Foco do setor aeroagrícola e de diversas entidades norte-americanas é modernizar o AGDISP, sistema utilizado pela EPA para avaliar riscos ambientais
A Associação Nacional de Aviação Agrícola dos Estados Unidos (NAAA, na sigla em inglês) está à frente de um movimento para atualizar a principal referência utilizada pela Agência de Proteção Ambiental norte-americana (EPA) na avaliação de risco na aplicação de defensivos. Trata-se do AGDISP Modernization Project (AMP), que prevê investimento de 600 mil dólares – o equivalente a mais de R$ 3,2 milhões – na modernização do software AGDISP (sigla para Agricultural Dispersion), sistema desenvolvido ainda na década de 1980 pelo Serviço Florestal dos Estados Unidos (U.S. Forest Service).
O AMP contempla a reescrita completa do código do AGDISP em linguagem moderna e de código aberto, com foco em avanços como modelagem tridimensional (3D) do movimento das gotículas, do relevo e das condições atmosféricas; suporte a bicos avançados e tecnologias modernas de redução de deriva; integração com drones e novas plataformas de aplicação; e maior capacidade de simulação específica por cenário, com potencial para reduzir – ou até eliminar – grandes faixas de amortecimento, entre outras melhorias técnicas.
A iniciativa da NAAA foi lançada em 2023 e já arrecadou cerca de US$ 375 mil. Foram US$ 35 mil da Cotton Foundation, US$ 50 mil da Fundação Nacional de Pesquisa e Educação em Aviação Agrícola (NAAREF, vinculada à NAAA), além de US$ 250 mil – ao longo de cinco anos – dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), via Associação Americana de Controle de Mosquitos (já que nos Estados Unidos a aviação agrícola também é utilizada na proteção da saúde pública contra arboviroses). Soma-se ainda US$ 35 mil da Associação Nacional de Produtores de Milho (NCGA).
DEFASAGEM
Conforme a entidade aeroagrícola norte-americana, embora o AGDISP tenha recebido ajustes ao longo dos anos, o software hoje utilizado pela EPA encontra-se defasado frente a tecnologias como novos sistemas DGPS (incluindo registro operacional e controle do fluxômetro), sensores meteorológicos em tempo real, adjuvantes modernos, bicos e atomizadores com melhor controle do espectro de gotas, além dos próprios drones agrícolas — entre outras ferramentas que permitem uma abordagem técnica, digital e totalmente mensurável das aplicações.
Cabe destacar que o sistema é utilizado também para avaliar riscos e restrições relacionados a equipamentos de aplicações terrestres, como pulverizadores autopropelidos e sistemas acoplados a tratores. Com isso, a atualização do AGDISP deverá servir não apenas para aprimorar a precisão regulatória, mas também para valorizar operadores que investem em tecnologia e na profissionalização do trabalho em campo.
O AMP reúne atualmente 37 membros, inclusive da própria EPA, abrangendo representantes de universidades, instituições tecnológicas, indústria e setor produtivo, além de outros órgãos estratégicos como o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Serviço de Pesca e Vida Selvagem do país (USFWS) e até a Agência Reguladora de Gestão de Pragas do Canadá (Canadian PMRA), reforçando o caráter técnico e multissetorial do projeto.
Distorções já corrigidas
Enquanto agora se discute o AGDISP – que é o modelo base para calcular o comportamento das gotas no ar, sua dispersão, a influência do vento, temperatura, estabilidade atmosférica e a dinâmica física da deriva, em 2024 a NAAA obteve uma vitória no campo regulatório com uma mudança no AgDRIFT. Neste caso, trata-se da ferramenta operacional da EPA para análises de risco – que leva o AGDISP para o campo prático das decisões do órgão.
O AgDRIFT possui níveis de complexidade, chamados de Tier: do simplificado e conservador (Tier I, que superestima o risco), passando pelo intermediário (Tier II), ao mais sofisticado e realista – Tier III, que depende de parâmetros e tecnologias que garantam maior precisão e base técnica mais fiel por parte da ferramenta de aplicação.
Ocorre que a NAAA conseguiu comprovar tecnicamente que a aplicação do Tier I para o setor não era adequada à tecnologia empregada pelo segmento, levando a restrições regulatórias desproporcionais. A partir de então, a EPA reposicionou a atividade dentro de padrões técnicos mais justos e baseados em ciência, ao adotar o Tier III, aliando a modernização tecnológica à revisão das premissas regulatórias.
Em resumo: mais racionalidade regulatória.

PRECISÃO: entidade norte-americana do setor comprovou junto às autoridades os predicados de precisão e sustentabilidade das ferramentas aeroagrícolas – foto: Graziele Dietrich/C5 NewsPress