmt":"2020-07-15T19:42:05","slug":"a-era-da-irrelevancia","status":"publish","type":"colunas_sindag","link":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/colunas_sindag\/a-era-da-irrelevancia\/","title":{"rendered":"A era da irrelev\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<header class=\"l-header u-no-print c-elastic-header\" data-elastic-header=\"\" data-offset-target=\".toolbar\" data-tolerance=\"40\">\n<div class=\"l-header__wrapper\">\n<div class=\"c-search c-search--fixed\"><em>Irrelev\u00e2ncias, e n\u00e3o acontecimentos, se tornaram uma esp\u00e9cie de p\u00e3o nosso de cada dia, no debate atual<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<article id=\"c-news\" class=\"c-news\">\n<div class=\"block\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"flex flex--gutter flex--col flex--md-row\">\n<div class=\"flex-cell\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col col--md-1-1 col--lg-10-15 col-offset--lg-5-18\">\n<div class=\"c-tools-share c-tools-share--bordered-md toolbar rs_skip\">\n<ul class=\"c-tools-share__list\" data-sharebar-utm-campaign-prefix=\"comp\" data-sharebar-counter=\"\" data-sharebar-buttons=\"facebook whatsapp twitter\" data-sharebar-channel=\"colunas\/fernandoschuler\" data-sharebar-limit=\"2\" data-sharebar-url=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/fernando-schuler\/2019\/01\/a-era-da-irrelevancia.shtml\" data-sharebar-uolpd-id=\"content\" data-sharebar-text=\"Fernando Schuler: A era da irrelev\u00e2ncia\">\n<li class=\"c-tools-share__item\" data-share-button=\"facebook\">Um dos subprodutos mais curiosos da democracia digital \u00e9 o gosto generalizado pela tagarelice e pelos assuntos irrelevantes, que parece ter tomado conta, como uma erva daninha, do debate p\u00fablico.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"block\">\n<div class=\"container js-paywall\" data-paywall-box=\"\">\n<div class=\"flex flex--gutter flex--col flex--md-row\">\n<div class=\"flex-cell\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col col--md-1-1 col--lg-12-18\">\n<div class=\"c-news__content\">\n<div class=\"c-news__body\" data-share-text=\"\" data-news-content-text=\"\" data-disable-copy=\"\" data-continue-reading=\"\" data-continue-reading-hide-others=\".js-continue-reading-hidden\">\n<p>Assuntos irrelevantes s\u00e3o essas coisas que geram bate-boca e algum calor, em regra na internet, por 24 ou 36 horas, e depois simplesmente desaparecem, sem deixar rastro.<\/p>\n<p>Foi o caso do debate sobre a\u00a0cor da roupinha das crian\u00e7as, a partir de um v\u00eddeo da ministra-pastora dos Direitos Humanos. Li muita gente argumentando, em tom aparentemente s\u00e9rio, que aquilo tudo era bastante grave, escondia um atroz preconceito e fatalmente levaria a mais viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00f5es trans e LGBT.<\/p>\n<p>Durante a campanha, lembro do debate pr\u00f3ximo \u00e0 histeria sobre uma suposta prolifera\u00e7\u00e3o de grupos nazifascistas que andariam pela ruas do pa\u00eds atacando mulheres e homossexuais. Gente muito boa sugeriu que hav\u00edamos voltado aos anos 30, na Alemanha, com base no epis\u00f3dio da\u00a0mo\u00e7a que teria sido marcada com uma su\u00e1stica, no Sul do Brasil.<\/p>\n<p>Depois se descobriu que era tudo falso, mas ningu\u00e9m pareceu preocupado ou se desculpou. Partimos alegremente para a pr\u00f3xima besteira.<\/p>\n<p>Na transi\u00e7\u00e3o, por um ou dois dias, discutimos o h\u00e1bito do novo presidente\u00a0cumprimentar todo mundo fazendo contin\u00eancia. Primeiro foi com um assessor americano, depois foi a um jogador do Palmeiras. Depois disso o assunto perdeu a gra\u00e7a.<\/p>\n<div>\n<div class=\"js-gallery-widget\">\n<div id=\"gallery-widget-nova\/\" class=\"gallery-widget gallery-widget-keydown\" data-channel=\"fernando-schuler\">\n<div class=\"gallery-widget__content\">\n<div class=\"gallery-widget-carousel\">\n<div class=\"gallery-widget-carousel__container\">\n<ol class=\"list-unstyled gallery-widget-carousel__list\">\n<li class=\"gallery-widget-carousel__list-item rs_skip\" data-photo-idx=\"1623311867372332\">Antes da posse, discutimos intensamente se o presidente iria desfilar em carro aberto ou fechado, entre a Catedral e o Congresso Nacional. Depois discutimos o que fazia o primeiro-filho sentado na traseira do Rolls-Royce, e logo depois (com direito \u00e0 manchete no The Washington Post) o significado da \u201csauda\u00e7\u00e3o militar\u201d feita pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro (que no fim era apenas um movimento com a m\u00e3o, no\u00a0discurso em Libras).