Aviação contra a dengue em pauta em Conexão Rural e no Campo Aberto

O diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, deu entrevista ao jornalista gaúcho Alex Soares e ao comunicador paulista Cláudio Correa sobre a urgência da adoção das ferramentas aéreas contra o mosquito que já provocou mais de 500 mil casos da doença apenas nas seis semanas deste início de 2024

A urgência das ferramentas aéreas contra o Aedes aegypti e o preconceito que ainda impede a aviação agrícola (aviões e drones) integrarem as estratégias contra a dengue, chikungunya e zika no Brasil. Apesar da modalidade estar prevista na legislação federal de ações contra o mosquito – validada em 2019 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E seguindo o modelo de outros países (inclusive da Europa), onde desde os anos 1940 a aviação integra o arsenal de autoridades sanitárias contra arboviroses.  Esse foi o tema de duas entrevistas do diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle, no último sábado (10). O assunto esteve em pauta nos programas Conexão Rural , da Rádio Acústica FM (Camaquã/RS) e Hora da Prosa (no Jornal Campo Aberto), da CBN Grandes Lagos, em São José do Rio Preto/SP.

Na conversa com os jornalistas Alex Soares e Cláudio Correa, Colle destacou que a solução começa a vir de prefeituras do interior gaúcho e de São Paulo – que  resolveram tomar a frente e testar o uso de drones contra focos de Aedes aegypti. Fruto da urgência de um início de ano onde o Brasil já amarga mais de meio milhão casos de dengue –  cerca de 300% a mais do que no mesmo período do ano passado. Registando também 415 mortes ligadas à doença, embora 340 delas ainda sob investigação.

Isso tudo com o próprio Ministério da Saúde já tendo admitido que  o Brasil pode registrar até 4,2 milhões de casos de dengue este ano. O que superaria de longe (2,5 vezes mais) o recorde de 2015, quando o País registrou 1.649.008 de casos de dengue (acesse AQUI e veja na página 260). O que, em tese, coloca o País em rota de superar também o recorde de 1.079 mortes pela doença, registrado no ano passado.

Confira abaixo a entrevista no Nas Asas da Aviação Agrícola – Conexão Rural/Rádio Acústica FM….

 

…e, abaixo, o bate-papo no Hora da Prosa – no Campo Aberto/CBN Grandes Lagos

 

OTIMIZAR RECURSOS

Justamente por aplicar do alto os mesmos produtos atualmente usados nos fumacês terrestres, as ferramentas aéreas ajudariam a otimizar recursos sem potencializar riscos. Seja pela rapidez de cobrir 400 quarteirões por hora com avião e entre 10 e  20 quarteirões/hora com drones, como por alcançar os fundos das propriedades, terrenos baldios e áreas longe das vias públicas. Além da capacidade de aplicar larvicidas em piscinas abandonadas em imóveis fechados ou mesmo em águas acumuladas em lajes e calhas no topo de prédios.

Isso levando em conta que, só nas primeiras cinco semanas deste ano, o governo federal já disponibilizou quase 100 mil litros de inseticida para fumacês terrestres. Além de 19,8 toneladas de larvicida biológico para ser usado junto a residências e outros 3.370 quilos de larvicidas para serem aplicados nos chamados pontos estratégicos (PEs) – borracharias, ferros-velhos e outros locais que normalmente são focos de mosquitos. Isso segundo o Informe do Centro de Operações em Emergências (COE) do Ministério da Saúde – confira AQUI (pagina 7).

Enquanto isso, entre as prefeituras que resolveram tomar a frente para apostar nas ferramentas aéreas contra mosquitos destacam-se:

RIO GRANDE DO SUL

Santo Ângelo Na última terça-feira (6), a imprensa gaúcha anunciou que o Município de Santo Ângelo (no noroeste do Rio Grande do Sul) estava adotando a pulverização aérea por drones pra eliminar focos do mosquito Aedes aegypti (transmissor da dengue, zika e Chikungunya).

Isso com o uso de drones para aplicação de larvicidas biológicos, aproveitando a capacidade da ferramente aérea de atingir locais de difícil acesso – como terrenos baldios, fundos de casas, calhas em pontos elevados e até locais afastados de ruas e vielas. Onde muitas vezes não é possível chegar nem a pé, com pulverizador costal.

Para isso, a Secretaria Municipal de Saúde vez um teste de pulverização no Parque de eventos da cidade. Onde comprovou que as aplicações com drones eliminaram 80% das larvas. E sem risco para pessoas e meio ambiente.  A decisão foi tomada quando a Secretaria de Saúde detectou o primeiro caso de dengue na cidade (e ainda assim, um caso importado). Agora, segundo o Ministério da Saúde, a cidade tem dois casos de dengue ainda sendo investigados.

SÃO PAULO

Capital – O próprio prefeito Ricardo Nunes acompanhou no último sábado (3) os testes em um mutirão contra a dengue no bairro da Vila Jaguara, Zona Oeste – nas ações do Dia D de Combate à Dengue na capital. O aparelho foi usado para aplicar larvicida nos terrenos e imóveis em condição de abandono da região.A opção pela ferramente foi pela demora do processo legal para a Vigilância Sanitária ter acesso a locais fechados.

“É um teste. Nas próximas semanas será concluída a fase de pesquisa e a cidade passará a ter um maior número de drones. Contaremos, no mínimo, com uma peça em cada uma das seis coordenadorias regionais de saúde para fazer parte do portfólio de combate à dengue na cidade”, declarou o prefeito.

Além da tecnologia de drones, a Prefeitura Paulista investiu também em equipamentos terrestres.  “Tínhamos 30 veículos para aplicação do fumacê e compramos mais 30. Tínhamos 2 mil agentes e hoje temos 12 mil”, completou Ricardo Nunes. O Município tem 12.733 casos registrados de dengue este ano, com sete mortes (uma delas ainda em investigação)

Botucatu A prefeitura de Botucatu tem mobilizado funcionários aos domingos para eliminar focos e falar sobre conscientização. Já fez um mutirão com 1 mil funcionários deixando seus postos e indo para as ruas em ações nos bairros.

E começou a usar drones para aplicar larvicidas em locais de difícil acesso. O aparelho foi adquirido ainda em 2023, com capacidade de oito litros de produto no tanque. O Município já registra 1.261 casos de dengue.

Sertãozinho – Embora sem dados , desde 2022 a Prefeitura sertanezina usa drones para aplicação de larvicida. Segundo o Ministério da Saúde, o Município tem 30 casos da doença.

Pesquisas proteladas há mais de 20 anos

Os relatos de Colle nas entrevistas do final de semana têm como pano de fundo mais de 20 anos idas e vindas do Sindag junto ao Ministério da Saúde. Justamente solicitando a realização de pesquisas sobre o combate aéreo a mosquitos, para validar e adaptar à realidade brasileira protocolos que são comuns (e efetivos) contra mosquitos em outros países. Também para revalidar os relatórios das operações aéreas realizadas em 1975, na Baixada Santista. Quando aplicações por aviões agrícolas, em apoio a operações em solo, ajudaram a eliminar mosquitos que eram a causa de um surto de encefalite nos municípios de Mongaguá, Peruíbe e Itanhaém.   

Episódio mencionado inclusive na cartilha sobre o tema publicada em 2016 pela entidade.

No mesmo ano, o uso de aplicações aéreas no combate a vetores da dengue foi incluído nas estratégias oficiais contra a dengue, Chikungunya e zika. Isso dentro da Lei Federal 13.301/2016, que (justamente por isso) acabou questionada junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Com a decisão da suprema corte saindo em janeiro de 2019 – aprovando a ferramenta e reforçando o pré-requisito das pesquisas científicas para seu uso.  Aliás, esse e outros aspectos sobre aviões x mosquitos foram tema uma reportagem abrangente na edição número 5 da revista Aviação Agrícola – confira AQUI, nas páginas 16 a 46.

Brasil fornece aos EUA tecnologia aérea contra mosquitos

Ironia: enquanto aqui o uso da aviação contra mosquitos é visto com preconceito, nos Estados Unidos as autoridades sanitárias utilizam equipamentos brasileiros nesse tipo de operação. No caso, atomizadores rotativos da Zanoni Equipamentos. Situada em Paranavaí, no noroeste paranaense, há mais  de 20 anos a empresa é uma das principais fornecedoras de tecnologias para a aviação agrícola brasileira.

Aliás, falando em estratégias de saúde estadunidenses, lá os primeiros testes de uso de aviões contra mosquitos ocorreram em 1926. E desde os anos 40 faz parte das estratégias do país contra doenças, através dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs, na sigla em inglês). Detalhe: lá as aplicações são sempre na fase de prevenção. Eles nunca deixam a situação chegar a uma epidemia. Inclusive com aplicações mensais de larvicidas em algumas regiões do país.

Para completar, a própria Força Aérea dos Estados Unidos tem uma unidade especializada no combate a mosquitos, com uso de aviões Hércules C-130. Ela é acionada, por exemplo, em caso de furações, com a missão de aplicar larvicidas em áreas úmidas, para evitar ao nascimento dos mosquitos. Além da América do Norte (o México também usa aviação contra mosquitos), aeronaves são usadas nas estratégias de saúde pública também na Argentina, na Europa e Oriente Médio.