{"id":1670,"date":"2020-07-20T23:11:08","date_gmt":"2020-07-21T02:11:08","guid":{"rendered":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/?post_type=colunas_sindag&#038;p=1670"},"modified":"2020-07-20T23:11:08","modified_gmt":"2020-07-21T02:11:08","slug":"nao-vejo-espaco-para-uma-aventura-autoritaria-no-brasil","status":"publish","type":"colunas_sindag","link":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/colunas_sindag\/nao-vejo-espaco-para-uma-aventura-autoritaria-no-brasil\/","title":{"rendered":"N\u00e3o vejo espa\u00e7o para uma aventura autorit\u00e1ria no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O cientista pol\u00edtico e professor do Insper Fernando Sch\u00fcler afirma que a democracia brasileira est\u00e1 segura. O discurso, dissonante do que prega a esquerda e parte da intelectualidade do pa\u00eds, sustenta-se na aposta de que as institui\u00e7\u00f5es ser\u00e3o capazes de moderar a verve do\u00a0presidente eleito,\u00a0Jair Bolsonaro\u00a0(PSL).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Sch\u00fcler, o militar reformado adotar\u00e1 um tom bem mais leve enquanto ocupar o gabinete principal do Pal\u00e1cio do Planalto. Nesta entrevista, o professor e cientista pol\u00edtico hidrata a teoria de que a democracia opera como uma m\u00e1quina de suavizar posicionamentos.<\/p>\n<p>Doutor em Filosofia pela UFRGS e p\u00f3s-doutor pela Universidade de Columbia, em Nova York, mitiga qualquer possibilidade de aventura autorit\u00e1ria no Brasil e chancela: mais complexo, o atual sistema pol\u00edtico conformado no pa\u00eds tamb\u00e9m gera desconforto.<\/p>\n<p><strong>Em seu\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/politica\/eleicoes\/noticia\/2018\/10\/vamos-desamarrar-o-brasil-diz-bolsonaro-em-seu-pronunciamento-de-vitoria-cjnti50ko096t01pinciqfv24.html\"><strong>primeiro pronunciamento como presidente eleito<\/strong><\/a><strong>, Bolsonaro disse que defender\u00e1 a Constitui\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, cr\u00edticos afirmam que sua vit\u00f3ria representa um risco \u00e0 democracia.\u00a0Essa amea\u00e7a \u00e9 real?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 natural que isso aconte\u00e7a. Acabamos de sair de uma elei\u00e7\u00e3o polarizada, na qual a tese do risco democr\u00e1tico foi o mote da campanha contra o presidente eleito. Agora, \u00e9 hora de olhar para a frente. \u00c9 preciso ficar alerta, mas isso independe de quem esteja na Presid\u00eancia. Muitas vezes, subestimamos a for\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es brasileiras. Isso \u00e9 mais comum nos acad\u00eamicos estrangeiros, que opinam muito sobre o pa\u00eds ultimamente. No fundo, muitos ainda enxergam o Brasil como uma esp\u00e9cie de rep\u00fablica de bananas e tentam aplicar modelos abstratos, em geral, \u00e0 luz de prefer\u00eancias pol\u00edticas. Somos um pa\u00eds surpreendente. Temos todos os problemas imagin\u00e1veis nos servi\u00e7os p\u00fablicos e no sistema pol\u00edtico, mas nosso sistema de freios e contrapesos funciona. Temos um Judici\u00e1rio forte e independente, uma Suprema Corte inconteste, For\u00e7as Armadas no seu papel constitucional e um Congresso que, com todos os problemas, conduziu dois processos de impeachment desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o que chamo de institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o formais da democracia, que s\u00e3o igualmente fortes: uma sociedade civil organizada e uma imprensa livre. Resumindo: n\u00e3o vejo espa\u00e7o para uma aventura autorit\u00e1ria no Brasil. Venha de onde vier.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>No mesmo discurso, Bolsonaro afirmou que ir\u00e1 trabalhar para \u201cconciliar o pa\u00eds\u201d. De que modo ser\u00e1 poss\u00edvel repactu\u00e1-lo, enquanto os\u00a0<\/strong><strong>opositores defendem \u201cresist\u00eancia\u201d<\/strong><strong>?