Sindag oficiou ao Mapa sobre aumentos

Entidade avisou ainda na última semana sobre estudo que aponta disparada de até 67% nos combustíveis da aviação agrícola, elevando pressão por reação do governo

A escalada recente no preço dos combustíveis de aviação levou o Sindag a formalizar, ainda na última semana, um alerta direto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em ofício enviado no dia 9 de abril, a entidade expõe um cenário de pressão crescente sobre a aviação agrícola — e, por consequência, sobre toda a cadeia produtiva do agro brasileiro. O documento foi enviado ao Mapa logo após a divulgação de um levantamento a entidade aeroagrícola, que mostrou aumentos expressivos nos principais combustíveis utilizados nas operações aeroagrícolas.

Nos bastidores de Brasília, porém, a reação institucional ainda não acompanhou a velocidade da alta dos combustíveis no setor aéreo. Isso apesar de o governo federal já ter anunciado, no começo deste mês, subsídios ao diesel e ao gás de cozinha, além de desoneração tributária e linhas de crédito para o setor aéreo — mas com foco em evitar subida abrupta das passagens.

Há indicações de que o tema começa a circular em instâncias técnicas do ministério, embora ainda sem confirmação de inclusão formal nas câmaras temáticas do Mapa. Enquanto isso, no Legislativo federal, na reunião desta terça-feira (14) da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) com o Ministério da Agricultura, a pauta ficou concentrada em crédito rural, endividamento dos produtores e seguro agrícola — sem avanço específico sobre o custo dos combustíveis aeroagrícolas.

CONSEQUÊNCIAS

Conforme a pesquisa do Sindag, o querosene de aviação (QAV, usado por 30% da frota aeroagrícola) acumula alta média de 51,6%, enquanto a gasolina de aviação (AVGAS, usada por 51% da frota) subiu 67,3%. Já o etanol — que movimenta os 19% restantes da frota — teve variação bem mais moderada, de 6,9%. Na prática, isso significa impacto direto sobre uma área estimada de 29 milhões de hectares no País, abrangendo pelo menos 29 culturas agrícolas, como soja, milho, algodão, cana-de-açúcar e trigo.

Segundo a entidade, o efeito se espalha por toda a cadeia agroindustrial, atingindo inclusive a produção de proteínas animais — já que boa parte dos grãos tratados com apoio da aviação é destinada à alimentação de rebanhos. A projeção dos operadores é de um repasse médio de 10,39% nos serviços aeroagrícolas, numa tentativa de recompor parte das perdas operacionais. Cenário que, por sua vez, tende a pressionar os custos de produção e contribuir para o encarecimento dos alimentos nas prateleiras.

INCÊNDIOS

Além da questão econômica, o Sindag reforçou no documento ao Mapa o caráter estratégico da atividade. Já que a aviação agrícola não atua apenas na aplicação de insumos e na elevação da produtividade, mas também em frentes como o combate a incêndios florestais — um papel que ganha ainda mais relevância diante dos eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos.

Lembrando que a temporada das chamas em reservas naturais e lavouras começa no final de junho. E, segundo levantamento feito no ano passado sobre o combate na temporada anterior, em 2024 os pilotos agrícolas lançaram mais de 40 milhões de litros de água contra incêndios, protegendo biomas e lavouras em diversas partes do País — esforço que também pode ser impactado pelo aumento dos custos operacionais.

Cenário também se repete fora

O problema, porém, não é exclusivo do Brasil. A pressão sobre os custos da aviação agrícola vem sendo registrada em diferentes partes do mundo. Reportagem do portal Farmers Weekly, da Nova Zelândia, mostra que operadores locais já começaram a reajustar tarifas cobradas de produtores rurais para compensar a alta simultânea de combustíveis e fertilizantes.

No caso neozelandês, a dinâmica é semelhante à observada no Brasil: aumento de custos operacionais, repasse gradual aos clientes e risco de impacto direto sobre a produção agrícola. A diferença é que, em mercados menores, o efeito pode ser ainda mais imediato.

O paralelo internacional reforça a leitura do setor aeroagrícola brasileiro: a alta do petróleo deixou de ser apenas uma variável externa e passou a influenciar diretamente decisões operacionais — com reflexos que começam no abastecimento das aeronaves, passam pela lavoura e chegam, inevitavelmente, ao consumidor final.

EXPECTATIVA: enquanto amargam subida recorde nos preços dos combustíveis de aviação e aguardam reação do mercado ou ação do governo,, empresários aeroagrícolas projetam reajustes nos serviços para não precisarem manter suas aeronaves no chão e as lavouras desprotegidas - foto: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress

EXPECTATIVA: enquanto amargam subida recorde nos preços dos combustíveis de aviação e aguardam reação do mercado ou ação do governo,, empresários aeroagrícolas projetam reajustes nos serviços para não precisarem manter suas aeronaves no chão e as lavouras desprotegidas – foto: Castor Becker Júnior/C5 NewsPress