48ª Expointer destacou a relevância do setor aeroagrícola

Feira terminou neste domingo, registrando um público de mais de 1 milhão de pessoas em nove dias, com o Sindag e Ibravag tendo promovido dois importantes eventos em sua programação, além de visitas à imprensa, autoridades e parceiros do setor  

“Quando se fala em agricultura, o Brasil não é terceiro mundo: é potência.” A frase resumiu o tom da palestra do diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, marcando a quinta-feira (4) na 48ª Expointer, que terminou neste domingo, na cidade gaúcha de Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Foi durante o painel Desbravando a Agricultura do Futuro, realizado no espaço da Associação Gaúcha de Professores Técnicos de Ensino Agrícola (a Casa Agptea), no Parque de Exposições Assis Brasil.

A feira foi marcada também, na sexta (5), pelo 3º Encontro da Aviação Agrícola na Expointer – Desafios e Oportunidades. Neste caso, uma promoção da Seção gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS), em parceria com o Sindag e o Instituto Brasileiro da Aviação Agrícola (Ibravag). Onde o sindicato aeroagrícola foi representado pelo seu diretor operacional, Cláudio Júnior Oliveira, pelo assessor jurídico Ricardo Vollbrecht .

No somatório dos encontros, discussões sobre as oportunidades e o futuro de um setor que movimenta bilhões, promove sustentabilidade e cresce em ritmo acelerado. Mas que também enfrenta desafios regulatórios, trabalhistas e tecnológicos. Temas que estiveram em pauta também em entrevistas de dirigentes à imprensa que cobriu a Expointer e em conversas com diversas autoridades que circularam pelo evento. Segundo a Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), que organiza a feira, a Expointer deste ano recebeu 1.010.020 visitantes ao longo de nove dias de programação.

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…. e AQUI para ver as imagens do encontro na Casa da OAB/RS dentro da Expointer

EDUCAÇÃO

Na Casa Agptea, a promoção foi do Instituto de Tecnologia Agrícola, Qualificação e Estudo (Itaqe) – também em parceria com o Sindag e Ibravag. Onde Colle apresentou reflexões sobre tecnologia, educação e o papel dos jovens no campo. Resgatando também a história da aviação agrícola no Brasil, iniciada em 1947 no combate a gafanhotos. “A aviação sempre foi tecnologia de ponta, do DGPS aos bicos e atomizadores de última geração. De modo que hoje já sabemos exatamente onde vai cada gota aplicada”, resumiu.

Colle defendeu a Educação como base da transformação da agricultura e reforçou a necessidade de mão de obra qualificada não só para a aviação convencional, mas também para operar drones, sistemas autônomos e ferramentas digitais. “Não vejo outro caminho”, enfatizou, sublinhando o desafio de garantir comida saudável e barata para uma população cada vez maior.

O dirigente também abordou a dimensão geopolítica da agricultura brasileira. Para ele, a dificuldade em avançar no acordo Mercosul-União Europeia é prova da competitividade nacional. Nesse sentido, defendeu políticas públicas estruturantes (incluindo pagamento por serviços ambientais), além da solução para gargalos como a necessidade de ampliação da internet de  alta velocidade no campo.

Engenheiro agrônomo e filho de um técnico agrícola (que tem 50 anos de carreira e ainda em atividade), Colle destacou a experiência de seu mestrado sobre Sucessão Familiar no campo, quando visitou mais de 200 propriedades. Além da passagem por mais de 50 países. “A permanência de jovens no campo e seu protagonismo são cruciais para a agricultura familiar e para a segurança alimentar da nação”, reforçou.

Onde as oportunidades também abrangem a aviação agrícola – em cujos quadros, além dos pilotos, são necessários também administradores, agrônomos e técnicos agrícolas. Aliás, o encontro foi coordenado pelo presidente do Itaqe, Jeferson Ferreira da Rosa, que reforçou também a necessidade de se valorizar os técnicos agrícolas que sustentam a base da agricultura. Já outros debatedores apontaram para a urgência de modernizar escolas técnicas e integrar pesquisa, extensão e políticas públicas.

Aspectos jurídicos
em debate

O 3º Encontro da Aviação Agrícola, que movimentou  a sexta-feira na Casa da OAB na Expointer, foi promovido pela Comissão Especial de Direito Aeronáutico e Aeroespacial (Cedaea) da Ordem, em parceria com o Sindag e o Ibravag. Trazendo para a mesa lideranças jurídicas, empresários e especialistas em um debate somando diagnóstico e projeção de futuro. Com Brasil tendo a segunda maior frota de aeronaves agrícolas do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos – com cerca de 2,7 mil aeronaves e devendo chegar a 3,4 mil aviões e helicópteros atuando no campo até 2028. Isso com uma frota de drones de grande porte também em expansão e marcando a chegada de aviões autônomos – ao mesmo tempo em que empresas pequenas e médias enfrentam as complexidades de um marco regulatório em mutação.

A abertura do encontro ficou a cargo do presidente da Cedaea, Eduardo Teixeira Farah, que destacou que a importância da aproximação entre aviação e direito para a própria segurança jurídica ao setor. “Esse diálogo é fundamental para que a atividade seja compreendida em sua dimensão econômica e social”, comentou, ressaltando que a OAB tem atuado não apenas em questões corporativas, mas também no fortalecimento de debates sobre infraestrutura, regulação e inovação.

Farah também fez uma ponderação que ecoou ao longo do encontro: a maioria das empresas de aviação agrícola é de pequeno porte, daí a importância da fiscalização ter uma postura mais educativa do que punitiva. “Um erro no preenchimento do Diário de Bordo é um problema de registro, não de voo”, exemplificou, enfatizando que a efetividade da regulação depende da capacidade de diferenciar aspectos formais daqueles que realmente afetam a segurança das operações.

