Lamentamos o comentário do colunista ambiental da Globo André Trigueiro, no fechamento do Em Pauta desta quinta-feira (5/12) na programação da GloboNews – a respeito da aprovação, no Rio Grande do Sul, do projeto de lei estadual que considera a aviação agrícola como de Relevante Interesse Social, Público e Econômico no Estado. A falta de entendimento do comentarista sobre a matéria acaba, na verdade, aprofundando um preconceito que mais prejudica do que ajuda em soluções para a temática sobre o uso de agrotóxicos no País.
Primeiro, a lei aprovada no Rio Grande do Sul não “torna livre” o uso da pulverização aérea de agrotóxicos no Estado. Ela deixa claro que a ferramenta – que é altamente regulada por legislação federal e está sujeita, sim e desde sempre, à fiscalização dos órgãos ambientais e de agricultura dos Estados – é importante para a agricultura gaúcha.
O projeto de lei assinado por 24 parlamentares da casa foi, na verdade, uma resposta a uma proposta de proibição já derrubada duas vezes e reapresentado uma terceira. Em todas elas sob as mesmas alegações que têm o potencial de justamente aprofundar as consequências do mau uso de insumos nas lavouras, ao invés de promover uma segurança ambiental e mesmo das pessoas.
Primeiro, porque os mesmos produtos aplicados por aviões e drones são usados também via equipamentos terrestres – de tratores a pulverizadores costais (que são aqueles equipamentos onde o aplicador trabalha a pé, levando o produto em uma espécie de “mochila” nas costas). E todos esses modelos de aplicação têm o risco da deriva – que é quando o produto aplicado se desvia do alvo. O que ocorre quando não são observados os parâmetros de velocidade do vento, temperatura ambiente e umidade relativa do ar.
Tanto que é justamente aí que está um dos grandes trunfos da aviação: o da velocidade e precisão. Os aviões podem iniciar e terminar uma operação sem extrapolar a janela climática. Além de concluírem grandes áreas com uniformidade e antes que uma praga mude de estágio. Não fosse assim, o próprio mercado já teria extinguido a aviação agrícola, já que os agrotóxicos representam parte de um pacote de insumos que chega a 1/3 dos custos de produção (valores que podem ser conferidos no site da Conab).
Em outras palavras, é importante lembrar que não é a ferramenta o fator determinante para o uso de insumos. Mas, no caso da aviação, sua escolha está justamente ligada à economia de tais insumos. Inclusive já com empresas de auditoria com tecnologias contratadas por produtores para atestar que as aplicações foram bem-feitas, na dosagem certa e sem perdas de produtos – também para garantir que não haja derivas (sejam elas de equipamentos aéreos ou terrestres).
Falando em tecnologias, é importante ressaltar que, apesar dos mesmos riscos e mesmos produtos aplicados nas lavouras, entre todas as modalidades de aplicação a aviação é a única ferramenta que tem legislação específica. Com regras claras prevendo desde a obrigatoriedade de pátio de descontaminação (sistema de lavagem de aeronaves e equipamentos com tratamento de efluentes) até qualificação no mínimo técnica de praticamente todos os envolvidos (desde o piloto especialmente formado, agrônomo responsável pela coordenação e técnico agrícola em campo com especialização em operações aeroagrícolas). Sem falar no registro completo de cada operação – desde produto, equipe envolvida, local da lavoura, dados climáticos e outras informações. Incluindo também o mapa do DGPS da aeronave, indicando com precisão cada faixa aplicada e onde o avião passou com sistema de pulverização aberto ou fechado.
Enfim, com vários outros predicados que podem ser conferidos na seção Segurança e importância x Fatos e Mitos em nosso site, no link:
https://sindag.org.br/fatos_e_mitos/aviacao-agricola-seguranca-e-importancia-x-fatos-e-mitos/
Quanto à questão da proibição da aviação agrícola no Ceará, mencionada também no comentário de Trigueiro, cabe destacar que o episódio na verdade ratifica o quanto pode ser prejudicial um debate sem uma análise serena de todos os fatores envolvidos no tema. O que pode ser demonstrado inclusive a partir da importância do trabalho do Jornalismo da Globo na defesa das pessoas. Em 2015, o programa Profissão Repórter fez uma incursão local, abordando justamente a temática sobre o uso dos agrotóxicos.
Na matéria, acessível no endereço https://globoplay.globo.com/v/4584190/ onde, em 5’11” , o repórter acompanha um grupo de trabalhadores fazendo aplicações com pulverizadores costais sem nenhum EPI. Assim como há outras cenas da equipe, segundo os jornalistas, entrando com trabalhadores sem EPI em zonas onde teria ocorrido pouco antes a aplicação de agrotóxicos. O que nos dois flagrantes não tem a ver com uso de aeronaves.
No entanto, ecos dessa reportagem provavelmente se refletiram nas estatísticas da própria Secretaria de Saúde do Ceará. Como pode ser observado no relatório do Programa Nacional de Vigilância de Populações Expostas a Contaminantes Químicos no Ceará – publicado em janeiro de 2023. Mas especificamente na tabela da página 16.
Onde fica claro que a partir de 2015, quando foi exibida a reportagem, houve um declínio nos registros de casos de contaminação por agrotóxicos. Que aumentaram novamente a partir de 2019, quando a aviação agrícola passou a ser proibida no Estado.
Deixando nítido também o quanto a ótica do preconceito é prejudicial a um debate maduro sobre uso de agrotóxicos, segurança no campo e sustentabilidade ambiental.
Daí cabe ressaltar também que o Sindag está atento a estes temas, ao mesmo tempo em que não só incentiva as boas práticas mas também colabora e pede maior atuação dos órgãos de regulação – inclusive ajudando a treinar os fiscais sobre as tecnologias e rotinas do setor.
E, acima de tudo, trabalha para levar serenidade e racionalidade ao debate.