<\/strong><br \/>\n\u00c9 fun\u00e7\u00e3o de um chefe de Estado falar para todos, preservar o di\u00e1logo. Para mim, o modelo foi\u00a0Barack Obama\u00a0e suas express\u00f5es como \u201cn\u00e3o existem Estados vermelhos ou Estados azuis, mas os Estados Unidos da Am\u00e9rica.\u201d. \u00c0 \u00e9poca, lhe custou caro, mas o fez um estadista. N\u00e3o acho que Bolsonaro tenha esse perfil, tampouco imagino que a oposi\u00e7\u00e3o deseje dialogar com ele. A polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem de hoje. De certo modo, d\u00e1 o tom na democracia atual. Mesmo um l\u00edder como\u00a0Emmanuel Macron, na Fran\u00e7a, que surge como um pol\u00edtico aglutinador, de centro, hoje prop\u00f5e um programa de reformas que divide o pa\u00eds e v\u00ea a sua popularidade despencar. \u00c9 prov\u00e1vel que Bolsonaro enfrente algo similar quando disputar, no Congresso, a sua agenda econ\u00f4mica. \u00c9 natureza da democracia, e tudo ganhou escala na era digital. O Brasil vive sua pior crise fiscal e demanda reformas estruturais de baixo consenso na sociedade.\u00a0N\u00e3o se espere quatro anos de calma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>A democracia \u00e9 uma m\u00e1quina de moderar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Minha intui\u00e7\u00e3o \u00e9 de que Bolsonaro ser\u00e1 um presidente levado a posi\u00e7\u00f5es moderadas pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias e limita\u00e7\u00f5es do sistema pol\u00edtico.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>FERNANDO SCH\u00dcLER,\u00a0Cientista pol\u00edtico<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Da ret\u00f3rica de campanha \u00e0 realidade da Presid\u00eancia, o que deve se esperar do futuro governo?<br \/>\n<\/strong>A democracia \u00e9 uma m\u00e1quina de moderar posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Ela obriga a negocia\u00e7\u00e3o, o choque com as quest\u00f5es reais do poder, o di\u00e1logo com as institui\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o do presidencialismo de coaliz\u00e3o leva a esse resultado. \u00c9 preciso formar base no Congresso. Veja o que est\u00e1 ocorrendo agora.\u00a0Paulo Guedes\u00a0(<em>anunciado ministro da Fazenda<\/em>) falava em trocar o\u00a0regime previdenci\u00e1rio\u00a0para um sistema de capitaliza\u00e7\u00e3o e privatizar mais de cem estatais. Agora, o governo fala em aprovar o que for poss\u00edvel, quem sabe ajustando a idade m\u00ednima para 61 anos, e preservar a \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o de energia com o Estado. Minha intui\u00e7\u00e3o \u00e9 de que Bolsonaro ser\u00e1 um presidente mais pragm\u00e1tico e levado a posi\u00e7\u00f5es moderadas pela for\u00e7a das circunst\u00e2ncias e limita\u00e7\u00f5es do sistema pol\u00edtico. Isso pode ser bom ou ruim, dependendo do ponto de vista.<\/p>\n<p><strong>Alheio ao pacto da transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica,\u00a0o presidente pode intimidar os direitos individuais adquiridos?<br \/>\n<\/strong>N\u00e3o acho que isso seria poss\u00edvel dada a for\u00e7a da nossa Constitui\u00e7\u00e3o e a vigil\u00e2ncia do Supremo. Tamb\u00e9m n\u00e3o vejo o governo propondo, nem o Congresso aprovando, a supress\u00e3o de direitos individuais. Vamos imaginar: o governo envia ao Congresso uma lei para regular a m\u00eddia. Em primeiro lugar, n\u00e3o passa. E, se passar, o STF derruba. \u00c9 importante separar direitos individuais daquilo que representa uma politica p\u00fablica da qual eu, voc\u00ea ou qualquer um possa discordar. Por exemplo, a\u00a0redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal. Eu sou contra, acho mais eficiente aperfei\u00e7oar o ECA (<em>Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente<\/em>). Mas n\u00e3o importa. Se o Congresso aprovar, com 308 votos na C\u00e2mara e 49 no Senado, em dois turnos, ap\u00f3s um amplo debate, ter\u00e1 sido uma decis\u00e3o da democracia. Faz parte aceitar resultados dos quais discordamos.