Canadá tenta sair do atraso nos drones

Proposta de regulamentação deve sair este ano, liberando aplicações remotas com produtos já autorizados para aviação agrícola

O Canadá espera concluir ainda nos próximos meses — possivelmente até o meio do ano — a regulamentação do uso de drones agrícolas na aplicação de defensivos. O processo entrou na fase final após o encerramento da consulta pública sobre o tema (entre 24 de fevereiro e 25 de março) e é visto como decisivo para destravar um mercado que hoje avança lentamente no país.

Atualmente, os drones agrícolas operam sob um regime bastante restritivo: só podem aplicar defensivos quando o rótulo do produto menciona explicitamente o uso por aeronaves remotamente pilotadas (RPAS). O que, na prática, limita a atividade, já que poucos produtos no país preveem o uso da tecnologia.

O resultado é um cenário de baixa adoção na pulverização, com os equipamentos concentrados em monitoramento de lavouras e mapeamento — o que restringe o avanço da própria agricultura de precisão no país. Esse gargalo regulatório sobre uma tecnologia já consolidada globalmente tem gerado incômodo crescente no setor agrícola canadense, que aponta o atraso do país em relação a mercados mais avançados, como Estados Unidos, Brasil e China. O movimento levou inclusive à criação de uma entidade específica para representar o segmento: a Associação Canadense de Drones Agrícolas.

ESTRATÉGIA
Apesar da pressa (e das críticas) do setor produtivo, a virada regulatória no Canadá começou ainda em novembro do ano passado. Foi quando o Ministério dos Transportes publicou uma norma permitindo operações BVLOS (além da linha de visada) para drones de médio porte em cenários de baixo riscocomo áreas rurais.

Na prática, não se tratou de uma regra específica para drones agrícolas, mas de uma mudança estrutural: o país abriu o espaço aéreo para operações típicas do campo, transformando o BVLOS de exceção burocrática em operação padronizada. Com isso, o uso em larga escala da tecnologia nas lavouras passa a depender essencialmente do ajuste sanitário — ou seja, da liberação dos produtos para aplicação por drones.

Abertura controlada

A proposta em discussão agora está a cargo da Agência Federal de Pesticidas do Canadá (PMRA), ligada à Health Canada (equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil). O texto prevê permitir que drones utilizem produtos já registrados para aplicação aérea convencional, sem necessidade de alterar rótulo caso a caso. A condição é seguir rigorosamente os mesmos parâmetros técnicos da pulverização por aviões ou helicópteros — incluindo dose, volume, tamanho de gotas e zonas de segurança.

O modelo é de abertura controlada. Mantém as restrições já previstas nos rótulos e reforça exigências como certificação dos operadores junto à autoridade aeronáutica, treinamento específico para o manuseio de pesticidas e protocolos de segurança no abastecimento e na operação. Também preserva limites para aplicações em áreas sensíveis, como zonas urbanas, florestais e ambientes aquáticos.

TECNOLOGIA: produtores do Canadá reclamam que falta de regulamentação adequada sobre equipamentos remotos deixa país em atraso frente a agriculturas avançadas como as do Brasil, Estados Unidos e China – foto: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress