Publicação apresenta dados e regras para esclarecer a sociedade e rebater críticas baseadas em mitos sobre a tecnologia
Mais do que orientar produtores e operadores, uma nova publicação lançada na tarde desta terça-feira (14), em Brasília, pretende levar informação técnica ao debate público sobre os drones de pulverização. A cartilha Drones de Pulverização – segurança, produtividade e inclusão foi apresentada na sede da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), durante reunião de entidades que integram o Instituto Pensar Agropecuária (IPA), responsável pelo suporte técnico à Frente.
O material surge como resposta a críticas que, segundo as organizações responsáveis pelo trabalho, frequentemente se apoiam em mitos, generalizações ou informações distantes da realidade das operações no campo. Ele foi elaborado em conjunto pelo Sindag, Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Associação Nacional das Empresas de Produtos Fitossanitários (Aenda), CropLife Brasil e Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).
A proposta é demonstrar à sociedade que os drones não representam apenas uma inovação incorporada pelo agronegócio. Mais do que isso, são uma ferramenta importante para ampliar o acesso de pequenos e médios produtores à agricultura de precisão.
Resposta técnica
Responsável pela apresentação, o diretor operacional do Sindag, Cláudio Júnior Oliveira, definiu a cartilha como uma resposta consistente a discussões que, em muitos casos, têm assumido caráter predominantemente emocional. “É uma resposta técnica às dúvidas que existem”, sublinhou Oliveira. Ele explicou que o material busca mostrar a regulamentação já existente e desfazer a ideia de que os drones operariam sem instrumentos de controle.
Entre os principais mitos enfrentados pela publicação está a associação automática dos drones à deriva de produtos e à contaminação de áreas vizinhas. A cartilha explica que a deriva é um risco presente em qualquer modalidade de pulverização — inclusive com equipamentos terrestres — quando não são observados fatores como velocidade do vento, temperatura, umidade relativa do ar, tamanho das gotas e demais parâmetros previstos na bula dos produtos e no receituário agronômico.
Quando operado dentro dos padrões técnicos, o drone é justamente uma ferramenta de agricultura de precisão, capaz de direcionar a aplicação e tratar pontos específicos da lavoura, evitando operações desnecessárias em áreas inteiras. Além disso, a aviação agrícola, da qual os drones de pulverização fazem parte, possui regulamentação própria, exige profissionais capacitados e acompanhamento técnico e prevê a apresentação de relatórios detalhados das operações.
Entre as atividades já atendidas pela tecnologia estão pastagens, soja, milho, cana-de-açúcar, café, florestas, banana, hortaliças e flores. Oliveira citou ainda a utilização dos equipamentos por comunidades quilombolas no Espírito Santo e seu crescimento em áreas nas quais a aviação agrícola tripulada não conseguia atuar de maneira economicamente viável.
Frota em expansão
O dirigente do Sindag também apresentou números sobre as aeronaves agrícolas remotamente pilotadas. Segundo ele, o Brasil encerrou 2025 com 10.357 drones agrícolas registrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
O total, porém, ainda não retrata todo o mercado, já que os dados de importação indicariam a entrada acumulada de mais de 30 mil equipamentos no País. Parte deles ainda aguardando comercialização ou regularização.
Para Oliveira, os números demonstram a necessidade de aperfeiçoar e integrar as bases da Anac e do Ministério da Agricultura e Pecuária. Também reforçam a importância de conscientizar os proprietários sobre suas obrigações e trazer ao ambiente regular os operadores que eventualmente estejam atuando fora das normas.
Nesse sentido, a publicação sustenta que o crescimento da tecnologia exige o aperfeiçoamento dos mecanismos de cadastro, capacitação e fiscalização, mas não justifica a deslegitimação de todo o setor. “Há diferença entre aperfeiçoar controles e demonizar tecnologias”, afirma o texto de abertura da cartilha.
Tecnologia sob fiscalização
Um dos pontos centrais do documento é a demonstração de que os drones de pulverização estão sujeitos simultaneamente a diferentes áreas de controle público. As operações envolvem normas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), da Anac, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), dos órgãos estaduais e dos conselhos profissionais.
A atividade exige, entre outros pontos, registro do equipamento, habilitação do piloto remoto, receituário agronômico, regularização da empresa prestadora ou da propriedade operadora, equipamentos homologados e envio ao Mapa de relatórios detalhados das aplicações.
Irregularidades podem resultar em multas, suspensão da operação, embargo da atividade, apreensão do drone e responsabilização nas esferas administrativa, civil e penal. A cartilha ressalta que tanto o operador quanto o produtor que contrata um serviço irregular podem responder pelas infrações.
Mais do que isso, o documento defende que eventuais desvios sejam fiscalizados e punidos, mas sem que condutas individuais sejam utilizadas para condenar a ferramenta como um todo.
Avanço com diálogo O diretor-executivo da Aprosoja Brasil e vice-presidente do Instituto Pensar Agropecuária, Fabrício Morais Rosa, afirmou que o avanço da tecnologia no campo é irreversível. Para ele, a prioridade agora ddeve ser assegurar que esse crescimento ocorra acompanhado por comunicação, capacitação, boas práticas e cumprimento das regras. “A aderência é altíssima, e a praticidade e a eficiência da tecnologia são muito grandes. É importante melhorar a comunicação com o produtor, tanto do ponto de vista técnico quanto legal e regulatório”, declarou.
Fabrício ressaltou que as entidades não defendem operações irregulares. Ao contrário, a publicação procura separar o emprego responsável da tecnologia de condutas individuais que devem ser fiscalizadas e punidas. “Ninguém vai defender ilegalidades. O que defendemos é o uso regular, bem-feito, à luz da legislação, dos regulamentos e das melhores práticas”, pontuou.
Para o dirigente, o documento também deve ajudar o setor a dialogar com a sociedade em uma linguagem que não se restrinja a números e normas. A tecnologia, acrescentou, precisa ser associada à modernização, à produtividade e ao orgulho pela agricultura brasileira.
Esforços ampliados
A chefe da Divisão de Aviação Agrícola do Mapa, Uéllen Colato, elogiou a iniciativa e afirmou que o governo compartilha a preocupação com o crescimento acelerado do número de equipamentos. Ela defendeu a ampliação dos esforços para trazer proprietários e operadores ao ambiente regulado. “Só com divulgação de conhecimento e com um trabalho sério e responsável vamos conseguir alavancar a aviação agrícola e a agropecuária brasileira de forma sustentável”, afirmou.
O gerente de Assuntos Regulatórios do Sindiveg, Fábio Kagi, destacou que os drones integram a evolução das tecnologias de aplicação e reforçou o compromisso da indústria com o uso correto e seguro dos defensivos agrícolas e dos bioinsumos. Segundo ele, essas ferramentas são importantes para a proteção das lavouras e para a produtividade, mas exigem capacitação, cuidado e respeito às normas.
Já Pedro Duarte, da CropLife Brasil, ressaltou que a cartilha oferece subsídios jurídicos, técnicos e científicos para que o tema seja discutido com base em evidências, e não em generalizações. Na mesma linha, representantes da Aenda, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e de outras organizações destacaram que o material poderá subsidiar debates públicos, notas técnicas, projetos legislativos e posicionamentos de parlamentares.
A expectativa das entidades é que a publicação amplie o acesso da sociedade a informações técnicas. E, assim, evite que casos isolados de irregularidade sejam utilizados para condenar uma tecnologia baseada em precisão, controle e rastreabilidade.