REGULAÇÃO

O primeiro painel foi conduzido pelo assessor jurídico Ricardo Vollbrecht, que apresentou mudanças previstas nas Resoluções nº 761 e 762 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que devem entrar em vigor em 1º de janeiro de 2026. Representando, em suas palavras, “uma guinada em direção à regulação responsiva”. O novo procedimento administrativo incorpora alternativas às multas, como advertências e obrigações de fazer ou de não fazer, permitindo que fiscais adotem medidas proporcionais às infrações.

“Pergunto: o que gera mais segurança? Uma multa ou a correção de uma falha? Agora teremos instrumentos que dão mais equilíbrio ao processo”, afirmou. Para Vollbrecht, a novidade atende a uma demanda antiga do setor por mais proporcionalidade na relação entre reguladores e operadores. Ele, no entanto, destacou o desafio de ajustes nas fiscalizações. Por exemplo, na prática da Anac de multiplicar sanções em casos de infrações continuadas. Caso de diários de bordo com falhas de preenchimento em várias linhas ؘ– o que, no somatório, pode resultar em multas proibitivas de se pagar. “Não faz sentido tratar o operador regular como clandestino. O histórico de conformidade precisa ser levado em conta”, defendeu.

BALANÇO: confira o comentário do diretor Cláudio Júnior Oliveira
sobre a participação do Sindag na Expointer deste ano:

 

Expansão econômica e sustentabilidade

A fala mais carregada de números veio do diretor Cláudio Júnior Oliveira, apresentando dados que confirmam a relevância do setor aeroagrícola para a economia e para a segurança alimentar do país. Como a frota que entrou 2025 com 2.722 aeronaves agrícolas e deve alcançar o número de 3.400 aviões e helicópteros até 2028 – crescendo a taxas de 4% ao ano. “Um único avião pode pulverizar 400 hectares por hora, o que levaria 13 horas de trator ou 400 dias com um equipamento costal”, comparou, evidenciando a eficiência da atividade.

Oliveira destacou ainda que o setor movimenta R$ 8 bilhões anuais apenas em serviços diretos. Mas com seu impacto indireto, considerando culturas dependentes como soja, cana, arroz e algodão, superando R$ 114 bilhões. Além da potência financeira, ele frisou que a aviação agrícola é também ambientalmente estratégica – já que, por exemplo, consome até dez vezes menos água que tecnologias terrestres, evita o transporte de patógenos e não causa amassamento das culturas. “A aviação agrícola é vetor de sustentabilidade e segurança alimentar”, sublinhou.

DRONES

O empresário Ulf Bogdawa, da gaúcha SkyDrones, trouxe ao encontro o olhar sobre o potencial e desafios da tecnologia emergente. Destacando que, além de milhares de drones registrados, já há aeronaves de até 300 litros de capacidade com voo autônomo operando em lavouras do Nordeste. Segundo ele, uma revolução em curso que precisa ser acompanhada por uma regulação ágil.

“Não estamos falando de concorrência com a aviação agrícola tradicional, mas de complementaridade”, explicou. Para Bogdawa, a integração entre aviões tripulados e drones é inevitável, mas o risco é que, sem regras claras, o mercado se torne um espaço de insegurança e improviso, com equipamentos obsoletos abandonados em fazendas. Ele defendeu que o Estado organize o setor, aprimorando padrões de registro, manutenção e operação para consolidar a credibilidade da tecnologia.

DESTAQUE: O presidente da Cedaea/OAB-RS, Eduardo Farah, e o assessor Jurídico
do Sindag, Ricardo Vollbrecht, reforçaram a importância dos debates sobre o setor:

 

Segurança em pauta

A advogada Meridiane Gonzales, vice-presidente da Cedaea, trouxe ao debate um alerta sobre a fadiga dos pilotos agrícolas. Ela destacou que, durante os períodos de safra e de combate a incêndios, jornadas longas e exigências intensas colocam em risco não apenas a saúde dos profissionais, mas também a segurança das operações. “A fadiga não é apenas um problema trabalhista, é também um risco direto para a aviação”, afirmou.

Meridiane defendeu que a questão seja tratada de forma ampla, envolvendo empresas, sindicatos e órgãos reguladores. Para ela, o setor ainda carece de limites claros e de um monitoramento mais efetivo das condições de trabalho. “Valorizar o piloto é também valorizar a segurança do setor”. Ela finalizou ressaltando a necessidade de se colocar o fator humano no centro das discussões sobre modernização e crescimento.

FECHAMENTO

O encerramento ficou a cargo do piloto e empresário Enio de Cezere, que focou no planejamento operacional e da cultura de segurança. Ressaltando, por exemplo, que empresas e operadores precisam internalizar práticas contínuas de análise de risco e padronização de procedimentos, além de investir continuamente em treinamento. “Segurança não é custo, é investimento. É o que garante a sustentabilidade e a longevidade das operações”, declarou.

De Cezere também destacou o papel de instituições como a Academia Brasileira de Segurança de Voo, que já formou centenas de pilotos e busca consolidar padrões mais elevados de preparo. Para ele, a aviação agrícola vive uma fase de expansão que só será sustentável se vier acompanhada de um enraizamento real da cultura de mitigação de riscos.

Ao final, Eduardo Farah retomou a palavra para amarrar os pontos debatidos e fechar o balanço. Destacando ter ficado claro que a aviação agrícola não é apenas um “aviãozinho sobrevoando plantações”. É um setor que movimenta bilhões, garante competitividade ao agronegócio e contribui para a segurança alimentar mundial. Com um futuro que, segundo ele, vem sendo desenhado com drones autônomos, novas regras regulatórias e a valorização dos profissionais que fazem essa engrenagem voar