China amplia aposta em drones no campo

Novo instituto em Guangdong reúne aviação agrícola de precisão, inteligência artificial e integração entre equipamentos aéreos e terrestres, em uma estratégia observada há mais de uma década na região

Uma nova estrutura de pesquisa inaugurada há pouco mais de duas semanas na Universidade Agrícola do Sul da China deve ampliar o protagonismo do país na geração de conhecimento científico, tecnologias, produtos e padrões para o mercado global de drones agrícolas. A iniciativa é um movimento importante sobre o setor no cenário internacional e tende a reforçar o papel de Guangzhou — capital da província de Guangdong, próxima a Hong Kong e Macau — como um dos principais polos mundiais de drones agrícolas e tecnologias aeroagrícolas não tripuladas.

Trata-se do Instituto de Pesquisa de Baixa Altitude, inaugurado em 16 de julho para atuar em áreas como aplicações aéreas de precisão, sensoriamento remoto, análise de lavouras por imagens, monitoramento ambiental, inteligência artificial e coordenação entre equipamentos aéreos e terrestres. A nova unidade se apoia em uma trajetória científica iniciada pela universidade em 2014, com a criação do Centro Internacional de Pesquisa em Tecnologia de Precisão em Aplicações por Aviação Agrícola.

Esse histórico já havia sido apresentado pelo Sindag há cinco anos, no especial Drones: China, Brasil e as Tendências de Mercado.

Escopo ampliado

Com a nova unidade, a pesquisa desenvolvida pela universidade, antes fortemente concentrada nas aplicações aéreas, passa a se debruçar também sobre inteligência artificial, engenharia agrícola, ciência das plantas, gestão de dados e governança do chamado espaço aéreo de baixa altitude – que inclui a integração com equipamentos terrestres. Isso desde a pesquisa básica e o desenvolvimento de máquinas até sistemas de decisão, padrões técnicos e políticas públicas.

Para isso, a universidade pretende atuar em cinco frentes: tecnologias e equipamentos para operações aéreas agrícolas de precisão; sistemas inteligentes de sensoriamento remoto; análise das características das plantas por imagens aéreas; monitoramento integrado entre o ar e o solo; e coordenação entre drones e máquinas terrestres. A estrutura parte de uma produção científica acumulada de mais de 400 artigos e mais de 120 patentes de invenção, além de uma rede de nove unidades de cooperação no exterior e de parcerias com fabricantes como DJI e XAG.

INAUGURAÇÃO: o presidente (reitor) da Universidade Agrícola do Sul da China, Xue Hongwei (de camisa preta), comandou o descerramento da placa de inauguração do novo instituto, junto com o diretor Lan Yubin (segundo, a partir da direita) e outros professores – foto: divulgação

Tecnologia virou política de Estado

A novidade veio poucos meses depois de os drones agrícolas ganharem um novo peso na política nacional chinesa. Em fevereiro, o Documento Central nº 1, principal diretriz anual do governo de Pequim para a agricultura e o desenvolvimento rural, já havia determinado a ampliação do uso de drones, robôs, inteligência artificial e Internet das Coisas no campo.

O Sindag também havia chamado a atenção para essa mudança. Em matéria publicada em seu site após a divulgação do documento, a entidade brasileira destacou que era a primeira vez que drones e robôs apareciam expressamente na principal orientação anual do governo chinês para a agricultura.

Segundo dados então divulgados por autoridades chinesas, dos cerca de 500 mil drones agrícolas em uso no mundo, mais de 300 mil estariam na China. A atuação dos equipamentos também teria avançado da pulverização, semeadura e distribuição de fertilizantes para o monitoramento de lavouras e criações, além do transporte de insumos e produtos agrícolas.

Diretor tem formação no ocidente

O novo instituto será dirigido pelo professor Lan Yubin, que também lidera a estrutura de pesquisa em aviação agrícola de precisão da universidade. Doutor pela Texas A&M University e ex-pesquisador do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, ele foi eleito, em 2018, membro da Academia Europeia de Ciências, Artes e Humanidades.

Em 2021, o site do Sindag já destacava que a China havia iniciado aquele ano com cerca de 100 mil drones agrícolas, aproximadamente um terço do número atual, e 53,3 milhões de hectares atendidos pelos equipamentos. Os números haviam sido apresentados por Lan Yubin em um evento do setor.

O especial explicava ainda que a opção chinesa pelos drones não decorria apenas de uma preferência tecnológica. O movimento respondia à redução da população rural, ao envelhecimento dos trabalhadores do campo e à necessidade de ampliar a produção em propriedades onde muitas tarefas ainda eram realizadas manualmente. A estratégia incluiu subsídios aos agricultores para a compra dos equipamentos, incentivos à indústria e investimentos em pesquisa.

Sindag foi à China em março

As tendências da estratégia de mercado chinesa foram conferidas de perto pelo Sindag em março deste ano. Na ocasião, o diretor-executivo da entidade aeroagrícola brasileira, Gabriel Colle, participou, em Xangai, da China International Agrochemical & Crop Protection Exhibition, a CAC 2026.

A feira reuniu cerca de 2,2 mil expositores, distribuídos em seis pavilhões que somavam 160 mil metros quadrados. Segundo Colle, o evento mostrou uma indústria chinesa acelerando tanto na oferta de insumos quanto em drones de maior capacidade, inteligência artificial e plataformas que reúnem equipamentos, softwares de missão, análise agronômica e recomendações para as aplicações.

A percepção foi de que o equipamento está deixando de ser oferecido isoladamente. Empresas chinesas já apresentam pacotes completos, nos quais o drone integra um sistema mais amplo de coleta de dados, automação e gestão das operações. Segundo o dirigente do Sindag, ficou claro que o Brasil aparece como um mercado prioritário nessa expansão, tanto pela dimensão de sua agricultura quanto pelo crescimento do uso de novas tecnologias no campo.

A criação do instituto reforça esse movimento. Mais do que ampliar a produção de equipamentos, a China procura integrar drones, dados, inteligência artificial e recomendações agronômicas em um mesmo sistema, aproximando universidades, governo e indústria. Uma transformação que merece atenção no Brasil, apontado pelas próprias empresas chinesas como mercado prioritário para essa expansão.

LARGADA: logo após Hongwei entregar as cartas de nomeação aos dirigentes do Comitê Acadêmico do novo Instituto…
….o grupo já teve sua reunião inaugural, com apresentação do plano de construção e planejamento estratégico integrando disciplinas – fotos: SCAU/divulgação