País amplia semeadura aérea para ajudar a alcançar meta de 15 bilhões de árvores até 2032 com técnica que chega a áreas de difícil acesso e já mobiliza até a Força Aérea
Chegar pelo ar onde o plantio em terra encontra dificuldades. Essa é a aposta do Quênia para acelerar a recuperação de áreas degradadas e avançar na meta de cultivar 15 bilhões de árvores até 2032. Apresentada pelo presidente William Ruto em 10 de outubro, a iniciativa de semeadura aérea combina aviação e tecnologia florestal para ampliar o alcance da restauração, complementando o trabalho de comunidades, produtores e instituições públicas.
O anúncio ocorreu durante o Mazingira Day, data dedicada ao meio ambiente no país africano, e em Endebess, no condado de Trans Nzoia, no oeste do Quênia. A apresentação incluiu uma demonstração prática: um helicóptero Huey da Força Aérea queniana distribuiu sementes sobre 35 hectares da estação florestal de Kiptogot. www.mod.go.ke
A meta é proporcional ao tamanho do desafio. O programa nacional pretende recuperar 10,6 milhões de hectares de paisagens degradadas e ampliar a cobertura de árvores a 30% do território até 2032. A estratégia abrange florestas, áreas agrícolas, pastagens, zonas úmidas e espaços urbanos, com foco em enfrentar a perda de biodiversidade, a degradação das terras e os efeitos das mudanças climáticas.
Mais do que ampliar a presença de árvores na paisagem, o objetivo é proteger recursos essenciais à população. A recuperação da vegetação está ligada à conservação dos mananciais e do solo, à segurança alimentar e à geração de trabalho e renda. Para as comunidades rurais, preservar esses ambientes significa também fortalecer as condições para produzir e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. forestry.go.ke
Operações já começaram
Embora o anúncio presidencial tenha dado nova visibilidade à tecnologia, a semeadura aérea já vinha sendo empregada na campanha. Em março deste ano, a Escola de Infantaria e a Força Aérea distribuíram 500 mil cápsulas com sementes de diferentes espécies de acácias em uma área de treinamento militar no condado de Isiolo. Os lançamentos priorizaram trechos com pouca vegetação, em uma região de condições áridas e semiáridas.
Em 9 de abril, outra operação levou 250 mil cápsulas de sementes de espécies nativas à floresta de Loita, no condado de Narok. A distribuição aérea acompanhou o plantio em terra de mudas nativas e frutíferas, combinando a recuperação ambiental com ações voltadas às comunidades locais.
A aviação agrícola também tem participação nessa trajetória. Em fevereiro de 2022, antes do lançamento da atual campanha nacional, a empresa Farmland Aviation disponibilizou um avião Air Tractor para distribuir sementes nas partes mais altas e de difícil acesso do vale de Subukia e das colinas próximas. Segundo a Seedballs Kenya, a iniciativa distribuiu um milhão de cápsulas em duas horas. O registro não especifica o modelo do avião.
Proteção até a chuva
A técnica utiliza pequenas esferas chamadas de seedballs, que envolvem as sementes em uma camada protetora. Na solução produzida pela Seedballs Kenya, o revestimento leva pó de carvão e aglutinantes nutritivos. O material ajuda a proteger as sementes do consumo por aves, roedores e insetos e das temperaturas extremas até a chegada das chuvas. Depois de molhado, também contribui para manter a umidade necessária à germinação.
A seleção das árvores depende do ambiente a ser recuperado. Na operação de Subukia, por exemplo, foram utilizadas cinco espécies de acácias — identificadas como Acacia kirkii, Acacia seyal, Acacia nilotica, Acacia senegal e Acacia abyssinica —, além da oliveira-africana, registrada como Olea africana. A escolha considerou recomendações do Instituto de Pesquisa Florestal do Quênia e espécies que a comunidade apontou como retiradas para a produção de carvão.
O lançamento, porém, é uma etapa do processo: nem toda semente se transforma em árvore. A germinação e a sobrevivência dependem da adequação das espécies e das condições locais. A aviação amplia o alcance da distribuição, enquanto o resultado da restauração precisa ser acompanhado em campo.
Outras frentes na África
A iniciativa queniana se soma a outras experiências de recuperação ambiental pelo ar no continente. Na Mauritânia, conforme noticiado pelo Sindag em setembro, aeronaves militares e drones agrícolas foram mobilizados em frentes de semeadura de espécies nativas para recuperar áreas degradadas e pastagens, estabilizar dunas e proteger a agricultura. O esforço integra a Grande Muralha Verde, iniciativa africana de restauração de terras e enfrentamento da desertificação na região do Sahel, ao sul do Saara. sindag.org.br
No Quênia, a semeadura aérea se incorpora a uma mobilização mais ampla. Durante as comemorações de outubro, o governo informou que o aplicativo de acompanhamento Jaza Miti já registrava dois bilhões de árvores na campanha nacional. O número abrange o conjunto das ações de plantio, e não apenas os lançamentos aéreos, que passam a reforçar o esforço para alcançar a meta de 2032.

