Drones em defesa do chocolate

Estudo feito em lavouras de cacau na África utilizou equipamentos não tripulados para coletar esporos de fungos no ar e antecipar o alerta para doenças nas plantas

A revista Pathogens, da editora suíça MDPI (especializada publicações científicas de acesso aberto), divulgou neste mês os resultados de uma pesquisa do Rothamsted Research na África Ocidental, com sequenciamento genético de esporos de fungos captados por drones em lavouras cacaueiras. O estudo ocorreu em áreas de cacau no leste e no centro de Gana, realizado pelo fitopatologista Kevin King e pelo fitopatologista e aerobiologista Jon West. Para isso, eles utilizaram drones de pequeno porte equipados com duas lâminas de acrílico revestidas de vaselina.

O modelo escolhido foi o Mavic Air 3, fabricado pela chinesa DJI. Os testes ocorreram três locais em Gana, com o aparelho voando entre 15 e 50 metros acima do solo, por 10 a 15 minutos. Os esporos captadas nas áreas de produção de cacau tiveram o DNA sequenciado e analisado. Os pesquisadores encontraram diversas espécies de fungos potencialmente patogênicos. Entre eles, o Fusarium e o Lasiodiplodia, que ocorrem em diversas zonas tropicais do planeta, inclusive no Brasil.

Clique AQUI para conferir o artigo da pesquisa

Esses fungos podem causar ferrugem nas folhas, cancro do caule e podridão das vagens em cacaueiros. E, no Brasil, são risco também para culturas frutíferas como citros, caju, manga, cupuaçu, abacaxi, maracujá e outras culturas.

ADAPTAÇÃO: modelo de pequeno porte, usado normalmente em captação de imagens e com sistema de detecção de obstáculos foi o escolhido para receber a adaptação para coletar esporos de fungos na lavoura

 

VIGILÂNCIA

No caso da pesquisa africana, o objetivo é ajudar a implementar um sistema de vigilância de última geração contra doenças fúngicas na lavoura cacaueira da África Ocidental. A região é hora a maior produtora de cacau do mundo, num ranking liderado Pela Costa do Marfim e tendo Gana em segundo – segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO, na sigla em inglês).

Os dois países africanos respondem por mais da metade da produção mundial e Brasil ocupa o sétimo lugar na lista de países produtores (apesar do cacaueiro ser originário da Região Amazônica). Os líderes do ranking, mais Camarões e Nigéria (4º e 5º maiores produtores) ficam na África Subsaariana, a região mais pobre do planeta.

Daí a importância da pesquisa, já que se trata de uma produção de pequenos agricultores. “Isso significa que, se ocorrer uma doença fúngica, pode ser devastador para os produtores individuais”, destacou Kevin King, em matéria no site do Rothamsted Research.  “Se pudermos usar levantamentos aéreos com drones para manter um alto nível de vigilância, as chances de lidar rapidamente com surtos de doenças minimizarão os danos e os custos para os agricultores”, completou o fitopatologista, que liderou o estudo.  

Fundado ainda na primeira metade do século 19, o Rothamsted Research é uma das entidades de pesquisa agrícola mais antigas do mundo. Ela é uma entidade sem fins lucrativos, operada por organizações privadas e financiada principalmente pelo governo do Reino Unido. Sua sede fica  em Harpenden, 70 quilômetros a noroeste de Londres.