<\/p>\n<p><strong>Como um\u00a0<em>outsider\u00a0<\/em>da redemocratiza\u00e7\u00e3o e um deputado do \u201cbaixo clero\u201d, Bolsonaro ser\u00e1 capaz de amarrar as costuras para uma governabilidade\u00a0de coaliz\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>Bolsonaro n\u00e3o ter\u00e1 grande dificuldade de compor com todos os partidos presentes no Congresso, com exce\u00e7\u00e3o da esquerda e do PSDB. Esse processo j\u00e1 est\u00e1 em curso. Os partidos de esquerda, com os quais o governo efetivamente n\u00e3o poder\u00e1 contar, somam cerca de 140 votos na C\u00e2mara. A grosso modo, h\u00e1 um universo de 350 parlamentares com os quais o governo pode trabalhar \u2013 o PSDB tende a votar com o governo na agenda econ\u00f4mica, mas dificilmente o far\u00e1 em temas da chamada agenda conservadora. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m se d\u00e1 \u2013 muitos parlamentares conservadores t\u00eam um claro tra\u00e7o corporativo e s\u00e3o avessos \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. O Brasil \u00e9 mais complexo do que uma simples divis\u00e3o entre esquerda e direita.\u00a0Mas repito: Bolsonaro \u00e9 um tipo mais pragm\u00e1tico do que muitos imaginam.<\/p>\n<p><strong>O novo Congresso\u00a0poder\u00e1 contribuir para\u00a0o \u201csucesso\u201d do futuro governo?<br \/>\n<\/strong>O novo Congresso tem uma inclina\u00e7\u00e3o mais conservadora e possivelmente mais favor\u00e1vel a reformas modernizantes. O grande teste vir\u00e1 quando tiver de aprovar reformas impopulares. (<em>Michel<\/em>)\u00a0Temer\u00a0conseguiu aprovar a\u00a0PEC do Teto de Gastos\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/noticia\/2018\/07\/evento-em-porto-alegre-celebra-um-ano-de-reforma-trabalhista-cjjkh6nnp0s7q01qoc6zbcoab.html\">\u00a0\u00a0<\/a>, mas n\u00e3o teve \u00eaxito na Reforma da Previd\u00eancia e na capitaliza\u00e7\u00e3o da\u00a0Eletrobras. Esse ser\u00e1 o maior desafio do governo que entra. Precisa ter uma convic\u00e7\u00e3o quase obsessiva, uma agenda clara e uma enorme capacidade de dialogar com\u00a0o Congresso e com a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>O presidente eleito defende carta branca para policiais, prega a ascens\u00e3o de militares ao poder, sa\u00fada a tortura, critica os direitos humanos e mistura pol\u00edtica com religi\u00e3o. De que modo essas ideias \u201cfora de moda\u201d conquistaram 55 milh\u00f5es de eleitores brasileiros?<br \/>\n<\/strong>H\u00e1 muitas coisas a\u00ed. Podemos n\u00e3o gostar, mas misturar religi\u00e3o com pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 fora de moda nas grandes democracias. A presen\u00e7a dos militares tampouco. Pesquisa recente do Datafolha mostrou que as For\u00e7as Armadas s\u00e3o a institui\u00e7\u00e3o com maior credibilidade do pa\u00eds junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Talvez haja a\u00ed um tema interessante: \u00e9 preciso sair da bolha em que vivemos para entender o que as pessoas querem. Quanto \u00e0 tortura, \u00e9 evidente que h\u00e1 uma relativiza\u00e7\u00e3o moral, na minha vis\u00e3o, inaceit\u00e1vel. Assim como a esquerda tamb\u00e9m relativizou ditaduras que praticaram a tortura nos \u00faltimos 30 anos. Nos acostumamos, no Brasil, a relativiza\u00e7\u00f5es. O fato \u00e9 que a viol\u00eancia cresceu e que vivemos uma sensa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia do sistema pol\u00edtico. Tudo isso gera uma percep\u00e7\u00e3o difusa de caos e torna atrativa a ret\u00f3rica da lei, da ordem, do sujeito que vai \u201cpassar\u00a0o sistema a limpo\u201d. O antissistema.\u00a0A campanha caminhou por a\u00ed.<\/p>\n<p><strong>Por que a elei\u00e7\u00e3o foi mais marcada pelo componente cultural\u00a0do que pelo econ\u00f4mico?