Aerodinâmica recebeu cerca de 80 acadêmicos de Agronomia em duas visitas neste mês e espera nova turma do IFRS na quarta-feira, aproximando os futuros profissionais das rotinas tecnologias do setor
Entrar na cabine, conhecer de perto um atomizador, conhecer as regulagens de uma aeronave, as instalações de uma empresa aeroagrícola, as rotinas em campo e acompanhar uma demonstração de aplicação aérea. Para cerca de 80 estudantes de Agronomia que passaram neste mês pela base da Aerodinâmica Aviação Agrícola, em Sertão, no norte gaúcho, a aviação agrícola deixou as imagens de sala de aula para ganhar tamanho real.
As visitas ocorreram nos dias 5 e 12 de setembro, primeiro com alunos do Campus Erechim da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) e depois com acadêmicos da uma turma da Faculdade Unideau de Getúlio Vargas. E o movimento continua. Na próxima quarta-feira, dia 23, a empresa deve receber estudantes do Campus Sertão do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), o antigo Colégio Agrícola da cidade.
Mais do que uma programação pontual, abrir os portões para estudantes já faz parte da rotina da Aerodinâmica. Segundo a coordenadora da empresa, Daiani Brandler, trata-se de uma ação permanente da aeroagrícola. Nos quatro anos que atua na Aerodinâmica (completados dia 15), ela calcula que a empresa tenha sido visitada por cerca de 2 mil alunos.
“A gente recebe esse pessoal todos os anos. Para nós é muito importante”, ressalta a profissional. Daiani também participa de semanas acadêmicas e aulas em universidades, falando sobre tecnologia de aplicação e aviação agrícola. Lembrando, aliás, que ela é doutora em Agronomia e coautora do trabalho que recebeu o prêmio Destaque Inovação no Congresso Científico da Aviação Agrícola deste ano.
Mas diz preferir o caminho inverso: levar os estudantes até a operação. “Poder tocar no avião, entrar dentro dele, se sentir no lugar do piloto, colocar a mão no atomizador, ver de perto o funcionamento da aeronave e uma simulação da aplicação é totalmente diferente de ir à sala de aula e falar, mostrar foto e vídeo”, compara.
Do receituário ao voo
Foi esse percurso que os acadêmicos da URI Erechim encontraram na primeira visita do mês. A turma acompanhou etapas que começam bem antes de o avião sair do chão: receituário agronômico, recebimento dos produtos, preparação da calda, escolha do tamanho das gotas, vazão, pontas e atomizadores e calibração do equipamento.
Professor da disciplina de Tecnologia de Aplicação da universidade, Jardes Bragagnolo destaca que a atividade completa, na prática, conteúdos trabalhados durante o curso, que também aborda pulverização terrestre e drones. “A ideia é enriquecer o currículo e os conhecimentos adquiridos durante a graduação, além de esclarecer dúvidas e informações que nem sempre são verdadeiras sobre a pulverização agrícola”, explica.
Os estudantes também puderam observar um voo de demonstração e visualizar a distribuição e precisão da aplicação ao longo da faixa percorrida. A aula na base da Aerodinâmica abordou horários de operação, condições meteorológicas, segurança, procedimentos em situações de risco e atribuições do piloto, da equipe de solo e do responsável técnico.
Capacidade surpreende alunos
No dia 12, foi a vez da turma da Unideau Getúlio Vargas. A visita integrou conteúdos ligados à disciplina de Máquinas Agrícolas e apresentou a aplicação aérea como mais uma alternativa dentro do conjunto de ferramentas disponíveis para o manejo das lavouras.
Segundo o professor César Tiago Forte, um dos pontos que mais surpreendeu os acadêmicos foi a capacidade operacional das aeronaves. “Eles ficaram impressionados com a quantidade de área que pode ser abrangida e com a rapidez da aplicação”, relata.
O grupo conheceu componentes do avião, equipamentos para aplicações líquidas e sólidas, critérios técnicos e procedimentos de controle. Outro tema foi a ideia, ainda comum entre alguns estudantes, de que o avião agrícola estaria restrito a grandes propriedades. A visita permitiu discutir como a decisão depende das características da área, da cultura, da logística disponível e das condições de operação.
Para Forte, colocar o acadêmico diante da tecnologia ajuda a complementar aquilo que é apresentado em aula. “A ideia é proporcionar uma dinâmica diferente em tecnologia de aplicação e buscar alternativas novas, que se somem ao manejo já praticado”, destaca.
Quando a visita planta uma ideia
Daiani vê também nas visitas uma oportunidade de despertar vocações. Entre os grupos que passam todos os anos pela Aerodinâmica há desde estudantes de cursos técnicos, ainda na adolescência, até universitários que em pouco tempo tomarão decisões dentro das propriedades rurais. “Pode ser que a visita desperte uma sementinha dentro deles e algum aluno também vire piloto agrícola.”
Há ainda o fator transparência: quanto mais estudantes e comunidades entram nas bases, mais conhecem o que existe por trás de uma aplicação. Regulagens, responsabilidade técnica, planejamento, meteorologia, treinamento e procedimentos de segurança passam a ocupar o lugar de percepções (muitas vezes, mitos). Isso independente de faixa etária ou escolaridade.
O retrospecto da Aerodinâmica tem um dessa força vindo de Massaranduba, em Santa Catarina. Em 2023, alunos do 8º ano da Escola Municipal Padre Bruno Linden transformaram o contato com a aviação agrícola no projeto Voo matemático – desvendando os segredos da aviação agrícola. Usando cálculos para explicar aspectos da segurança, da eficiência e da importância da ferramenta aérea para as lavouras do município, o trabalho venceu duas etapas de mostras estudantis.
A experiência catarinense ajuda a mostrar o alcance de uma prática incentivada nacionalmente pelo Sindag: abrir as empresas à comunidade, principalmente a escolas e universidades. Uma aproximação que permite ao setor mostrar sua rotina sem intermediários — e a quem chega conhecer, perguntar e formar sua própria compreensão sobre a aviação agrícola. Em última instância, também, uma ação para prevenir e combater mitos contra a atividade.