Novo documento federal oferece salvaguarda até 2027 para que milhares de drones já em operação não sofram a falhas ou se tornem obsoletos por falta de atualizações
Uma das decisões regulatórias mais impactantes dos últimos anos para o mercado de drones agrícolas nos Estados Unidos ganhou novos contornos, com algumas consequências imediatas e outras com prazo até o início do ano que vem. Isso segundo anúncio da Comissão Federal de Comunicações norte-americana (FCC, na sigla em inglês), que regula equipamentos e sistemas que utilizam radiofrequência e transmissão de dados no país.
O Documento/Ato 69 de 2026 (DA 26-69), publicado em 21 de janeiro, estabelece que drones e componentes estrangeiros já autorizados poderão seguir em uso e receber atualizações de software e firmware (sistemas que fazem o equipamento funcionar e se manter compatível com aplicativos) até pelo menos 1º de janeiro de 2027. Na prática, uma “salvaguarda temporária” para evitar que milhares de drones já em operação fiquem vulneráveis a falhas ou se tornem obsoletos por falta de atualizações, incluindo correções de segurança digital.
Quanto ao lançamento de novos modelos estrangeiros no mercado norte-americano, o cenário se tornou mais complexo. A entrada de equipamentos produzidos fora dos Estados Unidos passa a depender de autorizações condicionais, enquadramentos em exceções regulatórias e, principalmente, de um processo de avaliação que envolve critérios de segurança nacional.
Isso porque a FCC já havia incluído, em 22 de dezembro de 2025, os sistemas de aeronaves não tripuladas (UAS) e seus componentes críticos produzidos no exterior na chamada Covered List — Lista Coberta, uma relação oficial de equipamentos considerados “potencial risco à segurança nacional”. Na prática: drones estrangeiros já presentes no país não foram “desligados”, mas o avanço do mercado para novas versões e novas importações passou a enfrentar barreiras técnicas e regulatórias que podem reduzir drasticamente a entrada de novos produtos.

ESTRATÉGICA: ferramenta aérea entrou no centro de um debate que abrange questões de mercado e de segurança nacional entre as autoridades e entidades norte-americanas
IMPACTO DIRETO
A medida atinge todos os segmentos de drones. E, em cheio, os equipamentos agrícolas, amplamente utilizados no país em aplicações de insumos, mapeamento e monitoramento de lavouras — setor, aliás, fortemente dependente dessa tecnologia. Esse é o capítulo mais recente de uma discussão que começou a ganhar tração a partir do fim do prazo previsto na Seção 1709 da Lei de Autorização de Defesa Nacional do ano fiscal de 2025 (NDAA FY25) para revisões de segurança nacional exigidas pelo Congresso norte-americano.
O vencimento desse prazo abriu caminho para restrições regulatórias mais duras no mercado americano, tema que já havia sido noticiado em dezembro de 2025 pelo site do Sindag, antecipando para o público brasileiro o tamanho do movimento em curso. A própria FCC destaca no DA 26-69 que a inclusão na Covered List e os desdobramentos recentes decorrem de atualizações regulatórias e revisões realizadas ao longo de 2025, culminando com regras que passaram a restringir a autorização de equipamentos considerados “cobertos”.
Corrida por produção local
Segundo o portal norte-americano AgFunder News, em reportagem publicada em janeiro de 2026, a medida “envia ondas de choque no mercado de drones agrícolas dos EUA” e está provocando uma corrida por produção local (Made in America), com empresas e startups adaptando linhas de montagem para ocupar o espaço deixado por fabricantes estrangeiros.
O tema ganhou ainda mais relevância porque o setor agrícola norte-americano não utiliza drones apenas para observação: o país vive um crescimento acelerado no uso de equipamentos para pulverização, aplicação localizada e distribuição de insumos, além de monitoramento e mapeamento de áreas.
O AgFunder destaca que a incerteza regulatória já vem acelerando movimentos de empresas americanas para ampliar produção doméstica, buscando reduzir a dependência de componentes e plataformas estrangeiras — especialmente as de origem chinesa.
RECUO
Uma evidência concreta do impacto no setor aparece em um levantamento divulgado pela American Spray Drone Coalition (ASDC), que estimou queda expressiva no mercado de drones de pulverização. Segundo a entidade, as vendas de drones de aplicação teriam recuado de cerca de 8.950 unidades em 2024 para aproximadamente 3.711 unidades em 2025, um indicador atribuído ao ambiente regulatório e às incertezas envolvendo importação e homologação.
Embora o dado trate especificamente do segmento de pulverização (spray drones), ele ajuda a dimensionar o tamanho do mercado e como mudanças regulatórias podem atingir diretamente produtores, prestadores de serviço e cadeias logísticas.
Atualizações só até 2027
Segundo o DA 26-69, com as regras adotadas pela Comissão em outubro de 2025 equipamentos que entraram na Covered List poderiam ficar impedidos até mesmo de receber atualizações de software, firmware e segurança. Neste caso, mudanças técnicas simples, que estão classificadas nas chamadas Class I permissive changes.
Para evitar esse efeito colateral, o Escritório de Engenharia e Tecnologia (OET) da FCC concedeu uma dispensa temporária (waiver) permitindo essas atualizações em equipamentos já autorizados antes de dezembro de 2025. Mas isso só até 1º de janeiro de 2027. Em outras palavras: drones que já estavam legalizados não estão proibidos de operar, mas seu futuro passa a depender do desfecho desse impasse até o final deste ano.
RESUMINDO O QUE ESTÁ EM JOGO:
- O que é a FCC e por que ela regula drones?