<\/strong><br \/>\nA revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica trouxe o cidad\u00e3o comum para o centro da arena p\u00fablica. Gradativamente, descobrimos que a hierarquia de quest\u00f5es que move as pessoas \u00e9 diferente da agenda tradicional da elite pol\u00edtica. No ano passado, passamos semanas discutindo uma exposi\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea (<a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/ultimas-noticias\/tag\/queermuseu\/\"><strong><em>Queermuseu<\/em><\/strong><\/a>). Discutimos os limites do humor, a estrutura da fam\u00edlia e o tipo de educa\u00e7\u00e3o sexual a ser dada \u00e0s crian\u00e7as. A ret\u00f3rica moral e mesmo religiosa invadiu a pol\u00edtica, nos levando a uma impasse. John Rawls construiu sua obra dizendo que a \u00fanica possibilidade de um acordo, nas sociedades abertas, se dava no campo da pol\u00edtica, n\u00e3o na \u00e9tica ou na est\u00e9tica. O acordo \u00e9 sobre as regras do jogo e os princ\u00edpios b\u00e1sicos do ordenamento institucional. \u00c9 sobre isso que dever\u00edamos concentrar o debate p\u00fablico, n\u00e3o sobre as prefer\u00eancias est\u00e9ticas. A guerra cultural nos leva a um impasse permanente. Em boa medida, explica a virul\u00eancia atual.<\/p>\n<p><strong>Bolsonaro se declara defensor da liberdade de imprensa, mas j\u00e1 amea\u00e7ou retalia\u00e7\u00f5es \u00e0 Folha\u00a0de S.Paulo. A m\u00eddia\u00a0est\u00e1 amea\u00e7ada?<br \/>\n<\/strong>As liberdades de express\u00e3o e de imprensa s\u00e3o valores inegoci\u00e1veis e estabelecidos no ordenamento institucional brasileiro. N\u00e3o h\u00e1 a menor chance de que isso seja amea\u00e7ado.\u00a0A regula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia constava do plano de governo de\u00a0(<em>Fernando<\/em>) Haddad, mas acho que nem mesmo o candidato levava isso a s\u00e9rio. H\u00e1 um velho discurso que aposta no controle da m\u00eddia, mas isso \u00e9 fantasia. O PT governou o pa\u00eds por 13 anos e n\u00e3o regulou. Bolsonaro tamb\u00e9m n\u00e3o o far\u00e1. Pode criticar esse ou aquele ve\u00edculo, assim como j\u00e1 nos acostumamos a ver grupos ideol\u00f3gicos do lado oposto agredindo jornalistas. Tudo isso \u00e9\u00a0triste para a democracia e requer vigil\u00e2ncia, mas n\u00e3o vejo amea\u00e7a institucional \u00e0 liberdade de express\u00e3o, como tamb\u00e9m n\u00e3o veria se o resultado das elei\u00e7\u00f5es tivesse sido diferente.<\/p>\n<p><strong>E quando afirma que os\u00a0<\/strong>\u201cmarginais vermelhos ser\u00e3o banidos da p\u00e1tria\u201d?<strong><br \/>\n<\/strong>Bolsonaro falou em banir os vermelhos, e Haddad chamou o seu advers\u00e1rio de \u201canti-humano\u201d que \u201cprecisa ser varrido da face da terra\u201d. Tivemos uma\u00a0disputa agressiva, mas a campanha terminou. N\u00e3o \u00e9 produtiva uma competi\u00e7\u00e3o nessa dire\u00e7\u00e3o. No final, Bolsonaro n\u00e3o citou Haddad, nem Haddad citou Bolsonaro. Nem telefonou. O melhor a fazer \u00e9 aprender as li\u00e7\u00f5es da campanha feita \u00e0 base da dicotomia amigo-inimigo e torcer para que fa\u00e7amos algo melhor no futuro.<\/p>\n<p><strong>O PT pretende se consolidar como l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o. mas enfrentar\u00e1 a resist\u00eancia de outros campos de esquerda, como o PDT de\u00a0<\/strong><strong>Ciro Gomes<\/strong><strong>. Qual ser\u00e1 o papel da legenda\u00a0de\u00a0<\/strong><strong>Lula<\/strong><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/ultimas-noticias\/tag\/lula\/\"><strong>\u00a0<\/strong><\/a><strong>no novo governo?<br \/>\n<\/strong>O PT ir\u00e1 liderar a oposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o maior partido do Brasil, com a maior bancada eleita da C\u00e2mara e uma imensa base militante nos sindicatos, nas universidades e nos movimentos sociais. O PT acertou na estrat\u00e9gia eleitoral, levando a\u00a0pr\u00e9-candidatura Lula\u00a0at\u00e9 o limite poss\u00edvel e fazendo a migra\u00e7\u00e3o de votos para Haddad. O partido percebeu, com clareza, a for\u00e7a e os limites o lulismo. Ele foi suficiente para\u00a0levar Haddad ao segundo turno. Hoje, o lulismo \u00e9, objetivamente, menor do que o bolsonarismo. Isso pode mudar ali adiante. N\u00e3o entro no m\u00e9rito se \u00e9 bom ou ruim; \u00e9 apenas um fato. O PT e a esquerda perderam a hegemonia pol\u00edtica no pa\u00eds. H\u00e1 muitas raz\u00f5es para