Ferramentas para o trato de lavouras integram estratégia que engloba também robôs e inteligência artificial
O governo da China incluiu neste mês os drones agrícolas, robôs e tecnologias como Internet das Coisas (IoT) — com destaque também para o avanço da inteligência artificial — no principal plano político anual voltado à agricultura. A decisão aparece no Documento Central nº 1 para 2026, divulgado no último dia 3 e considerado o mais importante guia anual do governo de Pequim para o setor rural.
A informação foi divulgada pelo Yicai Global, portal de notícias econômicas em inglês ligado ao grupo chinês Yicai Media Group, que integra o conglomerado estatal Shanghai Media Group (SMG), um dos maiores grupos de comunicação da China. A novidade também repercutiu em outros meios estatais e em veículos internacionais.
Para entender o peso da medida, basta considerar que ela não é apenas simbólica: sinaliza uma mudança de patamar em uma estratégia que vem sendo construída há mais de uma década. Agora, com a tecnologia sendo oficialmente incorporada como política de Estado, a tendência é que as diretrizes se desdobrem em ações concretas para integrar equipamentos remotos ou autônomos a sensores, plataformas de gestão e ferramentas digitais de monitoramento, ampliando o conceito de “fazendas inteligentes” no país.
ALCANCE
A explicação veio do vice-diretor do Gabinete da Comissão Central de Finanças e vice-diretor do Gabinete do Grupo Líder do Trabalho Rural Central, Zhu Weidong, durante coletiva sobre o Documento Central nº 1. Segundo o Yicai Global, Zhu afirmou que, “dos aproximadamente 500 mil drones agrícolas em uso no mundo todo, mais de 300 mil estão na China”. Ele acrescentou que a utilização dessas aeronaves se expandiu da pulverização e semeadura de cultivos para o monitoramento de lavouras e criações e até para o transporte de suprimentos e produtos agrícolas.
Agora, além de fazer a tecnologia chegar ao maior número possível de pequenos produtores, o objetivo é interligar as ferramentas e plataformas digitais em um ecossistema integrado. O desafio, segundo a publicação, é eliminar a chamada “última milha” — expressão usada para definir os passos finais necessários para que os avanços tecnológicos deixem de ficar restritos a centros de pesquisa ou grandes propriedades e passem a alcançar também aldeias, cooperativas e famílias do interior.
Ações a médio prazo
A China se tornou o maior país do mundo em número de drones agrícolas em operação — e também um dos principais fornecedores globais desse tipo de equipamento — a partir de uma estratégia gradual de incentivos regionais e políticas nacionais.
Em 2021 uma reportagem do portal do Sindag já havia reunido informações explicando essa costura. Na época, o país asiático teria cerca de 100 mil drones agrícolas em operação, conforme dados atribuídos à Universidade Agrícola do Sul da China.
O movimento ganhou força em um contexto demográfico e econômico que passou a pressionar o setor rural. A China, que tem histórico de operações agrícolas com aeronaves tripuladas desde 1951 — e que, em 2008, contava com uma frota estimada em 500 aviões agrícolas e demanda projetada para 4,5 mil aeronaves — passou a enfrentar um novo cenário: redução de mão de obra no campo e envelhecimento populacional, ampliando a urgência de soluções automatizadas para garantir produtividade.
Foi nesse ambiente que vieram programas de incentivo à aquisição de drones. O primeiro deles foi lançado em 2014, pela província de Henan. O governo local subsidiava 10% do preço de drones de 5 a 9 quilos, 20% do valor de aparelhos de 10 a 34 quilos e 60% do valor de drones de mais de 35 quilos. Depois, programas semelhantes se multiplicaram em outras províncias e, em seguida, vieram incentivos em escala nacional — incluindo apoio também à indústria.

EXPANSÃO: governo chinês busca fomentar ecossistemas tecnológicos nas pequenas propriedades – foto: Agência Xinhua
DEMOGRAFIA
Paralelamente, dados oficiais do próprio Escritório Nacional de Estatísticas da China indicam que a população do país passou a apresentar tendência de redução a partir de 2022. O que reforçou, internamente, a necessidade de acelerar ações estratégicas para otimizar o trabalho no campo.
Não por acaso, esse cenário também vem sendo ilustrado nas redes sociais. Em dezembro, a agricultora Dai Shuying viralizou como a “vovó que opera um drone agrícola”, aos 82 anos. Quem toca a fazenda, na prática, é seu neto, Wang Tiantian, que introduziu na propriedade máquinas agrícolas inteligentes, como colheitadeiras e drones — com incentivos governamentais.
A adoção da tecnologia tem permitido que a família mantenha a produção e até amplie sua renda, inclusive vendendo produtos caseiros pelas redes sociais. O fenômeno ganhou força a ponto de Dai ultrapassar a marca de 500 mil seguidores, impulsionada pela curiosidade do público diante da imagem de uma idosa conduzindo, com naturalidade, um equipamento que se tornou símbolo da modernização rural chinesa.
O episódio, mais do que uma curiosidade de internet, reflete o movimento que Pequim tenta consolidar: transformar drones, robôs e inteligência artificial em ferramentas do cotidiano agrícola — não apenas como vitrine tecnológica, mas como parte da engrenagem que sustenta a produção de alimentos no país.