Aviação agrícola faz (literalmente) chover

Nucleação de nuvens ganha força em Goiás e abre nova frente em Estado onde o setor também é conhecido pelo combate aéreo a incêndios

A aviação agrícola brasileira pode estar abrindo mais uma frente estratégica no Cerrado: a indução de chuvas por meio da nucleação de nuvens. Em Goiás, produtores rurais têm aderido a grupos organizados para financiar operações aéreas voltadas a estimular precipitações localizadas durante os períodos de estiagem. Nesse cenário, ganha destaque a Aerotex Aviação Agrícola, tradicionalmente conhecida pelo trabalho no trato de lavouras e por sua brigada aérea de combate a incêndios.

Segundo o empresário aeroagrícola Ruy Alberto (Beto) Textor, ele iniciou os primeiros testes ainda nos anos 1980, na região do município gaúcho de Uruguaiana. De lá para cá, a Aerotex começou a utilizar a técnica esporadicamente em alguns anos de seca em Goiás. Nos últimos períodos, porém, o trabalho passou a ganhar escala no Estado diante das preocupações com secas prolongadas e irregularidade climática. “Já existem em torno de 100 produtores interessados, em diversas regiões do Estado”, assinala Textor.

Segundo o associado do Sindag, o método consiste em aproveitar nuvens já formadas e com umidade suficiente, introduzindo nelas núcleos de condensação — no caso, partículas de cloreto de sódio (sal). A partir disso, as microgotículas de vapor d’água em suspensão passam a se aglutinar, formando gotas maiores até ocorrer a precipitação.

A operação, porém, não “fabrica chuva” do zero. A técnica atua estimulando processos naturais já presentes em nuvens com potencial de precipitação. “É importante esclarecer: não se cria nuvem do nada. A técnica ajuda a natureza a fazer o que ela já está prestes a fazer”, explica Textor. Ele destaca que o processo depende da presença de cúmulos — um tipo de nuvem de contornos nítidos, base aplainada e bem definida — com boa umidade e presença de correntes convectivas (movimentos cíclicos de baixo para cima) capazes de transportar as partículas para o interior das nuvens.

SEMEADURA: “semeadura” é feita com cloreto de sódio na base das nuvens, aglutinando a umidade e provocando a precipitação de gotas – Imagem: Aerotex Aviação agrícola

Do fogo à chuva

Fundada em 1998, a Aerotex tornou-se conhecida em Goiás pelas brigadas aéreas que atuam há anos protegendo lavouras, áreas de preservação e reservas naturais durante os períodos de seca intensa no Cerrado.

Com isso, a lógica parece avançar um passo além: não apenas combater os efeitos da estiagem, mas tentar reduzir seus impactos antes mesmo que eles se agravem. Em outras palavras: a mesma aviação agrícola que há anos ajuda a conter os efeitos da seca no Cerrado agora começa a atuar também para tentar reduzir sua intensidade.

“Esses mesmos produtores que participam dos grupos de combate a incêndio estão aderindo também à brigada de nucleação”, contou Textor. A ideia é estruturar operações preventivas já pensando na próxima safra e em cenários de baixa umidade previstos para a região.

A própria aviação agrícola brasileira já possui respaldo normativo para esse tipo de operação. Além da pulverização, semeadura e combate a incêndios, a nucleação de nuvens aparece entre as atividades previstas para o segmento dentro das atribuições reconhecidas pelo Ministério da Agricultura.

Técnica usada no mundo

Embora ainda desperte curiosidade no Brasil, a chamada “chuva induzida” não é novidade no exterior. Países do Oriente Médio vêm investindo fortemente na técnica diante das limitações hídricas da região. Há também registros históricos de projetos semelhantes nos Estados Unidos, Austrália e China.

Mas o caso mais emblemático é o da Tailândia, que mantém um serviço estatal de aviação agrícola cuja principal finalidade é justamente semear nuvens para garantir abastecimento hídrico aos produtores rurais. O Departamento Real de Aviação Agrícola e de Chuva nasceu em 1955 e também atua no combate a incêndios florestais.

Por aqui, “é um nicho da aviação agrícola que tende a crescer”, resume Textor. “Assim como as brigadas aéreas de combate a incêndio serviram de exemplo para o País, esperamos que esse modelo também seja incentivado e difundido pela aviação agrícola”, completa.

Em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes no Cerrado brasileiro, a aviação agrícola começa a ampliar seu papel para além da produtividade no campo — assumindo também funções ligadas à mitigação de riscos ambientais e à proteção hídrica das regiões produtoras.

Clique na imagem e confira o vídeo de
Textor explicando como funciona a
técnica de nucleação de nuvens