isso. A esquerda se confundiu com o Estado na \u00faltima d\u00e9cada e meia. No in\u00edcio do governo, Lula chegou a ensaiar um giro modernizador, fazendo uma Reforma da Previd\u00eancia do setor p\u00fablico e incorporando a ideia da responsabilidade fiscal. Mas, depois, tudo se desfez. Ap\u00f3s ser relativizado por Haddad, o programa de governo do PT deste ano era essencialmente reativo \u2013 n\u00e3o \u00e0 Reforma Trabalhista, n\u00e3o \u00e0 Reforma da Previd\u00eancia, n\u00e3o \u00e0 PEC do Teto. Na oposi\u00e7\u00e3o, penso que reproduzir\u00e1 esse padr\u00e3o. Uma oposi\u00e7\u00e3o intransigente, com velhos slogans e defesa do status quo do Estado. H\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o simples que parece n\u00e3o ter sido compreendida pela esquerda: os interesses do estamento p\u00fablico n\u00e3o coincidem com os interesses dos mais pobres. Mas \u00e9 \u00f3bvio que haver\u00e1 cis\u00f5es. O pr\u00f3prio Haddad me parece um l\u00edder com potencial de renova\u00e7\u00e3o. Representa uma nova gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes e tem abertura para dialogar para fora da esquerda e do PT.<\/p>\n<p><strong>Chegou ao fim um ciclo de mais de duas d\u00e9cadas de polariza\u00e7\u00e3o entre PT e PSDB na Presid\u00eancia. O que esse fechamento representa para o pa\u00eds?<br \/>\n<\/strong>Durante duas d\u00e9cadas, assistimos a um embate entre duas vertentes da social-democracia brasileira. Agora, h\u00e1 um componente novo. Tivemos uma alternativa pol\u00edtica majorit\u00e1ria nitidamente conservadora, assim como uma alternativa nitidamente liberal com o Partido Novo. De algum modo, Ciro Gomes abriu uma alternativa diferente em um campo de centro-esquerda e conseguiu expressar a vis\u00e3o de muitas pessoas que desejam um projeto social democrata, mas rejeitam a dualidade PT-PSDB. Hoje, nossa democracia \u00e9 mais rica e complexa.\u00a0O que, por certo, traz desconforto.<\/p>\n<p><strong>E a\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/politica\/eleicoes\/noticia\/2018\/10\/urnas-punem-politicos-que-sao-alvo-da-lava-jato-cjn0s6g2103ag01pii0zeswuw.html\"><strong>derrota de nomes tradicionais da pol\u00edtica brasileira nas urnas<\/strong><\/a><strong>?<br \/>\n<\/strong>Mais do que a derrota desse ou daquele personagem, assistimos \u00e0 derrocada de um jeito de fazer pol\u00edtica. Discutimos a reforma pol\u00edtica durante anos, mas, agora, penso que o caminho est\u00e1 de fato aberto. O\u00a0financiamento estatal de campanhas, por exemplo, foi derrotado. A campanha de Bolsonaro custou R$ 1,7 milh\u00e3o, menos do que muitos candidatos a deputado gastaram com dinheiro p\u00fablico. E o\u00a0Novo elegeu o governador de Minas Gerais\u00a0sem usar nada do fundo de campanha. Era para o dinheiro p\u00fablico gerar equidade, mas foi capturado pelas elites pol\u00edticas e conspirou contra a renova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1, os partidos devem ser financiados por seus filiados e apoiadores. A tecnologia tornou as campanhas mais baratas. Precisamos oferecer igualdade real de competi\u00e7\u00e3o a todos. Os financiamentos coletivos e volunt\u00e1rios v\u00e3o nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>(Nas elei\u00e7\u00f5es) assistimos \u00e0 derrocada de um jeito de fazer pol\u00edtica. O financiamento estatal de campanhas saiu derrotado. A tecnologia tornou as campanhas mais baratas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>FERNANDO SCH\u00dcLER,\u00a0Cientista pol\u00edtico<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A\u00a0<\/strong><strong>dissemina\u00e7\u00e3o de fake news<\/strong><strong>\u00a0pode ter definido\u00a0os rumos da elei\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>A\u00a0ministra Rosa Weber foi perfeita ao tratar desse tema: ainda n\u00e3o descobrimos o milagre sobre como combater as fake news. Minha intui\u00e7\u00e3o diz que n\u00e3o descobriremos. A maior fake news dessa elei\u00e7\u00e3o foi a de que s\u00f3 havia not\u00edcias falsas de um