Aplicações com inseticida ocorrem entre o final deste mês e início de maio em áreas urbanas e florestais próximas a Vancouver, no oeste do país
O governo da província da Colúmbia Britânica, no oeste do Canadá, iniciou uma nova operação de combate aéreo a uma das pragas florestais mais destrutivas do mundo. A mariposa cigana (Lymantria dispar), capaz de devastar grandes áreas de vegetação em pouco tempo, voltou a exigir intervenção direta com aeronaves agrícolas — reforçando o papel estratégico da aviação no controle de crises sanitárias em larga escala.
As aplicações estão programadas para ocorrer entre o fim de abril e o início de maio, dentro de uma janela operacional que pode se estender conforme as condições climáticas. O trabalho tem como foco áreas específicas nos municípios de Delta e Squamish, próximos à cidade de Vancouver.
Delta é um município costeiro, com presença significativa de áreas urbanas e agrícolas na região do estuário do rio Fraser, enquanto Squamish é uma cidade menor, cercada por florestas densas e montanhas, inserida em uma área de forte predominância de ecossistemas naturais e exploração florestal sustentável. Isso em áreas cobertas principalmente por espécies de pinheiros, abetos e cedros. Parte dessas áreas tem uso econômico, ligada à indústria madeireira, enquanto outras são áreas de preservação ambiental ou de uso misto, com foco turístico.
PRODUTO
As operações contam com aviões ou helicópteros agrícolas, capazes de garantir cobertura uniforme em áreas urbanas e florestais — sobretudo em terrenos irregulares e de difícil acesso, como é o caso de Squamish. A estratégia adotada pelo governo canadense prevê três aplicações aéreas, com intervalos de sete a dez dias entre cada uma, realizadas sempre nas primeiras horas da manhã para maximizar a eficiência do produto e reduzir a exposição da população.
As áreas tratadas somam cerca de 160 hectares, distribuídas entre bairros urbanos e zonas de vegetação próxima a cursos d’água e áreas florestais. O controle será feito com o inseticida biológico Foray 48B, à base da bactéria Bacillus thuringiensis var. kurstaki (Btk), amplamente utilizado no mundo — inclusive na agricultura orgânica — por sua ação altamente seletiva. O produto precisa ser ingerido pelas lagartas da mariposa para surtir efeito, atacando seu sistema digestivo sem representar risco relevante para humanos, animais domésticos, aves ou outros insetos não-alvo.
Nesse cenário, o uso de aviões e helicópteros agrícolas é considerado decisivo. A aplicação aérea permite cobertura uniforme em áreas extensas e de difícil acesso, além de garantir rapidez na resposta — fator crítico quando se trata de pragas com alto potencial de disseminação.
Praga invasora e controle recorrente
As aplicações aéreas contra a mariposa cigana vêm sendo realizadas na Colúmbia Britânica desde o fim da década de 1970, com a última operação registrada em 2024. Sem esse tipo de intervenção, especialistas avaliam que a mariposa poderia se tornar endêmica, trazendo impactos duradouros tanto para o meio ambiente quanto para atividades econômicas locais.
O inseto é uma espécie invasora na América do Norte e preocupa autoridades por sua capacidade de desfolhar árvores em larga escala, comprometendo a saúde das florestas e afetando cadeias produtivas ligadas à madeira e ao turismo. Além disso, a presença da praga pode gerar restrições fitossanitárias em mercados internacionais, ampliando o impacto econômico.
O combate à praga ocorre conforme o monitoramento realizado por armadilhas com feromônios, que indicam o nível de infestação. No caso atual, a decisão pela aplicação aérea foi tomada após a constatação de crescimento populacional da praga nos últimos dois anos.
AMÉRICA DO SUL
Embora presente no Hemisfério Norte, é uma praga que está no radar das autoridades sanitárias na América do Sul. No Brasil, com orientações sobre seus riscos em material técnico da Embrapa e sendo alvo de vigilância constante do Ministério da Agricultura brasileiro (Mapa).
Além disso, em 2018, a Argentina chegou a emitir um alerta fitossanitário, depois que identificou a chegada crescente a seus portos de muitos navios vindos da Ásia, onde existe a chamada mariposa cigana asiática (uma variante ainda mais agressiva e com maior capacidade de dispersão). Felizmente, o risco não se confirmou na época.

VORAZ: a Lymantria dispar é perigosa porque se alimenta de mais de 500 espécies de árvores e arbustos, possui uma alta taxa de reprodução e, na fase lagarta, desfolha árvores em grande escala, podendo destruir ecossistemas inteiros e causar prejuízos econômicos significativos