<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Na \u00faltima semana, dedicamos intensos dois ou tr\u00eas dias fazendo gra\u00e7a com a viagem dos novatos deputados do PSL \u00e0 China e seu\u00a0bate-boca com Olavo de Carvalho.<\/p>\n<p>E ainda ontem, muita gente graduada discutia, com ares de grande coisa, a grav\u00edssima atitude do presidente almo\u00e7ar em um bandej\u00e3o de supermercado, no centro de Davos, e o fato de ele ter usado um teleprompter em seu pronunciamento.<\/p>\n<p>A lista \u00e9 saborosa e poderia ir longe. Irrelev\u00e2ncias e n\u00e3o acontecimentos se tornaram uma esp\u00e9cie de p\u00e3o nosso de cada dia, no debate atual.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que n\u00e3o h\u00e1 como definir bem estas coisas. A aprova\u00e7\u00e3o de um rombo na Lei de Responsabilidade Fiscal, pelo Congresso, \u00e9 mais ou menos importante do que o \u00faltimo desmentido presidencial? O que vale mais, discutir a independ\u00eancia do Banco Central ou a troca de farpas da ministra da Agricultura com Gisele B\u00fcndchen?<\/p>\n<p>Desconfio que, no fundo, temos uma boa no\u00e7\u00e3o sobre isto. Se o debate p\u00fablico valesse alguma coisa, levar\u00edamos as coisas mais a s\u00e9rio. O sujeito que \u00e9 acionista da empresa n\u00e3o gasta seu tempo, na reuni\u00e3o do conselho, tagarelando sobre o barraco da festa de final do ano.<\/p>\n<p>N\u00e3o o faz por uma raz\u00e3o simples: sua opini\u00e3o pesa e ele n\u00e3o ir\u00e1 perder seu tempo com besteira. Na democracia, \u00e9 o contr\u00e1rio: a opini\u00e3o do cidad\u00e3o vale muito pouco. Seu incentivo para levar alguma coisa realmente a s\u00e9rio \u00e9 quase nenhum.<\/p>\n<p>Isto sempre foi assim, nas democracias, mas o fato \u00e9 que a emerg\u00eancia das m\u00eddias digitais deu uma outra dimens\u00e3o ao fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Uma raz\u00e3o para isto diz respeito ao custo da informa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 30 anos, emitir uma opini\u00e3o dava muito mais trabalho. Implicava em escrever um artigo, dar uma entrevista na r\u00e1dio ou imprimir alguma coisa por conta pr\u00f3pria e depois distribuir na fila do cinema ou do posto de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Me lembro de tudo isto, nos anos 80.<\/p>\n<p>A democracia digital explodiu essas coisas. O debate p\u00fablico se tornou v\u00edtima do instant\u00e2neo. H\u00e1 informa\u00e7\u00e3o demais, discuss\u00f5es demais, sem permitir que o tempo se encarregue de depurar os acontecimentos e separar o que importa daquilo que n\u00e3o passa de lixo em forma de palavras e imagens.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas not\u00edcias preocupantes a\u00ed: a primeira \u00e9 que isto n\u00e3o faz bem \u00e0 democracia. A qualidade do debate p\u00fablico, por \u00f3bvio, afeta a escolha p\u00fablica. Quanto mais toxina ideol\u00f3gica espalhamos por a\u00ed, mais perdemos tempo e capacidade de gerar consensos e fazer as coisas que importam andar pra frente.<\/p>\n<p>A segunda not\u00edcia \u00e9 que se trata de um estado de coisas que veio para ficar. O modus operandi das m\u00eddias sociais contaminou a todos, a lideran\u00e7a pol\u00edtica, os intelectuais e (ao menos boa parte) da m\u00eddia profissional.<\/p>\n<p>E mais: fez com que o eleitor, agora transformado em um ativista digital, passasse a se comportar como um pequeno pol\u00edtico, usando da ret\u00f3rica e reproduzindo, um a um, todos os v\u00edcios que ele v\u00ea nos pol\u00edticos contra os quais esbraveja.<\/p>\n<p>Estamos diante de um problema sem sa\u00edda. Todo mundo conhece o vatic\u00ednio de Umberto Eco, segundo o qual a internet fez com que o idiota da aldeia fosse promovido a portador da verdade.<\/p>\n<p>O que imagino nem Umberto Eco esperasse, era o efeito inverso: que tamb\u00e9m a elite usualmente tida como portadora da verdade passasse a se comportar, no dia a dia, como o idiota da aldeia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_links_to":"","_links_to_target":""},"colunistas":[64],"generos":[],"class_list":["post-1407","colunas_sindag","type-colunas_sindag","status-publish","hentry","colunistas-fernando-luis-schuler"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/colunas_sindag\/1407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/colunas_sindag"}],"about":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/colunas_sindag"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"colunistas","embeddable":true,"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/colunistas?post=1407"},{"taxonomy":"generos","embeddable":true,"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/generos?post=1407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}