lado do jogo. Era curios\u00edssimo ler pessoas de ambas as bolhas sustentando essa tese absurda. Bastava visitar os sites das ag\u00eancias de checagem de fatos para saber que isso n\u00e3o era verdade. Gosto de pensar que as ag\u00eancias j\u00e1 fazem parte de uma rea\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio mercado produz espontaneamente ante \u00e0 irresponsabilidade das pessoas na internet. As pessoas entraram em massa na pol\u00edtica e tendem a agir como torcedores. N\u00e3o faz sentido, mas \u00e9 assim que agem. Intuo que a m\u00eddia profissional tende a recuperar seu papel como provedora de informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel. Para isso, ainda \u00e9 preciso andar muito. Boa parte da m\u00eddia profissional cedeu \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da ades\u00e3o pol\u00edtica nessas elei\u00e7\u00f5es. Por vezes, em nome das melhores inten\u00e7\u00f5es. Com o tempo, espero que melhoremos nisso.<\/p>\n<p><strong>De que modo a \u201cdemocracia digital\u201d contribuiu para a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro?<\/strong><br \/>\nA internet e as redes sociais levaram a democracia a uma exuber\u00e2ncia tr\u00e1gica. H\u00e1 30 anos, eram 10 mil, 20 mil pessoas protagonizando o debate nas institui\u00e7\u00f5es e na m\u00eddia profissional. Hoje, s\u00e3o 10 milh\u00f5es, 20 milh\u00f5es opinando, com acesso instant\u00e2neo e abundante \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 melhor, mas tamb\u00e9m produz mais barulho e instabilidade. Por vezes, me perguntam at\u00e9 quando ir\u00e1 essa instabilidade. Costumo responder: v\u00e1 se acostumando, esse \u00e9 o novo normal das democracias. (<em>Francis<\/em>) Fukuyama fala na explos\u00e3o da vetocracia, isto \u00e9, da multiplica\u00e7\u00e3o e fortalecimento dos grupos de press\u00e3o que reduzem a possibilidade de consensos e paralisam processos pol\u00edticos. H\u00e1 o risco do populismo eletr\u00f4nico, que dispensa a media\u00e7\u00e3o institucional. Bolsonaro aproxima-se desse perfil, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico. Tampouco, pode-se dizer que n\u00e3o seja uma express\u00e3o genu\u00edna de um novo tipo, por vezes perturbador, de democracia.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, a \u201cret\u00f3rica de fim\u00a0de mundo\u201d ainda n\u00e3o chegou ao limite.<br \/>\n<\/strong>N\u00e3o. Isso \u00e9 um tra\u00e7o caracter\u00edstico\u00a0da democracia digital, com seu incentivo \u00e0 tribaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/politica\/noticia\/2016\/11\/como-as-redes-sociais-formam-bolhas-de-radicalizacao-e-intolerancia-8377226.html\"><strong>forma\u00e7\u00e3o de bolhas de opini\u00e3o<\/strong><\/a>. Um enorme paradoxo. Quando a internet nasceu, imaginou-se que contribuiria para aproximar as pessoas e melhorar a qualidade do debate p\u00fablico. Em alguma medida, isso aconteceu, mas trouxe uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias indesejadas: a guerra de todos contra todos em um espa\u00e7o de baixa empatia que bem define a internet. \u00c9 o que temos pela frente. N\u00e3o h\u00e1 o que fazer.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":0,"template":"","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_links_to":"","_links_to_target":""},"colunistas":[64],"generos":[],"class_list":["post-1670","colunas_sindag","type-colunas_sindag","status-publish","hentry","colunistas-fernando-luis-schuler"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/colunas_sindag\/1670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/colunas_sindag"}],"about":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/colunas_sindag"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"colunistas","embeddable":true,"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/colunistas?post=1670"},{"taxonomy":"generos","embeddable":true,"href":"https:\/\/sindag.org.br\/site-antigo\/wp-json\/wp\/v2\/generos?post=1670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}