Novo instituto em Guangdong reúne aviação agrícola de precisão, inteligência artificial e integração entre equipamentos aéreos e terrestres, em uma estratégia acompanhada pelo Sindag desde 2021
A Universidade Agrícola do Sul da China inaugurou, em 16 de julho, um novo centro de estudos para acelerar o uso de drones, inteligência artificial e sistemas autônomos na agricultura. Instalado em Guangzhou, capital da província de Guangdong, próxima a Hong Kong e Macau, o Instituto de Pesquisa de Baixa Altitude foi criado para integrar áreas como aplicações aéreas de precisão, sensoriamento remoto, análise de lavouras por imagens, monitoramento ambiental e coordenação entre equipamentos aéreos e terrestres.
A nova estrutura abrange desde a pesquisa básica e o desenvolvimento de máquinas até sistemas de decisão, padrões técnicos e políticas públicas. A iniciativa representa um desdobramento da trajetória iniciada pela universidade em 2014, com a criação do Centro Internacional de Pesquisa em Tecnologia de Precisão em Aplicações por Aviação Agrícola, e consolidada dois anos depois com o reconhecimento de um centro nacional especializado. Essa história já havia sido mencionada pelo Sindag, há cinco anos, no especial Drones: China, Brasil e as Tendências de Mercado.
Escopo ampliado
Com a nova unidade, a pesquisa chinesa antes concentrada nas aplicações aéreas passa a se debruçar mais atentamente também sobre inteligência artificial, engenharia agrícola, ciência das plantas, gestão de dados e governança do chamado espaço aéreo de baixa altitude – que inclui a integração com equipamentos terrestres.
A universidade pretende atuar em cinco frentes: tecnologias e equipamentos para operações aéreas agrícolas de precisão; sistemas inteligentes de sensoriamento remoto; análise das características das plantas por imagens aéreas; monitoramento integrado entre o ar e o solo, e coordenação entre drones e máquinas terrestres. A estrutura parte de uma produção científica acumulada de mais de 400 artigos e 120 patentes de invenção, além de uma rede de nove unidades de cooperação no exterior e de relações com fabricantes chineses de drones agrícolas – como DJI e XAG.

Tecnologia virou
política de Estado
A novidade veio poucos meses depois de os drones agrícolas ganharem um novo peso na política nacional chinesa. Em fevereiro, o Documento Central nº 1, principal diretriz anual do governo de Pequim para a agricultura e o desenvolvimento rural, já havia determinado a ampliação do uso de drones, robôs, inteligência artificial e Internet das Coisas no campo.
O Sindag também havia chamado a atenção para essa mudança. Em matéria publicada em seu site após a divulgação do documento, a entidade brasileira destacou que era a primeira vez que drones e robôs apareciam expressamente na principal orientação anual do governo chinês para a agricultura.
Segundo dados então divulgados por autoridades chinesas, dos cerca de 500 mil drones agrícolas em uso no mundo, mais de 300 mil estariam na China. A atuação dos equipamentos também teria avançado da pulverização, semeadura e distribuição de fertilizantes para o monitoramento de lavouras e criações, além do transporte de insumos e produtos agrícolas.
Trajetória acompanhada pelo Sindag
O novo instituto será dirigido pelo professor Lan Yubin, que também lidera a estrutura de pesquisa em aviação agrícola de precisão da universidade. Doutor pela Texas A&M University e ex-pesquisador do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, ele foi eleito, em 2018, membro da Academia Europeia de Ciências, Artes e Humanidades.
Em 2021, o site do Sindag já destacava que a China havia iniciado aquele ano com cerca de 100 mil drones agrícolas, aproximadamente um terço do número atual, e 53,3 milhões de hectares atendidos pelos equipamentos. Os números haviam sido apresentados por Lan Yubin em um evento do setor.
O especial explicava ainda que a opção chinesa pelos drones não decorria apenas de uma preferência tecnológica. O movimento respondia à redução da população rural, ao envelhecimento dos trabalhadores do campo e à necessidade de ampliar a produção em propriedades onde muitas tarefas ainda eram realizadas manualmente. A estratégia incluiu subsídios aos agricultores para a compra dos equipamentos, incentivos à indústria e investimentos em pesquisa.
Dirigente aeroagrícola
brasileiro foi a Xangai
As tendências da estratégia de mercado chinesa foram conferidas de perto pelo Sindag em março deste ano. Na ocasião, o diretor-executivo da entidade aeroagrícola brasileira, Gabriel Colle, participou, em Xangai, da China International Agrochemical & Crop Protection Exhibition, a CAC 2026.
A feira reuniu cerca de 2,2 mil expositores, distribuídos em seis pavilhões que somavam 160 mil metros quadrados. Segundo Colle, o evento mostrou uma indústria chinesa acelerando tanto na oferta de insumos quanto em drones de maior capacidade, inteligência artificial e plataformas que reúnem equipamentos, softwares de missão, análise agronômica e recomendações para as aplicações.
A percepção foi de que o equipamento está deixando de ser oferecido isoladamente. Empresas chinesas já apresentam pacotes completos, nos quais o drone integra um sistema mais amplo de coleta de dados, automação e gestão das operações. Segundo o dirigente do Sindag, ficou claro que o Brasil aparece como um mercado prioritário nessa expansão, tanto pela dimensão de sua agricultura quanto pelo crescimento do uso de novas tecnologias no campo.
A criação do instituto reforça esse movimento. Mais do que ampliar a produção de equipamentos, a China procura integrar drones, dados, inteligência artificial e recomendações agronômicas em um mesmo sistema, aproximando universidades, governo e indústria.