A Federal Communications Commission (FCC) é a agência federal responsável por regular comunicações nos Estados Unidos. Ela fiscaliza equipamentos que usam radiofrequência, como celulares, Wi-Fi, satélites, sistemas de transmissão. Como drones dependem de sinal para comando, telemetria e transmissão de dados, eles precisam cumprir regras técnicas e obter autorização.
- O que é a Covered List?
É uma lista oficial da FCC que reúne equipamentos considerados risco potencial à segurança nacional. Entrar nessa lista significa que novos modelos ou componentes podem enfrentar restrições severas para receber autorização de operação e comercialização nos EUA.
- Drones agrícolas estrangeiros foram proibidos?
Não de forma imediata. O que ocorreu foi uma restrição regulatória: drones estrangeiros e seus componentes críticos foram incluídos na Covered List, o que dificulta autorizações futuras. Drones já autorizados antes de dezembro de 2025 seguem operando.
- O que é o DA 26-69?
Publicado em 21 de janeiro de 2026, é um Aviso Público da FCC que concede uma dispensa temporária permitindo que drones já autorizados continuem recebendo atualizações de software e firmware até pelo menos 1º de janeiro de 2027.
- Por que a FCC liberou atualizações até 2027?
Porque, sem essa dispensa, drones já autorizados poderiam ficar impedidos de receber atualizações de segurança, correções de falhas e compatibilidade. A FCC reconhece que isso seria prejudicial ao interesse público e poderia criar riscos ainda maiores, já que equipamentos ficariam desatualizados e vulneráveis.
- O que são “software” e “firmware”?
Software é o conjunto de programas que roda no drone e no controle. Firmware é um tipo de software “interno”, gravado no equipamento, que controla funções críticas como voo, estabilidade, bateria, comunicação e sensores. Sem firmware atualizado, drones podem apresentar falhas, incompatibilidade com sistemas e vulnerabilidades digitais.
- Novos modelos de drones estrangeiros podem entrar nos EUA?
A entrada de novos modelos estrangeiros ficou mais difícil. Em geral, novos drones produzidos fora dos EUA passam a depender de:
– autorização regulatória mais rigorosa,
– enquadramento em exceções,
– ou modelos de produção local (Made in America), com cadeias de fornecimento consideradas seguras.
- Por que os EUA alegam que drones representam risco à segurança nacional?
Porque drones não apenas voam: eles coletam, armazenam e transmitem dados. Isso inclui imagens detalhadas de lavouras, mapas georreferenciados e registros operacionais que podem ser considerados estratégicos. Nesta lógica, poderiam representar um ponto crítico de segurança cibernética e soberania nacional.
- Que tipo de dados um drone agrícola gera?
– mapas de propriedade e talhões,
– imagens de alta resolução,
– rotas de voo e padrões de aplicação,
– volume e taxa de insumo aplicado,
– horários de operação,
– telemetria e dados técnicos,
– informações de produtividade e vigor vegetativo.
- Por que esses dados são considerados estratégicos?
Porque revelam informações sensíveis como:
– capacidade produtiva regional,
– localização de estruturas críticas (armazéns, silos, energia),
– padrões de logística agrícola,
– planejamento de safra e investimentos.
Além disso, grandes volumes de dados agrícolas podem alimentar sistemas de inteligência artificial e gerar vantagem competitiva.
- Esses dados podem ser enviados para fora do país?
Dependendo do modelo e do ecossistema digital, sim. Muitos drones sincronizam informações com servidores externos ou sistemas em nuvem. Isso gera preocupação: quem controla o servidor pode controlar ou acessar dados.
- Quando se fala “drone agrícola”, é pulverização ou monitoramento?
Pode ser ambos. O termo “drone agrícola”, neste caso, abrange:
– drones de monitoramento e mapeamento (imagens, NDVI, inspeções),
– drones de aplicação (pulverização, distribuição localizada).
Mas o debate atual nos EUA está especialmente ligado aos drones de pulverização, que cresceram muito e se tornaram um mercado bilionário.
- Quantos drones chineses operam hoje nos EUA?
Não existe, até o momento, um número oficial único e público consolidado. No entanto, o AgFunder News cita estimativa atribuída à DJI de que, em 2024, cerca de 80% dos drones de pulverização (quatro de cada cinco aparelhos) usados por agricultores americanos seriam da DJI — empresa chinesa que domina globalmente o setor.
- O que dizem fabricantes chineses como a DJI?
A DJI já divulgou posicionamentos públicos defendendo seus drones agrícolas, argumentando que são seguros e que restrições prejudicam agricultores e a inovação. A empresa vinha solicitando que as agências norte-americanas iniciassem as avaliações de segurança de seus produtos – requisito para não cair na Covered List da FCC. O que não havia sido atendido até dezembro, segundo reclamou o chefe de Política Global da empresa. Adam Welsh.
- O que dizem as empresas americanas?
Segundo o AgFunder, a nova regra está incentivando fabricantes e startups americanas a acelerar produção local e ocupar espaço de mercado, criando uma corrida por drones agrícolas Made in America. Tanto de aparelhos concebidos nos EUA como levando ao país fábricas de estrangeiras. a exemplo da chinesa EAVision.
- O mercado já sentiu impacto em vendas?
Sim. A American Spray Drone Coalition estima que as vendas de drones de pulverização caíram de cerca de 8.950 unidades (2024) para 3.711 (2025).
- Por que o Brasil deve acompanhar esse tema?
Porque o Brasil vive crescimento acelerado do uso de drones agrícolas e depende fortemente de tecnologia estrangeira.
Mudanças nos EUA podem influenciar:
– preços globais,
– disponibilidade de peças,
– decisões de fabricantes,
– debates regulatórios sobre segurança de dados.