Filipinas discutem acesso de pequenos produtores a drones

Estudo do Instituto de Pesquisa do Arroz do país defende políticas públicas para democratizar acesso à tecnologia e modernizar produção do principal alimento local

Os drones agrícolas deixaram de ser apenas promessa tecnológica e entraram oficialmente na agenda estratégica da produção de arroz nas Filipinas. É o que aponta o estudo Making Agricultural Drones Accessible to Philippine Rice Farmers, dos pesquisadores Jaime A. Manalo IV e Cristine Joy S. Corpuz – ambos ligados ao Instituto Filipino de Pesquisa em Arroz (PhilRice). O documento defende uma ampla articulação entre governo e iniciativa privada para tornar os equipamentos acessíveis aos produtores rurais do país.

O relatório foi divulgado pelo Centro Regional do Sudeste Asiático para Estudos e Pesquisas em Agricultura do país asiático (SEARCA, na sigla em inglês) e ganhou repercussão a partir de uma matéria publicada no início da tarde desta terça-feira (19), pelo horário do Brasil – já manhã desta quarta nas Filipinas, pelo jornal The Manila Times.

O estudo analisa o potencial dos drones para reduzir custos de mão de obra, aumentar a eficiência operacional e diminuir a penosidade do trabalho no campo — especialmente em um cenário de pressão por produtividade e envelhecimento da população rural asiática. Segundo os pesquisadores, a tecnologia já demonstrou resultados em culturas como banana e abacaxi nas Filipinas, mas ainda enfrenta dificuldades para ganhar escala nos arrozais.

Para Jaime Manalo e Cristine Corpuz, os entraves vão muito além do preço dos equipamentos. Entre os principais gargalos estão excesso de burocracia, poucas licenças para operadores, número limitado de defensivos autorizados para drones e falta de mecanismos de financiamento para pequenos agricultores. Atualmente, segundo o levantamento, existem apenas três operadores licenciados pela autoridade filipina de fertilizantes e pesticidas e pouco mais de 150 aeronaves remotamente pilotadas autorizadas oficialmente para agricultura no país.

Resistência cultural e
fadiga de inovação

O estudo também mostra que a resistência cultural ainda pesa no processo de adoção. Em algumas regiões, agricultores associam drones e mecanização à substituição de mão de obra rural. O levantamento compara essa reação à chegada das colheitadeiras mecanizadas ao País, então chamadas por produtores locais de “halimaw” — “monstro”, em filipino — por eliminarem empregos no campo.

Outro fenômeno identificado pelos pesquisadores é o que denominam como “fadiga de inovação”: produtores que acreditam já possuir métodos suficientemente eficientes e demonstram pouco interesse em novas tecnologias.

Apesar disso, o documento destaca vantagens claras dos drones para a rizicultura filipina. Entre elas estão velocidade operacional, redução da penosidade do trabalho e multifuncionalidade — podendo ser usados para semeadura, fertilização e pulverização. Os pesquisadores observam, porém, que os equipamentos funcionam melhor em áreas maiores e contínuas, o que recoloca no debate a necessidade de consolidação fundiária em algumas regiões produtoras.

A pesquisa propõe uma série de medidas para destravar o setor, entre elas campanhas nacionais de conscientização, harmonização das regras regulatórias, ampliação do número de operadores habilitados e criação de programas de apoio financeiro. Os autores também sugerem modelos cooperativos e sistemas de compartilhamento de drones entre produtores — estratégia já adotada em outros países asiáticos para reduzir custos de entrada na agricultura digital.

O cenário por trás dessa análise é, na verdade, um debate que cresce em toda a Ásia: como acelerar a digitalização agrícola sem ampliar a distância tecnológica entre grandes grupos rurais e pequenos produtores. No caso das Filipinas, onde o arroz ocupa papel central na segurança alimentar e na economia nacional, os drones passaram a ser vistos não apenas como máquinas de pulverização, mas como peça-chave de uma transformação mais ampla do campo.

Panorama asiático

A Ásia virou praticamente um laboratório mundial de políticas públicas para drones agrícolas. Em vários países, os governos passaram a tratar a tecnologia não apenas como inovação rural, mas como ferramenta estratégica para segurança alimentar, redução da escassez de mão de obra e modernização do campo. Em modelos que vão desde subsídios diretos para compra de equipamentos até programas de treinamento, crédito rural específico e campanhas de empoderamento de mulheres agricultoras.

A liderança mais agressiva continua sendo da China. País sobre o qual o Sindag já havia divulgado, em março de 2021, a reportagem Especial drones: China, Brasil e as tendências do mercado, descrevendo a política e os programas de inventivo para a tecnologia chegar a agricultores que até então aplicavam defensivos praticamente à mão. Estratégia reforçada agora em fevereiro, quando o País incluiu os drones agrícolas, robôs e tecnologias como Internet das Coisas (IoT) no seu principal plano político anual voltado à agricultura.    

Outro exemplo abordado pelo portal aeroagrícola brasileiro destacou no ano passado o projeto Namo Drone Didi. No caso, uma iniciativa do governo da Índia para empoderar mulheres no campo através do treinamento e auxílio para a aquisição de drones agrícolas. A iniciativa previa equipar com a tecnologia remota, até o final de 2026, cerca de 15 mil Grupos de Autoajuda (SHGs, na sigla em inglês) espalhados pelo País. A expectativa era de que cada grupo poderia atender entre 800 e 1 mil hectares por ano, com as mulheres atuando na terceirização e aplicação por produtores e gerando renda em casa.  

Mais do que uma discussão sobre máquinas, o debate filipino reflete uma preocupação crescente na Ásia: como acelerar a digitalização do campo sem ampliar a distância entre grandes grupos agrícolas e pequenos produtores. Em um continente onde segurança alimentar virou questão estratégica, drones passaram a ser tratados cada vez menos como novidade tecnológica e cada vez mais como política pública.