País do noroeste da África mobilizou aeronaves militares e drones em frentes de semeadura aérea para recuperar áreas degradadas, pastagens e proteger a agricultura
Em um país onde a desertificação já afeta mais de 84% do território, a Mauritânia recorreu novamente à aviação para tentar devolver cobertura vegetal a áreas degradadas. O país do noroeste africano realizou em agosto uma campanha nacional de semeadura aérea de espécies nativas para estabilizar dunas, recuperar pastagens e proteger áreas produtivas.
O início dos trabalhos foi anunciado em 31 de julho pela Agência Mauritana de Informação. A campanha principal envolveu os Ministérios da Defesa e do Meio Ambiente, com participação de aeronaves da Força Aérea mauritana e previsão de distribuir três toneladas de sementes em três grandes zonas do país.
O planejamento abrangeu áreas do noroeste e norte (Trarza, Inchiri e Adrar), centro-sul e leste (Brakna, Assaba, Tagant, Hodh Ech Chargui e Hodh El Gharbi) e extremo norte, incluindo Tiris Zemmour e as áreas das cidades históricas de Ouadane e Chinguetti. As regiões incluídas na estratégia somam cerca de 8,7 milhões de hectares – referentes às zonas de atuação e não necessariamente à área efetivamente semeada.
Até esta terça-feira (8), as autoridades mauritanas ainda não haviam divulgado um balanço final da campanha de 2026, com a área efetivamente alcançada ou índices de germinação. Segundo o governo, além da conservação dos recursos naturais, o reflorestamento e a recuperação de pastagens têm como foco aumentar a capacidade do país de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
Para isso, foram selecionadas espécies adaptadas ao ambiente árido da Mauritânia, entre elas o talh – um tipo de acácia – e o teychett, pequena árvore conhecida como tâmara-do-deserto. A escolha é estratégica porque não se trata simplesmente de espalhar sementes sobre o deserto. A semeadura aérea integra um processo para recuperar ambientes onde, com o retorno da cobertura vegetal, outras espécies passam a encontrar melhores condições para sobreviver.
Em outras palavras, nesse tipo de operação aviões e drones não atuam necessariamente plantando uma floresta no país. O plano, na verdade, é abrir caminho para ela e ainda restaurar pastagens. Em última instância, protegendo sistemas agropastoris.

Grande Muralha Verde
O esforço de recuperação ambiental da Mauritânia integra a Grande Muralha Verde da África, iniciativa lançada em 2007 pela União Africana para combater a desertificação e recuperar terras degradadas no Sahel – faixa semiárida que atravessa o continente ao sul do deserto do Saara.
A proposta surgiu com a ideia de formar um grande cinturão de vegetação do Senegal, no Oceano Atlântico, até o Djibuti, no Mar Vermelho. Com o tempo, o conceito foi ampliado para um conjunto de projetos de restauração de terras, recuperação de ecossistemas e fortalecimento das comunidades locais.
O programa conta também com apoio do sistema das Nações Unidas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) atua na assistência técnica para restaurar terras, recuperar sistemas produtivos e testar tecnologias, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) trabalha na frente ecológica e a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) participa da articulação e do acompanhamento internacional da iniciativa.
Drones em ação
Paralelamente à operação envolvendo a Força Aérea, a Agência Nacional da Grande Muralha Verde da Mauritânia colocou drones agrícolas em outra frente de semeadura. Nesse caso, a campanha prevê atuar em cerca de 5 mil hectares distribuídos por 93 locais de seis regiões do país, utilizando aeronaves remotamente pilotadas para ampliar a velocidade e a precisão da distribuição das sementes.
A tecnologia já vinha sendo testada na Mauritânia pelo menos desde 2023. Entre os equipamentos apresentados naquele período estavam drones com capacidade para transportar cerca de 20 quilos de sementes. A FAO participa também dessa ação, auxiliando na escolha das espécies e na definição de parâmetros como altura e velocidade de voo para melhorar a distribuição.
A Grande Muralha Verde foi ainda escolhida como uma das Iniciativas de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagships) da Década da ONU (2021–2030), liderada pela FAO e pelo PNUMA.