Operação improvisada em uma estrada do Tocantins ganhou repercussão nacional quase quatro anos depois e revelou uma faceta ainda pouco conhecida da aviação agrícola brasileira
A tentativa de um piloto agrícola de salvar das chamas o caminhão de um amigo, lançando água sobre o incêndio há quatro anos, em uma estrada em Lagoa da Confusão, no Tocantins, era então silêncio. Até que o assunto ganhou as redes sociais no final de semana, em uma postagem do próprio piloto Gustavo Henrique de Azevedo, de 39 anos. Profissional da Precisa Aeroagrícola, situada no município, ele conta que guardou o vídeo até então pela frustração de não ter, na época, conseguido salvar o veículo do amigo. Mas a postagem acabou chegando a mais de 4 milhões de visualizações depois que foi repercutido pelo portal.
A tentativa de um piloto agrícola de salvar das chamas o caminhão de um amigo, lançando água sobre o incêndio em uma estrada de Lagoa da Confusão, permaneceu por quase quatro anos restrita à memória de quem viveu a cena. Até ganhar as redes sociais neste final de semana, após uma postagem do próprio piloto, Gustavo Henrique de Azevedo (acesse AQUI), de 39 anos, e depois ser repercutida por portais de notícias do Mato Grosso e Tocantins, alcançando mais de 4 milhões de visualizações.
Piloto há 13 anos e há uma década atuando na aviação agrícola, ele já trabalhava na Precisa, quando, naquele 30 de julho de 2022, recebeu a ligação desesperada de um amigo, dono do caminhão tomado pelo fogo. O pedido era pelo combate aéreo às chamas, já que o corpo de bombeiros mais próximo ficava a 120 quilômetros de distância.
Gustavo recebeu imediatamente o sinal verde da empresária Hoana Almeida Santos — hoje presidente do Sindag e proprietária da Precisa — para tentar a operação de emergência usando um avião agrícola Embraer Ipanema 203.
“Fui o mais rápido que pude para a base da empresa onde estava o avião. Preparei tudo rapidamente e decolei para o local onde tudo aconteceu”, relembra. O lançamento de aproximadamente mil litros de água não conseguiu evitar a perda do caminhão, mas acabou sendo a ajuda mais rápida e efetiva que chegou ao local naquele momento. Ainda assim, Gustavo conta que passou anos carregando um sentimento de frustração.
“A sensação que ficou foi de frustração e tristeza por não poder ajudar um amigo numa situação tão difícil”, afirmou. O piloto recebeu em seguida imagens de quem tinha captado do solo a operação. “Na época, pedi para não compartilharem nas redes”, recorda. Ao rever a situação sob outra perspectiva, porém, decidiu compartilhar o episódio pela primeira vez.

CULTURA OPERACIONAL
Presidente do Sindag e empresária da Precisa Hoana Almeida Santos lembra que o apoio emergencial já fazia parte da cultura operacional da empresa antes mesmo do episódio que viralizou agora. Segundo ela, a região onde ocorreu o incêndio fica próxima de áreas atendidas pela aeroagrícola, o que permitiu uma resposta rápida.
Além disso, Hoana explica que tanto o piloto quanto a própria empresa têm forte ligação com a região de Lagoa da Confusão. “Gustavo é daqui da região, criado aqui, é piloto daqui, assim como a Precisa”, destaca.
Segundo a empresária, a empresa também já auxiliou em casos de buscas por pessoas desaparecidas e na localização de acidentes aéreos. Além disso, desde o episódio do incêndio, investiu em comportas de combate a chamas e tem atuado também em operações contra o fogo em lavouras e áreas de preservação.
“No ano passado trabalhamos em incêndios em propriedades privadas e seguimos investindo nessa área”, destaca Hoana, acrescentando que a expectativa de uma estiagem severa na região neste ano reforça ainda mais a importância da preparação.
Prerrogativa legal e
referência internacional
Embora ainda pouco conhecida do grande público, a atuação da aviação agrícola no combate aéreo a incêndios é uma prerrogativa legal do setor no Brasil desde os anos 1960, quando surgiram os primeiros regulamentos específicos da atividade aeroagrícola no País. A função ganhou importância principalmente a partir dos anos 1990, quando o governo federal passou a utilizar empresas aeroagrícolas no apoio a brigadistas que atuam em reservas federais. Com o tempo, governos estaduais e produtores rurais também passaram a recorrer ao setor.
Segundo o último levantamento feito pelo Sindag sobre esse tema, só em 2024 a aviação agrícola brasileira lançou cerca de 40,1 milhões de litros de água em operações de combate aérea às chamas, em 11 Estados do País. Naquele ano, o trabalho envolveu 118 aviões, que somaram 10,7 mil horas de voo na proteção de biomas e lavouras, em apoio a brigadistas em solo.
Foram mais de 16,6 mil manobras de lançamento de água (pura ou com retardante de chamas), realizadas por 171 pilotos (que se revezaram na operação das aeronaves), contando ainda com 140 profissionais de suporte em solo, nas bases operacionais – atuando no abastecimento (de água e combustível) das aeronaves e outras tarefas.
Para completar, não só os pilotos brasileiros já combatem incêndios em outros países, como o Brasil também já é fornecedor internacional de tecnologias para esse tipo de operação.
Confira abaixo o vídeo da operação em 2022 (acervo pessoal de Gustavo Azevedo):